Diretor gaúcho prepara 1º longa brasileiro feito quase inteiramente com IA: 'Facilita muitas coisas'

'Antes do Nascer do Sol', de Osnei de Lima, tem personagens e cenários criados a partir de fotografias e coloca o Brasil na discussão sobre o uso da ferramenta no audiovisual

6 ago 2026 - 10h08

Durante quase duas décadas, o diretor gaúcho Osnei de Lima acalentou o desejo de levar para as telas a biografia de Aury Luiz Bodanese (1934-2003), que ajuda a contar a história da imigração no país. Cerca de dois anos atrás, decidiu que era hora de rodar. Apesar de receber a autorização de captação de quase R$ 2 milhões, não conseguiu todo o dinheiro. Foi então que ele começou a procurar alternativas e acabou optando pela inteligência artificial. Antes do Nascer do Sol, que deve ficar pronto até o final do ano, pretende ser o primeiro longa-metragem nacional quase inteiramente feito por IA - dos 85 minutos, cerca de dez vão ser filmados da maneira tradicional.

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"É uma ferramenta maravilhosa, do futuro. Eu não tenho dúvida mais", disse ele em entrevista ao Estadão. "Não tem mais condições de fazer cinema sem, porque ela facilita uma série de coisas. Principalmente o custo. O longa sairia por R$ 6 milhões. Agora vai ser de 15% a 20% disso."

‘Antes do Nascer do Sol’, de Osnei de Lima, tem personagens e cenários criados a partir de fotografias e coloca o Brasil na discussão sobre o uso da IA no audiovisual
‘Antes do Nascer do Sol’, de Osnei de Lima, tem personagens e cenários criados a partir de fotografias e coloca o Brasil na discussão sobre o uso da IA no audiovisual
Foto: Osnei de Lima/Divulgação / Estadão

Com roteiro de Julmir Cecon, Antes do Nascer do Sol é um filme de época, que é caro e difícil de fazer. A história começa na Itália, no século 19, quando os avós de Bodanese decidem imigrar para o Brasil. O longa acompanha a infância do retratado e sua trajetória de motorista de caminhão a pioneiro do cooperativismo nos anos 1960, fundando a Cooperativa Central Aurora Alimentos, que se tornou uma das maiores companhias da agroindústria brasileira. As cenas no porto de Gênova de 1875 envolveriam figurantes em roupas do período, além de navios e carruagens. Em Erechim (RS) e Chapecó (SC), também seria preciso construir muitos cenários, já que as cidades não mantêm as características dos anos em que a trama acontece.

Com a inteligência artificial, não foi preciso viajar a Gênova nem ir a Chapecó. Apenas a introdução, que se passa nos dias de hoje, vai ser filmada da maneira tradicional. Todos os cenários, figurinos, automóveis, estradas e, sim, a maioria dos atores, estão sendo criados por inteligência artificial por uma empresa baseada em Florianópolis. Somente os avós de Bodanese são interpretados por atores de verdade, Nicola Siri e Isadora Ribeiro, que mesmo assim foram "clonados", tendo sua voz e sua imagem captada em fotos e vídeos.

Processo complicado

Mas isso não significa que fazer um filme com inteligência artificial seja simples. "É um desafio grande", disse Lima. "Eu achava que era pegar a ideia, colocar na IA e pronto. É mentira. A IA não faz tudo por você."

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O filme foi dividido em etapas, cada uma com cerca de 7 minutos. O roteiro foi redesenhado, especificando a duração de cada tomada. O diretor de fotografia precisa detalhar a posição da câmera, a iluminação, o tipo de lente e a câmera utilizada em cada cena. Tudo isso vai para o roteiro. Foi necessário fazer isso com todas as partes da produção. "Eu tenho de identificar tudo. Não tenho um diretor de produção que vá à locação para escolher uma casa, uma bicicleta, um caminhão. Eu preciso deixar tudo isso escrito de maneira bem específica, se o telhado é de telha, que tipo de telha, se a rua é de asfalto, de terra, se tem pedras no chão", contou o cineasta. "Isso dá muito trabalho para quem escreve."

Essas informações são transformadas em prompts, que são as instruções passadas para a inteligência artificial, que retorna com as imagens, os assets. O diretor então fica responsável por checar se tudo está em ordem. É possível fazer mudanças, mas cada detalhezinho custa dinheiro.

O filme foi dividido em etapas, cada uma com cerca de 7 minutos
Foto: Osnei de Lima/Divulgação / Estadão

A IA também ajudou na pesquisa. Por exemplo, achar fotos de prédios tais quais eles eram nos anos 1960, do navio que trouxe os Bodanese ao Brasil e dos próprios personagens reais, além de registros de suas vozes. Tudo isso também serviu para alimentar a IA, que transformou as informações em lugares e pessoas na tela. No caso dos avós de Aury Bodanese, as imagens e a voz captadas dos atores serviram para a inteligência artificial criar personagens que reproduzissem os diálogos, emoções e movimentos conforme o desejo do diretor, já que não houve interação com Siri e Ribeiro.

