Todo sucesso de crítica e público cria seus imitadores, e após a repercussão de A Substância, vira e mexe surgem filmes que tentam repetir a mesma essência. É o caso de Insaciável, longa que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 6, e que fala sobre Hana (Midori Francis), estudante de medicina que começa a ingerir um medicamento para emagrecer feito de cinzas de pessoas. Aos poucos, é claro, a coisa foge do controle.
Além de seguir na esteira do premiado terror de Coralie Fargeat, é evidente como a cineasta Natalie Erika James tem outros temas quentes em mãos. A pressão estética para emagrecer a qualquer custo e de forma medicamentosa, muito colada no tal "efeito Mounjaro", surge de forma natural e dando uma boa complexidade à trama, assinada por ela mesma. Além disso, o questionamento sobre os bastidores da indústria farmacêutica, com um remédio feito com gente morta, também abre espaço para boas provocações.
O grande problema, porém, é que Natalie Erika James, do também fraquíssimo Relíquia Macabra, perde essas duas oportunidades. Toca no assunto, mas nunca se aprofunda. Para começar, o terror em si é ingênuo, bobo. Usando esse medicamento feito de cinzas, a protagonista vivida por Midori Francis (Grey's Anatomy) começa a ver gente morta. Óbvio. Os sustos são, no geral, jumpscares gratuitos de cadáveres espreitando a casa dela ou aparecendo nos espelhos.
Além disso, a tentativa de um terror corporal, renascido após A Substância, nunca chega lá. James fica com medo de tocar no assunto enquanto está falando sobre obesidade e se torna mais comedida do que poderia ou deveria ser. Não é falta de talento técnico — o departamento de maquiagem entrega efeitos genuinamente nojentos nos momentos finais, quando a diretora finalmente se permite ser visceral. A sensação é de que a cineasta tem uma batata quente em mãos, criada por ela mesma, e apenas quer se livrar disso. Não sabe lidar bem com o tema e, principalmente, fica com medo de transformar o filme de fato no tal body horror.
Não ajuda o fato de o roteiro tentar abraçar coisa demais ao mesmo tempo. Em pouco mais de uma hora e cinquenta, o filme quer falar sobre indústria farmacêutica, pressão estética, luto e saúde mental — e a única personagem que poderia ancorar esse excesso, a melhor amiga vivida por Danielle Macdonald, aparece só o suficiente para tentar (e falhar) em convencer Hana a buscar ajuda. É sintoma de um roteiro que sabe listar problemas, mas não sabe hierarquizá-los.
Era uma oportunidade de ouro de Natalie Erika James transformar Insaciável em um filme que se preocupa com a pressão estética enquanto também fala de saúde, tudo embalado em um filme de terror, mas o medo de tocar nos temas fica maior do que o longa-metragem em si. Distrações ganham espaço e a complexidade da discussão vai sendo enfraquecida.
No fim, sobra a sensação de um filme que confunde acúmulo de temas com profundidade, como se empilhar assuntos urgentes bastasse para parecer corajoso. James tem, sim, a inteligência de identificar as feridas certas para cutucar; mas falta a coragem de realmente colocar o dedo nelas. Insaciável prova que existe um abismo entre citar um problema e enfrentá-lo. E é bem nesse abismo que o filme se perde.