'É um dos melhores livros que conheço': Miguel Gomes fala de 'Os Sertões' e a adaptação 'Selvajaria'

Cineasta português trabalha há mais de uma década no filme baseado nesta história de Euclides da Cunha nascida nas páginas do 'Estadão'; obra está em fase de montagem e diretor conta bastidores do projeto com filmado em Canudos com elenco de moradores

8 nov 2026 - 05h42
Resumo
O cineasta português Miguel Gomes está finalizando "Selvajaria", adaptação de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, que conecta a Canudos do século 19 às manifestações por moradia em Lisboa. Com narração de Grace Passô e elenco formado por moradores locais, o longa foi gravado na Bahia e em Portugal. O filme, que levou dez anos de trabalho e retrata a realidade sertaneja, é também destaque de uma exposição retrospectiva sobre a carreira do diretor inaugurada na Fundação Serralves, no Porto.

PORTO/PORTUGAL - O arraial de Canudos sob a liderança de Antônio Conselheiro, no século 19, e o acampamento das manifestações pró-moradia em Lisboa, hoje, vão se encontrar em Selvajaria, adaptação de Os Sertões, de Euclides da Cunha, dirigida pelo português Miguel Gomes. Vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes por Grand Tour (2024), o cineasta de 54 anos esteve na Bahia em setembro e outubro para a terceira rodada de filmagens. Seria a última, mas ele decidiu nesta semana "abrir câmera" novamente para flagrar a temperatura da atual crise sociopolítica portuguesa.

Em fase de montagem, Selvajaria deve estar concluído "até o final da primavera" (no Hemisfério Norte). Foram 10 anos de dedicação intermitente de Gomes ao projeto. "É um dos melhores livros que conheço", diz ele. "Decidi fazer o filme após ler 20 páginas. Talvez tenha sido irresponsável", brinca.

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O cineasta falou com exclusividade ao Estadão na última sexta-feira, 30, na abertura de exposição dedicada a ele pela Casa do Cinema Manoel de Oliveira, da Fundação Serralves, no Porto, que permanecerá em cartaz até 30 de maio. "Optamos por olhar para os seus métodos de trabalho em um momento de balanço da sua carreira", diz o curador António Preto, diretor da Casa.

O cineasta francês Miguel Gomes durante filmagens de 'Selvajaria', filme em que adapta 'Os Sertões', de Euclides da Cunha
O cineasta francês Miguel Gomes durante filmagens de 'Selvajaria', filme em que adapta 'Os Sertões', de Euclides da Cunha
Foto: Pedro Sotero/Divulgação / Estadão

Além de extenso material sobre o processo criativo de todos os seus filmes, desde o primeiro curta-metragem (Entretanto, de 1999) a Grand Tour, passando pelos longas Aquele Querido Mês de Agosto (2008), Tabu (2012) e a trilogia As Mil e Uma Noites (2015), a exposição inclui um catálogo de 448 páginas e uma retrospectiva da obra completa em que Gomes teve "carta branca" para escolher filmes e cineastas conectados aos seus trabalhos. No diagrama em que desenhou essas "constelações", Selvajaria está associado, entre outros, a Orson Welles, Nanook, o Esquimó (1922), de Robert Flaherty, Que Viva México! (1932), de Sergei Eisenstein, e Além da Linha Vermelha (1999), de Terrence Malick.

A exposição reúne trechos de filmes e das filmagens, roteiros, material de pesquisa, centenas de post-its (incluindo, a pedido de Preto, alguns escritos por Gomes para substituir as pequenas placas informativas tradicionais de espaços expositivos) e displays com as garrafas dos "drinques oficiais" de cada filme, "propostos à equipe para estarmos todos no mesmo comprimento de onda". Em Selvajaria, foi um "high ball", "uísque e água com gás misturados na boca, uma maneira de beber muito fresquinha". Uma sala exclusiva, logo na entrada, traz extenso material sobre o filme, com uma sequência breve de cavalgada, trechos de um Super 8 feito com moradores de Canudos em uma oficina, fotos, excertos de roteiros, mapas e muitas anotações em post-its.

Os bastidores de 'Selvajaria'

Na primeira versão do roteiro, de junho de 2016, o filme é identificado como Os Sertões — Adaptação do romance de Euclides da Cunha. Em versão de novembro de 2017, torna-se Selvajaria — A Partir de Os Sertões.

