'Champagne' usa comédia e viagem para falar sobre luto em vida e celebrar possibilidade de despedida

Filme holandês surpreende com história honesta e emocionante sobre filho precisando lidar com a perda iminente do pai e sobre pai diante de sua finitude

10 ago 2026 - 18h11

Maarten (Leo Alkemade) está tendo um daqueles dias. Técnico de TI, ele precisou lidar com a implementação de um novo sistema no trabalho. Durante a reunião, os filhos apareceram, mostraram o dedo do meio para os chefes e foram embora, deixando o climão. Tudo parece estar dando errado até que o pai do protagonista, Hans (Huub Stapel), piora ainda mais as coisas: diz, do nada, que descobriu que está com câncer incurável e terminal.

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Essa é a história de Champagne, longa-metragem holandês em cartaz nos cinemas brasileiros. Mesmo com cara de dramalhão, porém, o filme dirigido por Tim Kamps não está interessado em fazer da história uma tragédia grega. Pelo contrário: com toda a cara de uma versão europeia de Sideways: Entre Umas e Outras (ou, guardadas as proporções, do aconchego de Intocáveis), o filme mostra pai e filho em uma viagem pela região de Champagne, na França, enquanto se reconectam e enfrentam o luto dessa morte iminente. Filho lidando com a partida do pai; o pai com a finitude da vida.

Huub Stapel e Leo Alkemade em cena de 'Champagne'
Huub Stapel e Leo Alkemade em cena de 'Champagne'
Foto: Autoral Filmes/Divulgação / Estadão

Kamps, por mais desajeitado que seja, sabe tratar bem dessa complicação sobre encarar o fim. Com boas atuações de Stapel e de Alkemade, o filme sabe se equilibrar entre a comédia e a tragédia. A graça existe nas situações do dia a dia, seja do absurdo do preço de uma garrafa de espumante ou do jeito de uma garçonete falar, enquanto o drama persiste pela simplicidade desesperadora da morte. Ela espreita cada fala e cada gesto dos personagens, mesmo na hora do riso.

De novo, isso recai em um trabalho de ponta da dupla de atores. Os holandeses conseguem fazer graça sem exagerar no tom, deixando a melancolia tomar conta quando precisa. Leo Alkemade, aliás, é a grande surpresa da produção. Comediante por essência, ele assina o roteiro e leva para as telas uma dor bem particular: sonhava em fazer essa mesma viagem com o próprio pai, mas a doença chegou antes. Agora, com Champagne, ele revive essa experiência e coloca muito da própria emoção dentro da trama — uma carga que fica evidente em cena.

Filme é construído entre uma esquete e outra

O único tropeço que impede o filme de decolar como poderia é a dificuldade de Tim Kamps em dar ritmo ao longa-metragem sem parecer várias esquetes coladas. Diferente de Sideways, filme que volta à memória o tempo todo, não há exatamente uma unidade que permeie toda a produção para além do luto encravado no rosto, gestos e sentimentos de pai e filho. Cada situação parece uma sacada de um programa de humor, com os dois personagens como única semelhança entre elas. Falta algo maior, mais potente e intenso.

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'Champagne' fala sobre luto, união e relação de pai e filho
Foto: Autoral Filmes/Divulgação / Estadão

Além disso, com essa sensação de que tudo está separado em pequenas histórias, fica difícil não comparar. A esquete da garçonete, por exemplo, parece mais divertida do que a sequência em que eles interagem com um homem que vive nas ruas da região. A visita a uma vinícola é mais interessante, saborosa e divertida do que outra. E por aí vai. Fica a eterna sensação de que um momento é melhor, mais inspirado e divertido do que o outro.

Pelo menos, mesmo com esse tropeço, o espumante é sempre honrado aqui, com as borbulhas sendo bem filmadas e acompanhando bem a jornada de pai e filho. O luto é o ponto central, claro, mas Kamps permite que o roteiro se desenrole para falar sobre união, conexão, conversa, sentimento. E tudo isso regado com a bebida francesa, deixando o momento mais leve, fresco e interessante como deve ser, entre um brinde e outro.

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