The Shards, livro que o autor Bret Easton Ellis (do célebre Psicopata Americano) lançou em 2023, tem todos os elementos das séries que fizeram de Ryan Murphy, criador de franquias como American Horror Story e Monster, um dos nomes mais conhecidos da TV americana: mistério, sangue, sensualidade e personagens ambíguos. Não é estranho, portanto, que a adaptação em série chegue ao Disney+ nesta quarta-feira, 5, justamente pelas mãos de Murphy - sob o nome Estilhaços.
Assim como o livro (ainda não publicado no Brasil), a série é uma autoficção em que Ellis mistura suas memórias de adolescente na Los Angeles de 1981 ao suspense em torno de um assassino em série. O autor é representado por Bret (Igby Rigney), aluno de um colégio particular de elite no último ano do ensino médio. Ele fica intrigado pela chegada de um novo aluno, Robert (Homer Gere), que coincide com o início de uma sequência de crimes macabros contra jovens californianos e seus animais.
Em paralelo, Bret questiona sua própria sexualidade e enfrenta tensões dentro de seu grupo de amigos, formado por Susan (Kaia Gerber), Thom (Graham Campbell) e Debbie (Hayes Warner) - namorada de Bret que desconhece suas escapadas com outros colegas de escola. São questões frequentes nas obras de Murphy, que amarra tudo em um pacote feito sob medida para viciar o espectador - e com a presença de nomes estrelados como os de Evan Rachel Wood e Wes Bentley.
"A série era um veículo perfeito para Ryan explorar os temas e dinâmicas que o intrigam, com o visual dos anos 1980 e uma homenagem às músicas e filmes daquela época", diz ao Estadão a produtora executiva Nina Jacobson, colaboradora de longa data de Murphy e nome por trás de sucessos hollywoodianos como a saga Jogos Vorazes.
Para ela e Murphy, havia também um elemento pessoal envolvido no projeto: assim como Ellis, hoje assumidamente homossexual, Murphy e Nina também enfrentaram questões com as respectivas sexualidades nos anos 1980, década em que começavam suas carreiras no entretenimento. "Não havia ainda uma comunidade LGBT. Era uma época muito diferente", recorda Nina, explicando que levar Estilhaços para o streaming os fez relembrar momentos em que Hollywood era muito menos inclusiva do que hoje - e quando vozes como as deles pouco eram ouvidas.
"Neste momento da vida de Bret, o personagem tem tanto medo do assassino em série que aterroriza Los Angeles quanto tem de ser descoberto como gay ou queer. Ele se esforça muito para se apegar a uma identidade socialmente aceita", diz. "Voltamos a esse período da história de que nos lembramos tão bem para explorar essa ideia da homofobia internalizada, assim como o medo de ser descoberto e o medo da Aids, que está muito presente metaforicamente no livro e na série."
Murphy, não por acaso, abraçou a chance de conduzir a adaptação ao lado de Nina e Brad Simpson quando a HBO desistiu do projeto ao fim de 2024, em um processo que Ellis descreveu publicamente como "frustrante". O escritor é creditado como produtor executivo em Estilhaços, mas, segundo Nina, deu liberdade para que a equipe da série criasse sua própria versão: "Ele queria que a série tivesse vida própria e existisse de forma separada do livro."
O plano é que a produção se estenda por mais algumas temporadas, o que é inclusive um desejo do autor. "Isso exigiu que nós adicionássemos tramas, personagens e conflitos para sustentar a história, que no livro acontece no decorrer de dois meses e meio", explica a produtora, ressaltando que a equipe teve o cuidado de se manter fiel ao espírito da obra original.
"Nós adaptamos como fãs que querem que a série provoque as mesmas sensações do livro. Sabemos que ela não pode ser o livro, mas queremos manter o clima e encontrar uma forma de ser fiéis à experiência, com liberdade para criar uma produção sustentável", acrescenta.
Uma forma de manter o espírito da obra foi por meio do protagonismo conferido à cidade de Los Angeles, que se torna quase uma personagem da história enquanto as cenas passeiam por suas ruas, com suas palmeiras inconfundíveis e o sol forte sempre presente.
"Não é uma recriação exata, mas uma memória aspiracional e nostálgica", diz Nina. "Ela é moldada por muitas das referências que são centrais no trabalho de Bret, como [o filme] Gigolô Americano e o surgimento da MTV... Há uma riqueza que representa muito a Los Angeles daquela época."
As filmagens aconteceram na própria cidade californiana, que tem vivido períodos de crise por conta da fuga de produções para outras regiões norte-americanas e até para outros países devido aos custos elevados. A decisão foi de Murphy, que fez questão de gravar no berço de Hollywood. "Temos muito orgulho de poder apoiar os esforços para manter Los Angeles essencial para a comunidade cinematográfica e televisiva, como sempre foi e como deve permanecer."
Estilhaços estreia no Disney+ com dois episódios. Os demais serão lançados semanalmente, às quartas-feiras.