'Cem Anos de Solidão' retrata transformação de Macondo e ciclo de tragédias latinas na Parte 2

Últimos episódios da série baseada em Gabriel García Márquez produzida na Colômbia estreiam nesta quarta-feira, 5, na Netflix; leia entrevista

5 ago 2026 - 18h12
(atualizado às 19h31)

Antes da estreia de Cem Anos de Solidão, quase ninguém acreditava ser possível a adaptação de uma das obras mais influentes da literatura mundial e essencial para a América Latina. Nem seu autor, Gabriel García Márquez (1927-2014). Mas a série da Netflix, feita com o aval dos filhos do escritor colombiano e produzida em seu país natal, foi um sucesso, alcançando o top 10 de produções em língua não-inglesa e gerando críticas majoritariamente favoráveis. Quase dois anos depois do lançamento, está na hora de concluir a história. Os sete primeiros episódios de Cem Anos de Solidão - Parte 2 estreiam nesta quarta-feira, 5, com o oitavo chegando no dia 26.

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A família Buendía continua em seu ciclo repetitivo de amores proibidos, obsessões, comportamentos autodestrutivos, exemplificado pelos nomes de seus integrantes, variações de Aurelianos, José Arcadios, Amarantas, como eram chamados os filhos do patriarca e da matriarca, os primos José Arcadio Buendía (Marco Antonio González Ospina na juventude e Diego Vásquez na fase adulta) e Úrsula Iguarán (Susana Morales Cañas e Marleyda Soto). Os dois fundaram a mítica Macondo movidos por sonhos e utopias. Mas, na Parte 2, a cidade está transformada depois das guerras entre conservadores e liberais, das interferências externas e da exploração econômica. Nessa nova fase, Cem Anos de Solidão está menos para realismo mágico e mais para realismo.

Na Parte 2 de 'Cem Anos de Solidão', a cidade está transformada depois das guerras entre conservadores e liberais, das interferências externas e da exploração econômica
Na Parte 2 de 'Cem Anos de Solidão', a cidade está transformada depois das guerras entre conservadores e liberais, das interferências externas e da exploração econômica
Foto: Maucirio Gonzalez A/ Netflix/ Divulgação / Estadão

Macondo é um espelho para os Buendía, que, no início da Parte 2, ainda têm Úrsula à frente da casa majestosa com jardim interno, e o Coronel Aureliano Buendía (Claudio Cataño) deixando as armas após assinar sua rendição na liderança dos liberais contra os conservadores. Mas são as novas gerações que vão tomar conta da história, dos 17 bastardos de Aureliano aos seus sobrinhos, os gêmeos Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo (Jorge Quintero e Julián Román), responsáveis por trazer dois elementos externos que vão transformar, a um só tempo, a família e a cidade: Fernanda del Carpio (Laura Taylor e Carla Baratta), por quem Aureliano se apaixona, e a ferrovia com que José Arcadio sonha.

Cidade das mulheres

Em um lugar onde os homens são os sonhadores, as mulheres costumam fazer as coisas andarem - ou têm personalidade suficiente para serem quem são, por mais complicadas que sejam. Úrsula, por exemplo, sempre liderou a família e a casa. "Eu admiro sua força, que ela mantém até o fim de seus dias, apesar dos fardos pesados ??que carrega", disse a atriz Marleyda Soto (de Pssica) em entrevista ao Estadão.

Ela segue: "Quando ela olha para trás e reflete sobre sua vida - ao perceber a imensa quantidade de perdas, tragédias, conflitos e momentos de dor que suportou -, permanece firme. Nada a derruba, mesmo quando está morrendo por dentro. Ela sempre tem palavras de força, não apenas para si mesma, mas para toda a sua família e para o povo de Macondo. É uma característica notável, que define não apenas Úrsula, mas também todas as 'Úrsulas' encontradas em nossos contextos latino-americanos. Essa é a grande força de nossas matriarcas."

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Mesmo que tenha pulso firme, Úrsula é generosa. Em sua casa, convivem sua filha Amaranta (María Adelaida Puerta), atormentada por um amor proibido, e sua bisneta Remedios A Bela (Daniella Reyes), que tem hábitos excêntricos como andar sem roupas. "Ela sabe tudo o que se passa ao seu redor, entende tudo, vê tudo, mas ao mesmo tempo não permite que lhe traga dor", disse Reyes.

