Dirigido pelo cearense Guto Parente, o longa "Morte e Vida Madalena" estreia nos cinemas retratando os bastidores e os desafios do audiovisual independente e fora do eixo Rio-São Paulo. A comédia dramática foca em Madalena, uma produtora grávida que tenta finalizar a obra inacabada do pai falecido em meio ao caos pessoal. Com orçamento de R$ 2 milhões e elenco de parceiros habituais, o 11º filme do diretor homenageia o cinema artesanal, unindo humor, afeto e a força do trabalho coletivo.
Fazer um filme já é, por si só, um exercício de insistência. Fazer um filme independente, com pouco dinheiro, fora do eixo Rio-São Paulo e enquanto a própria vida parece desabar ao redor pode ser algo ainda mais próximo da teimosia. É nesse terreno que Guto Parente coloca Morte e Vida Madalena, seu 11º longa-metragem, que estreia nesta quinta-feira, 17, em circuito nacional.
A comédia dramática acompanha Madalena (Noá Bonoba), uma produtora grávida de oito meses que insiste em concluir um filme de ficção científica deixado inacabado pelo pai, recém-falecido, enquanto sua vida pessoal e profissional desmorona ao redor dela. É, em certa medida, um filme sobre fazer filmes — mais especificamente, sobre a obstinação necessária para produzir cinema independente, universo no qual Parente trabalha há cerca de 20 anos. O longa teve a première mundial meses antes, na competição internacional do FIDMarseille, na França.
"Com Morte e Vida Madalena eu queria filmar o trabalhador do cinema, mais especificamente o trabalhador do cinema independente de baixo orçamento e fora do eixo, que é o cinema que eu habito há 20 anos", resume o diretor, em entrevista ao Estadão. "O filme é uma homenagem bem-humorada a esse cinema de trupe, artesanal e entre amigos, olhando com carinho para seus encantos e mergulhando sem medo nas suas sombras".
O elenco reúne Noá Bonoba, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira, Marcus Curvelo e Carlos Francisco, entre outros nomes recorrentes na filmografia de Parente. A recorrência não é casual: muitos desses profissionais o acompanham há anos, numa trajetória em que relações de trabalho se confundem com parcerias de vida.
Duas décadas, 11 filmes e uma comunidade
Nascido em Fortaleza em 1983, Guto Parente formou-se na primeira turma da Escola de Audiovisual da capital cearense, foi integrante do coletivo de artistas Alumbramento entre 2008 e 2016 e, desde 2012, é sócio da produtora Tardo Filmes, ao lado de Ticiana Augusto Lima. Realizou sete curtas e chega agora ao 11º longa — de Estrada para Ythaca e Os Monstros, ambos exibidos no BAFICI argentino, a A Misteriosa Morte de Pérola, Inferninho e O Clube dos Canibais, lançados em Rotterdam, até Estranho Caminho, premiado em Tribeca como melhor filme, melhor roteiro, melhor fotografia e melhor performance.
A trajetória, contada em sequência, pode sugerir uma evolução linear. O próprio Parente, porém, enxerga diferenças profundas entre os filmes. Doce Amianto, de 2011, foi feito com R$ 20 mil; Inferninho, de 2016, com R$ 120 mil; Morte e Vida Madalena, de 2024, teve orçamento de R$ 2 milhões.
"São filmes estruturalmente muito diferentes", diz. "O que para mim se destaca em comum entre eles são a liberdade estética, ousadia narrativa e equipes apaixonadas pelo que estão fazendo." Para ele, o novo longa também nasce dessa dinâmica: "Morte e Vida Madalena lança um olhar também para esse aspecto, para a própria equipe e o trabalho árduo que é levantar um filme independente, onde sem um senso de coletividade nenhum desses filmes seria possível."
Essa permanência de colaboradores talvez seja uma das características mais marcantes de sua trajetória. Parente começou a fazer cinema dentro do Alumbramento e, desde então, construiu uma rede de parceiros que atravessa diferentes projetos, orçamentos e momentos de sua carreira.
"Eu só fiz tudo o que já fiz porque sempre estive muito bem acompanhado", afirma. "Comecei a fazer cinema dentro de um coletivo e sigo trabalhando com a mesma crença na coletividade". Para ele, dirigir também envolve uma dimensão que vai além das decisões técnicas. "Dirigir um filme não é apenas o trabalho de conduzir o elenco e a equipe para realizar um plano, ou uma cena da melhor maneira possível, é também exercer um papel de guiança emocional, mediação e escuta. E isso é algo que se aprende na prática, no campo de batalha", afirma.
O Ceará, nesse sentido, não aparece apenas como território onde seus filmes são realizados. Parente também atribui parte da consolidação do cinema cearense às políticas públicas de cultura do estado, especialmente às iniciativas de formação e fomento mantidas ao longo de diferentes gestões.
