'Colegas' ganha sequência com elenco neurodivergente ampliado e mais aventura: 'Estava com saudade'

Ariel Goldenberg volta a interpretar Stallone 13 anos depois do filme que marcou a história do cinema brasileiro; ator e diretor falam sobre 'Colegas e o Herdeiro', que estreia nesta semana

12 ago 2026 - 18h12
(atualizado às 19h06)

Treze anos atrás, um grupo de atores com síndrome de Down virou notícia em jornais e capas de revista ao protagonizar Colegas, comédia que levaria o Kikito de Ouro em Gramado e se tornaria uma espécie de marco silencioso do cinema inclusivo — não só no Brasil, mas em festivais de Moscou a Trieste. Passado todo esse tempo, o diretor Marcelo Galvão resolveu que não bastava repetir a fórmula. Em Colegas e o Herdeiro, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 13, o time de atores com deficiência intelectual se multiplicou: agora são mais de 70 pessoas em cena, entre elas atores no espectro autista e com síndrome de Williams, ao lado dos já conhecidos personagens com síndrome de Down.

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A ideia não nasceu de um cálculo de mercado, mas de conversas soltas em turnês de divulgação. "Eu conheci muita mãe de garota autista que falava: 'cara, adorei teu filme, mas eu queria que você fizesse um filme com autista'", lembra Galvão, ao Estadão. O problema é que ele não tinha nenhuma bagagem no assunto. "Então eu estudei bastante, vi filmes, criei várias amizades com autistas."

O resultado é um roteiro que embarca um grupo de colegas em fuga clandestina do instituto onde vivem, atravessando fronteiras num avião de carga rumo a Punta del Este para reencontrar o amigo Stallone — que, no Uruguai, disputa a herança de um hotel e, sem querer, acaba cruzando o caminho de contrabandistas de pedras preciosas.

Se o primeiro Colegas tinha um verniz mais autoral, quase de cinema de festival, a sequência assume outro registro: mais aventura, mais humor, mais perseguição — e uma fotografia simétrica que remete abertamente a Wes Anderson. "Eu estudei bastante os filmes dele, tentando fazer uma coisa que fosse ao mesmo tempo divertida e também tivesse um pouco de bom gosto", explica o diretor. "Acho que é uma forma gostosa de contar uma história."

'Colegas e o Herdeiro' inclui atores com outras neurodivergências por sugestão de espectadores
'Colegas e o Herdeiro' inclui atores com outras neurodivergências por sugestão de espectadores
Foto: H2O/Divulgação / Estadão

Câmera parada, enquadramentos angulares, poucos movimentos bruscos: a receita, segundo ele, deu ao filme uma sensação de grandiosidade mesmo com um orçamento menor do que o do original. É um detalhe que soa quase irônico, considerando o sucesso de bilheteria que Colegas fez em 2012.

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Falta patrocínio, sobra engajamento

Para Ariel Goldenberg, que retoma o papel de Stallone 13 anos depois, o retorno às telas tem gosto de superação. "O que mudou a minha vida nisso tudo foi a resistência", resume o ator, agradecendo a Galvão pela chance de repetir a experiência. "Eu já estava com saudade de interpretar o Stallone mais uma vez. Foi uma experiência incrível."

Já para Luiza Godoi, o filme representa uma estreia: apesar de escrever roteiros havia anos, é a primeira vez que ela atua em um longa. "O filme Colegas abriu portas para mim no ramo do audiovisual", conta. "Participar de um filme grande, como colega do Marcelo, se resume a: admiração pela equipe, diversão e aventura." A experiência a empurrou de vez para trás das câmeras também — ela já dirigiu um curta, A Holandesinha — e os planos não param por aí: "Quero fazer série, quero fazer novela. Quero continuar como roteirista e diretora", diz.

Ariel Goldenberg volta a interpretar Stallone em 'Colegas e o Herdeiro'
Foto: H2O/Divulgação / Estadão

Nem tudo, porém, é celebração. Apesar do carinho do público — Galvão cita pais que, depois de assistirem a Colegas, passaram a enxergar de outro jeito a chegada de um filho com síndrome de Down —, o diretor não poupa críticas ao mercado que financia (ou deixa de financiar) esse tipo de produção.

No final do papo, ele conta que, após o sucesso do primeiro filme, chegou a bancar um livro de capa dura mostrando aos patrocinadores o retorno em mídia espontânea gerado pela campanha — de cerca de cem vezes o valor investido. Mesmo assim, poucos voltaram a apostar na sequência. "Você vê que ele mudou o pensamento de muita gente. Mas, em termos de investimento, é triste e decepcionante", diz. "Apesar de tudo, não tem muita meritocracia nesse sentido."

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