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Em versão de março de 2025, é acrescentada a informação Lido por Grace Passô, atriz e diretora brasileira. "Canudos fica em uma região muito pobre, isolada dos centros e do litoral, com uma comunidade que tem um trauma relacionado a sequelas do colonialismo", diz Gomes. "Muitos descendem de sobreviventes da guerra, mas muitos sequer têm consciência do colonialismo. 'Como você fala português?', me perguntavam."

Miguel Gomes filmou 'Selvajaria' em Canudos e com elenco totalmente formado por moradores da região. Seu filme, em fase de montagem, é uma adaptação do clássico de Euclides da Cunha, nascido nas páginas do 'Estadão'
Foto: Pedro Sotero/Divulgação / Estadão

Como reage a uma exposição, acompanhada de um catálogo de mais de 400 páginas, sobre a sua obra?

Em primeiro lugar, devo chegar à conclusão que estou a ficar mais velho (risos). Acho sempre surpreendente que os filmes vão-se acumulando, os anos vão passando e eu não posso me queixar relativamente ao reconhecimento do meu trabalho. Tenho a oportunidade de mostrar os filmes pelo mundo afora. Não é só o meu trabalho, é o trabalho coletivo que se faz para se chegar ao objetivo final, o filme terminado. Acho que é especial a exposição acontecer no meu país, na Casa do Cinema Manoel de Oliveira, realizador que me influenciou e que de alguma maneira definiu uma espécie de horizonte para o cinema português. Um país sem indústria, sem grandes recursos, e ele impôs uma maneira de fazer filmes completamente livre. Todos os realizadores portugueses devemos alguma coisa ao Manuel Oliveira. Se não fosse por ele, o panorama do cinema português hoje seria diferente, para pior.

Qual é a sua relação com o Brasil e com o cinema brasileiro, previamente a 'Selvajaria'?

O Brasil é algo com o qual nós estamos familiarizados desde pequenos. Eu não via novelas portuguesas, víamos as novelas brasileiras.

Lembra-se de alguma em especial?

Sim, claro. O Roque Santeiro. Quando chegou a televisão à minha casa, estava passando Gabriela. E os livros aos quadradinhos (HQs), os livros da Turma da Mônica. Havia uma relação. Não era propriamente uma coisa estranha. Hoje em dia existe um cineasta brasileiro que eu admiro muito, Kleber Mendonça Filho. No Grand Tour, trabalhei com algumas pessoas que trabalharam com o Kleber, e depois mais ainda no Selvajaria. Há muito cinema brasileiro que não chega até cá, e não me interessa muito do pouco que chega, que tenta reproduzir a lógica da novela. Acho que isso tem a ver com o fato de haver um mercado, de o cinema poder ser, no Brasil, rentável. É uma coisa muito mais difícil em Portugal. Isso define uma espécie de contexto para a fabricação dos filmes. Acho que o cinema brasileiro é muito marcado por uma logística que tem a ver com a máquina industrial, ou seja, está muito mais próximo de regras de cinema americano, por exemplo, do que nós aqui em Portugal.

Euclides da Cunha e os telegramas enviados do front da Guerra de Canudos, em 1897
Foto: Acervo/Estadão / Estadão

Entrou em contato com os textos publicados no 'Estadão' que deram origem a 'Os Sertões'?

Sim, eu estive a trabalhar nesse filme faz 11 anos. Houve um momento em que lemos as crônicas, as reportagens que ele fazia naquele momento. Uma das coisas que me impressionou muito foi a mudança de ideia do Euclides relativamente ao que estava ali a passar. Hoje, em que o mundo não vai para melhor com as situações que todos nós conhecemos, de conflitos e desse emagrecimento da democracia em vários países, que é muito preocupante, alguém que muda de opinião muitas vezes é visto como uma fragilidade. Acho que não. Pode ser uma enorme qualidade e um grande gesto de coragem mudar de opinião. Aqueles apoiantes muito fanáticos de partidos de extrema-direita que existem por todo o lado hoje em dia basicamente são incapazes de, perante a exposição de fatos, mudar de ideias. Para eles, é uma traição. Acham que se traem a si próprios mudar de perspectiva. Euclides fez exatamente o contrário. Tinha uma ideia pré-determinada, escreveu a partir dessa ideia pré-determinada. Quando chegou a Canudos e viu o que aconteceu, escreveu um livro em que claramente mudou de ideias.