"Aqui no Ceará me sinto fazendo parte de uma comunidade cinematográfica que está crescendo e se fortalecendo junto há muitos anos e isso dá uma base sólida para pisar", diz. "Outro aspecto importante do Ceará, não posso deixar de pontuar, diz respeito às políticas públicas. A nossa Secretaria de Cultura tem sido ao longo dos últimos anos uma das melhores do Brasil. Temos tido uma sequência de governos que acreditam na importância dos investimentos na Cultura, da formação ao fomento, e o resultado disso é o cinema cearense se tornando cada vez mais forte nacional e internacionalmente."
As obsessões aparecem depois
A morte, o luto, o fracasso, a família e os próprios bastidores da produção cinematográfica são temas que atravessam diferentes momentos da obra de Parente. Ele, porém, resiste à ideia de partir conscientemente dessas questões para construir seus filmes.
"Acho sempre muito difícil fazer análises sobre o meu próprio trabalho num sentido mais amplo. Mas sinto meus filmes bem diferentes uns dos outros", afirma. "Ainda que traços, elementos e questões se repitam, os pontos de vista estão sempre mudando e a forma de cada filme é concebida a partir de condições muito específicas."
Para o diretor, os temas não vêm antes das personagens e da história. "Não penso: quero fazer um filme sobre a morte, ou sobre a família, porque essas são minhas obsessões", diz. "Tenho uma ideia, começo a escrever e quando me dou conta está tudo lá. Os temas vêm depois das personagens e da história. Eles me perseguem, não o contrário."
Essa relação fica especialmente evidente em Morte e Vida Madalena, que aproxima a experiência da personagem do próprio universo de trabalho do diretor. Depois de Estranho Caminho, filme fortemente ligado à relação de Parente com o pai e ao luto, o novo longa também parte de experiências pessoais, desta vez relacionadas ao cotidiano de quem faz cinema independente.
"Talvez", responde quando questionado se está mais disposto a colocar a própria experiência nos filmes. "Mais anos de vida, mais experiências, mais elaborações sobre essas experiências. Mas não acho que isso deva necessariamente se tornar uma tônica do meu trabalho".
Entre o riso e o desconforto
Embora seus filmes transitem por comédia, drama, fantasia e terror, Parente não parece interessado em separar esses registros com muita rigidez. Em Morte e Vida Madalena, situações absurdas e surreais convivem com o drama da protagonista, sem que o humor transforme seu sofrimento em motivo de piada.
"Falar de coisas sérias com humor é uma forma de lidar com a vida muito marcante do povo cearense. Do brasileiro de um modo geral, mas especialmente do cearense", diz. "Mesmo nos nossos dramas existe sempre algum espaço para o humor, a autoironia, o deboche. Eu particularmente gosto muito quando as coisas se misturam. Quando uma cena ao mesmo tempo provoca sorriso e lágrima, leveza e desconforto. O contraste me interessa."
A distinção é importante para o diretor: Madalena não é uma personagem de comédia, ainda que esteja constantemente envolvida em situações capazes de provocar riso. "O riso nunca recai sobre ela, ou sobre seu modo de falar, sotaque, trejeitos. O humor no filme ocupa outros lugares, respeitando o drama pelo qual a personagem está passando."
Também é dessa mistura que surge a relação entre o drama pessoal da protagonista e o caos de fazer um filme independente. As dificuldades de produção deixam de ser apenas pano de fundo e passam a integrar a própria dramaturgia do longa.
Fazer cinema como se fosse a primeira vez
Depois de 11 longas, Parente poderia estar distante da sensação de estreia. Não está. O diretor terminou recentemente as filmagens de um novo projeto, feito com um orçamento superior à soma dos 11 filmes anteriores, mas diz ter encarado a experiência com a mesma sensação de descoberta.
"O aprendizado nunca para. Porque a cada filme são novos desafios e obstáculos", afirma. "Eu terminei recentemente de filmar um projeto bem grande, com um orçamento maior do que todos os meus 11 longas anteriores somados, e me senti fazendo um filme como qualquer outro que já fiz na vida, só que diferente."
A diferença, diz ele, está menos na sensação de segurança do que na capacidade adquirida ao longo dos anos para tomar decisões e trabalhar com pessoas que conhece há muito tempo. "O legal da experiência é ter mais habilidade na hora de tomar decisões e estar ao redor de pessoas com quem já trabalho há muitos anos, pessoas com quem aprendo junto a fazer cinema há muitos anos, parcerias de vida e trabalho", conta. "A comunicação é mais fina, muitas vezes a gente se entende só no olhar."
É uma síntese possível para uma carreira que chegou ao 11º longa sem abandonar a experimentação. Parente acumula experiência, amplia orçamentos e trabalha com uma equipe cada vez mais familiar, mas continua tratando cada filme como um território desconhecido. "Porque sempre é diferente e sempre tenho a sensação de estar fazendo pela primeira vez", diz.