Fernanda, que vem de Bogotá para Macondo ao se casar com Aureliano Segundo, é um elemento estranho que revoluciona a casa. Católica fervorosa, perfeccionista e autoritária, ela vai contra o espírito liberal dos Buendía e é hostilizada abertamente pelo ex-coronel Aureliano, que despreza a religião. Rígida, mas capaz de finalmente ter uma prole legítima em uma família de bastardos e amores incestuosos, ela descaracteriza seus parentes. "Tentei abordá-la com compaixão, porque dá para ver que ela sofreu imposições desde pequena que formaram sua personalidade. Acabou se tornando alguém que tem dificuldade de lidar com suas emoções", disse Carla Baratta, que interpreta a personagem em sua fase adulta.

Círculo vicioso de histórias e tragédias

Como os Buendía, Macondo também muda com a chegada da ferrovia, da eletricidade, do cinema, dos estrangeiros que vêm explorar suas riquezas. Lá nos anos 1960, Gabriel García Márquez falava desses ciclos históricos repetitivos dos quais países como o seu e tantos outros da América Latina não podiam se livrar: conflitos, desigualdades, corrupção, interferência externa, instabilidade, insegurança.

"Não aprendemos nada", disse Marleyda Soto. "O livro tem uma qualidade singular: ele permanece impressionantemente atual e pertinente. Um leitor desavisado, que pegasse a obra sem saber quando foi escrita, poderia facilmente confundir os acontecimentos narrados com fatos da atualidade que poderiam ocorrer em qualquer país da América Latina. E acredito que é justamente por isso que a série é tão relevante neste momento. Ela não apenas atrai mais leitores para García Márquez e nos permite descobrir o romance, mas, por meio dele, passamos também a compreender nossa própria história. Compreender nossa história e vê-la retratada na tela ajuda-nos a evitar repeti-la."

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Cem Anos de Solidão - Parte 2
Foto: Netflix/ Divulgação / Estadão

Em Macondo, na Colômbia e no resto da América Latina, também temos tendência a nos esquecermos do passado. "Inclusive tantos acontecimentos que, infelizmente, continuam a ocorrer", afirmou a atriz. "Parece que esses fatos só acontecem quando os vemos na televisão ou ouvimos falar deles na mídia, pois, entre quatro paredes, sentimo-nos seguros. No entanto, ao sairmos, vemos a realidade nos atingir e percebemos que, assim como Macondo, estamos presos a um ciclo, repetindo nossa história e nossas tragédias. E creio que isso acontece simplesmente porque, como povo, não aprendemos a curar feridas nem a perdoar. Não aprendemos a olhar para nós mesmos. Enquanto isso não acontecer, estaremos condenados a repetir a história."

O poder da perspectiva local

É por isso que contar a história do ponto de vista colombiano e latino-americano é tão fundamental. Personagens que parecem absurdos não são para nós. Situações que acontecem em nossos países e parecem surreais não são para nós. "É importante porque nós a conhecemos profundamente", disse o ator Julián Román, que interpreta José Arcadio Segundo e Aureliano Segundo na fase madura.

Ele se lembrou de um professor mencionando a adaptação para o cinema de outra obra de García Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera (2007). O diretor inglês Mike Newell destacou certos aspectos - como a questão das amantes - como algo especial, sendo que é para a região algo cotidiano. "Na costa colombiana há bairros de amantes", conta Román. "Temos compreensão da nossa própria 'Macondo', do nosso estado de precariedade e dos nossos personagens. É por isso que acredito ser importante contarmos as nossas próprias histórias. Quando nossas histórias não são contadas por nós, surgem situações curiosas — como um filme que mostra Bogotá, na Colômbia, sob um calor de 40 graus, com soldados falando com sotaque mexicano e galinhas e burros circulando pelo meio da cidade. Essa é a grande diferença ao contar nossas próprias histórias: nós sabemos onde as galinhas e os burros devem estar, não precisamos que nos digam isso."

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