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Quando começaram as suas viagens a Canudos?

A partir de 2016, 2017. Depois, comecei a fazer outros projetos. Quando decidi regressar ao Selvajaria, em 2023, voltei regularmente a Canudos até ter filmado agora entre o final de agosto e o princípio de outubro. Houve um momento de preparação do filme em que há uma sequência filmada em Super 8. No livro, há um trecho chamado O Sertão é um Paraíso. Euclides chega ao momento em que finalmente a chuva cai e de repente o sertão transforma-se em poucas horas. Como cientista, ele não era muito exato, mas tinha uma espécie de lirismo, era um grande escritor e descreve tudo de uma maneira um pouco exagerada.

Alguns meses antes das filmagens, fizemos uma oficina de Super 8 sob o comando da Maureen Fazendeiro (corroteirista). Reunimos uma série de jovens, sobretudo jovens canudenses. Eles propuseram-nos a sua visão de O Sertão é um Paraíso. Foi uma filmagem à parte que vai integrar o filme e que não é dirigida por mim. Filmamos fora do Brasil uma sequência que, no livro, é quando Euclides faz a comparação entre o vaqueiro nordestino e o gaúcho. Resolvemos filmar os nossos gaúchos não no Rio Grande do Sul, mas no Alentejo, em Portugal. Filmei uns três dias no Alentejo antes de ir a Canudos para fazer o filme.

A atriz Grace Passô, em 2019; ela vai narrar o texto de Euclides da Cunha em 'Selvajaria'
Foto: Valéria Gonçalves/Estadão / Estadão

Como decidiu-se pela participação da atriz e diretora Grace Passô?

Tive a oportunidade de a conhecer num festival em Turim (Itália), em 2018. Eu fazia parte do júri e resolvemos dar à Grace o prémio de melhor atriz (por Temporada, de André Novais Oliveira). Fiquei muito impressionado pelo trabalho dela no filme e depois passei a vê-la em outras ocasiões. Na Festa Literária de Paraty, assisti a um monólogo escrito por ela e achei ainda mais impressionante. Nessa altura, houve um momento em que eu pensei: e se o texto de Euclides fosse dito por uma mulher, e se fosse dito pela Grace Passô? Fui-lhe propor isto e ela aceitou.

Antes das filmagens, ela veio a Lisboa e esteve vários dias comigo a lutar contra o texto de Euclides, que é um texto muito difícil de dizer. A lutar e a fazer coisas incríveis. Espero partilhar (a íntegra da gravação) quando o filme estiver pronto. A primeira versão do argumento devia pesar em papel 350 gramas, e terminou com 50 gramas. Ao longo do tempo, não só por questões orçamentais mas também por uma questão de trabalho artístico, fomos excluindo e condensando coisas, juntando vários elementos do texto de Euclides num elemento apenas. O filme dificilmente terá mais que uma hora e meia, e não é algo que me desagrade.

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Seu processo criativo o transforma às vezes num repórter ou num investigador que não tem certezas a respeito do terreno a ser percorrido?

Sim. Sabemos que houve já vários filósofos que acham que a dúvida é um caminho para chegar ao conhecimento, não é? Acho que um problema de vários filmes é afirmar com demasiada veemência, com uma certeza absoluta, uma série de coisas. Os meus filmes não devem impor isso ao espectador independentemente das minhas ideias, dos meus juízos de valor, daquilo que eu valorizo e daquilo que eu não valorizo. Não posso trair-me a mim próprio, mas acho que tem que respeitar o espaço do espectador.

O espectador não é alguém que deva ser olhado como um aluno, como um aprendiz, e o filme como o mestre dele. Portanto, o que eu procuro é uma certa ambiguidade, para que o espectador não fique atropelado pelas certezas do realizador ou da equipa que faz o filme. Coloco-me em situações em que as coisas podem não ser tão taxativas, que estejam em aberto e que exista um lugar para a dúvida. Tento partir sem as coisas trancadas.

Como se manifesta essa ambiguidade em 'Selvajaria'?