Revolução da indústria

A inteligência artificial é vista como ameaça em grande parte do mundo. No cinema e na televisão, não é diferente. Nas greves dos roteiristas e dos atores em 2023, a regulamentação do seu uso foi uma das pautas mais importantes. O medo, claro, é que computadores e robôs substituam os seres humanos. O ator Nicola Siri não se preocupa muito com isso. "Como com qualquer tipo de ferramenta, você precisa conhecer para usar de maneira inteligente. Mas o ser humano continua sendo o protagonista", disse ao Estadão. Segundo ele, o cachê foi o mesmo, e há proteções - por exemplo, suas imagens não podem ser usadas para criar outro personagem ou participar de outra produção sem seu conhecimento. Ele também vai poder assistir às cenas com antecedência e aprová-las.

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Segundo Janaina Augustin, especialista em IA, o uso da inteligência artificial no cinema e na televisão é inevitável. No último Festival de Cannes, o assunto foi bastante discutido. "No Brasil, causa muito medo, principalmente por desconhecimento. A gente vê muita notícia negativa." Em vários países, já há uma estrutura para o uso ético e legal da IA. "A orientação não é não usar, mas como fazer direito. É só mais uma ferramenta."

O cinema sempre foi um casamento da arte com a tecnologia, lembrou Augustin, o que deixou alguns profissionais pelo caminho conforme havia avanços. "Quem fazia música ao vivo durante as sessões do cinema mudo ficou desempregado", exemplificou. É preciso se adaptar. Para Osnei de Lima, os profissionais vão continuar sendo necessários. Ele colocou no roteiro o que precisava da fotografia, da direção de arte, do figurino, mas garantiu ter tido consultorias em todas as áreas. "Os empregos vão diminuir? Sim. Mas não vão acabar."

Siri acredita na mesma coisa. "Eu quero acalmar a classe artística, porque é um ator chamado Nicola Siri que está fazendo o papel. A IA não está roubando meu trabalho. Na verdade, ela me deu esse trabalho." Atores mais conhecidos poderão vender suas imagens para uso futuro, regido por contratos bem estabelecidos. Mas é possível que a IA dificulte o surgimento de novos Denzel Washingtons e Nicole Kidmans.

Milhões de pessoas usam IA diariamente para diversos fins. Da mesma maneira, sua utilização na indústria audiovisual é uma realidade. A Netflix anunciou que 300 de suas produções foram feitas com IA generativa só em 2026. Augustin afirmou que o formato híbrido é o grande padrão em Hollywood: um estúdio forrado de telas de LED e atores reais.

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Recentemente, Ben Kingsley estrelou uma produção sobre Moisés e elogiou o método, porque o ator consegue se sentir no ambiente, ao contrário do método da tela verde ou azul, depois substituída por efeitos visuais feitos por computação gráfica. Outra vantagem é a rapidez: Kingsley trabalhou por apenas uma semana no estúdio, e o longa foi lançado em menos de seis meses.

Nesse processo, o cenário é de IA, mas o ator está presente no estúdio. Em filmes com captura de movimentos, como Avatar, também. Até em animações como Toy Story os atores vão ao estúdio e interagem com os diretores para gravar suas vozes, e seus movimentos e expressões faciais acabam auxiliando os animadores. O mesmo acontece no caso dos rejuvenescimentos de atores.

É raro, por enquanto, que personagens sejam inteiramente criados pela inteligência artificial. As Deep as the Grave, dirigido por Coerte Voorhees, usa imagens de IA generativa do ator Val Kilmer, que morreu em 2025 e vai aparecer no filme. Os outros personagens são interpretados por atores no set. Produções como Antes do Nascer do Sol, em que dois personagens são baseados nas imagens de atores e os outros são criados a partir de fotos antigas de pessoas reais, ainda são exceções, pelo menos no formato longa-metragem.

Criatividade humana

Novidades tecnológicas costumam gerar suspeita - foi assim com a energia elétrica, o trem, o raio-X, o rádio, a televisão, o cinema. Mas o temor de que a IA vai nos substituir totalmente é infundado, especialmente no caso do cinema, da televisão, das artes, na opinião de Janaina Augustin. "A criatividade sempre vai depender de um ser humano. Uma coisa que o Darren Aronofsky (diretor de Cisne Negro, de 2010, que rendeu o Oscar de atriz a Natalie Portman) disse que eu acho muito legal é: 'Nenhum robô vai atuar melhor do que o pior ator do mundo'. Porque o humano tem a humanidade. São milhares de maneiras de dizer uma coisa, e um robô não chega nisso nem nunca vai chegar."

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Como Osnei de Lima já descobriu, Janaina Augustin disse que produzir qualquer coisa com IA é muito difícil, ainda mais com qualidade. "As pessoas acham que é só dar um comando que vai sair um filme. Não vai. Você precisa de bons profissionais por trás." Mas ela vê com entusiasmo a possibilidade de que cineastas independentes tenham mais chances de filmar, por causa do barateamento dos custos de produção, novos diretores surjam e obras impossíveis de executar saiam do papel.

Graças à IA, Aronofsky está realizando um projeto de 20 anos que nunca conseguiu viabilizar. Graças à IA, um cineasta do interior do Rio Grande do Sul está contando a história de época com que sonhava. Opiniões sobre sua qualidade, como no caso de qualquer obra audiovisual, só depois de prontos e vistos. Mas, sem dúvida, essas produções são exemplos de uma transformação da indústria - e do mundo.

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