Eu não queria falar muito sobre o Selvajaria mas, enfim, não resisto. Sim, o desafio do filme foi filmar com a população de Canudos, ou seja, a maneira de ser fiel ao livro era filmar a terra e o homem como nas duas primeiras partes do livro. Para ser fiel à terra e ao homem, eu tinha que filmar com a mesma linha do horizonte de Canudos. Encontrei um terreno onde construímos uma parte do arraial de Canudos, a 5 km do sítio onde se passou a guerra, que hoje é um parque estadual. Ou seja, é mais perto do que a atual cidade de Canudos porque a antiga foi submersa pela construção do açude de Cocorobó.

A regra de filmar com as pessoas de lá significava que poderia ter a Grace a dizer o texto do Euclides, mas não ter qualquer ator profissional no filme, apenas habitantes de Canudos, muitos deles descendentes dos sobreviventes da guerra. Aí começa a ambiguidade: eu pedi para eles não fazerem apenas os conselheiristas, pedi-lhes para fazerem também os militares.

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O que trouxe dessa experiência?

Aquilo é uma realidade muito concreta. Às vezes houve alguns pequenos choques, por vezes entre a maneira como eu estou habituado a fazer cinema e uma parte da equipa brasileira. Por exemplo, era mais natural fazer as coisas de uma determinada maneira, à qual estou acostumado, e eles muitas vezes relembravam-me: 'estás a fazer um filme no Brasil, Miguel'. E eu: 'Eu sei, e com grande alegria, mas antes de fazer um filme no Brasil, estou a fazer um filme em Canudos'. É preciso respeitar, acima de tudo, não tanto a indústria de cinema brasileira, mas a realidade de Canudos. É essa que deve estar presente. Existe um momento no filme em que são visíveis diversas pessoas. Euclides descreve aquele momento como 'o beijo das imagens', em que o António Conselheiro ia pregar, e a população de Canudos reunia-se a rezar e ouvir o Conselheiro.

Basicamente para mim aquilo é o retrato de hoje, de uma da população que existe hoje, naquele lugar, e isso para mim era importante. Ter a Canudos de hoje, filmar aquelas pessoas, a forma como elas vivem. Tens ali um plano de um vaqueiro a atravessar a catinga, como os vaqueiros vivem. Era tentar fazer aquilo que o Euclides fez de uma maneira diferente. Eu vivo no século 21, e o Euclides viveu no século 19 e no princípio do século 20, e porque somos pessoas diferentes.

Tentei fazer um retrato relativamente amplo de uma população que vive de uma determinada maneira, porque vive num determinado contexto histórico. A história dos sertões, daquele isolamento relativamente ao litoral, e também sobretudo pelas próprias leis da natureza, que são duríssimas naquele sítio e às quais os moradores tiveram que se adaptar para sobreviver.

Exposição em Portugal presta homenagem ao cineasta Miguel Gomes e apresenta bastidores de 'Selvajaria'
Foto: nvstudio/Serralves/Divulgação / Estadão

Estava lá no primeiro turno da eleição presidencial?

Eu apanhei o avião (de volta a Portugal) no dia da votação.

Sentiu vontade de votar?

Não teria qualquer dúvida sobre em quem votaria, mas fiquei muito surpreendido com o resultado da segunda volta. Não esperava que acontecesse assim. Ainda bem. Minha relação com Canudos começa em 2015. A primeira vez que vou a Canudos é em 2016. Tenho uma memória de Canudos como um lugar muito mais pobre, mesmo a nível do comércio que existia. Era tudo muito mais acanhado. Quando voltei, mais próximo do filme, senti que Canudos estava muito mais desenvolvido e que as pessoas, apesar de continuarem a ser muito pobres, tinham menos dificuldades do que tinham há 10 anos. Isso é claramente visível para quem olha num determinado momento e regressa 10 anos depois, e para mim tem certamente a ver com as políticas de incentivo social que foram implementadas pelos governos do PT durante esse período. Enfim, houve um momento de Bolsonaro em que aquilo foi difícil, mas para toda a gente, para eles e para nós também, para quem tentava fazer cinema, sobretudo para os brasileiros, mas senti essa diferença. Senti que Canudos estava bastante mais desenvolvido.

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