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Abençoadas e perseguidas: "Elefantes na Névoa" revela o lado hostil do Nepal para as mulheres trans

Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme nepalês revela uma das comunidades trans mais antigas do mundo e tem estreia prevista no Brasil entre janeiro e fevereiro.

30 out 2026 - 10h01
Resumo
Premiado no Festival de Cannes, o longa nepalês "Elefantes na Névoa", de Abinash Bikram Shah, expõe a violência e a transfobia contra as Kinnar, antiga comunidade de mulheres trans sagradas. Na trama, a busca aflita de uma mãe por sua filha desaparecida na floresta revela a hipocrisia e a hostilidade dos moradores locais. Com estética crua e ritmo tenso, o filme traça um paralelo místico com os elefantes para denunciar o ódio e o perigo que cercam essas vidas no Nepal e em todo o mundo.

O longa-metragem nepalês "Elefantes na Névoa", de Abinash Bikram Shah, conquistou o prêmio do júri na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes deste ano. A honraria é, de fato, plenamente merecida, pois o filme cumpre à risca os requisitos dessa seção do festival francês, criada para dar palco a obras que escapam ao padrão ocidental de cinema: aquelas que apresentam um tema ou uma característica artística disruptiva, ou que apostam em narrativas fora do comum.

Imagem: Divugação/Imovision
Imagem: Divugação/Imovision
Foto: Divugação/Imovision / Woo! Magazine

No filme, acompanhamos um grupo de mulheres trans que vive em um pequeno vilarejo localizado no Nepal. Elas integram uma comunidade chamada Kinnar, desconhecida do grande público mundial até a exibição da obra em Cannes. Trata-se de uma das comunidades de mulheres transgênero, pessoas intersexo e de terceiro gênero mais antigas do planeta, com raízes culturais que se estendem, além do Nepal, à Índia e a Bangladesh. Sua importância é histórica, visto que há registros dela em textos sagrados hindus, como o "Mahabharata".

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O papel das membras dessa comunidade consiste, sobretudo, em abençoar casamentos e nascimentos, concedendo prosperidade e fertilidade aos envolvidos por meio de cantos e danças. Tudo isso porque, segundo a tradição, elas possuem poderes outorgados pelos deuses Bahuchara Mata e Bhagwan Ram. Quando se sentem ameaçadas, também podem amaldiçoar seus inimigos. Para concluir a contextualização, as Kinnar são comandadas por uma líder e, logo abaixo dela, estão as "mães", que oferecem abrigo e formam famílias com as demais integrantes.

É uma dessas mães, Pirat (interpretada com notável intensidade pela atriz amadora Pushpa Thing Lama), a protagonista de "Elefantes na Névoa". Sua missão consiste em encontrar Apsara (Aliz Ghimire, também não profissional), uma de suas filhas, desaparecida em meio à floresta que, como sugere o título do filme, está repleta de elefantes selvagens, supostamente uma ameaça à vida dos moradores.

Imagem: Divugação/Imovision
Foto: Divugação/Imovision / Woo! Magazine

A jornada dessa mulher trans revela-se árdua, já que os habitantes do vilarejo começam a exibir seu verdadeiro rosto transfóbico, antes disfarçado pela falsa gentileza de quem apenas desejava usufruir das proteções divinas oferecidas pelas Kinnar. É a partir daí que o diretor Bikram Shah, também roteirista do longa, desenvolve uma história de tensão que cresce a cada minuto. Sua câmera, muitas vezes sem qualquer estabilização, corre ao lado dos personagens e transmite ao público todo o nervosismo das cenas em plena floresta fechada. Soma-se a isso a razão de aspecto reduzida e a fotografia granulada, de aparência envelhecida, que conferem a "Elefantes na Névoa" uma sensação de prisão isolada e rústica de extremo perigo.

Os chamados à liberdade dessas grades surgem nos momentos em que as Kinnar cantam, gritam e batem palmas, ou quando os elefantes são ouvidos, em um som estridente captado por profissionais brasileiros, e que fazem tremer as cadeiras da sala de exibição. O paralelo entre esses seres quase místicos, os elefantes, e aquelas mulheres sagradas é traçado nessas passagens.

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Essas escolhas narrativas e estéticas são fundamentais para demonstrar o quanto aquele lugar é hostil às mulheres trans, e esse é o ponto mais importante e contundente do filme, pois leva o espectador a perceber que o Nepal, assim como qualquer outro lugar do mundo, trata sua comunidade LGBTQIA+ com muito ódio e violência. Dessa forma, cada pessoa sentada nas poltronas dos cinemas brasileiros é lembrada de que somos, lamentavelmente, campeões em assassinar pessoas trans.

A conclusão catártica desse belo longa talvez sugira uma saída possível para que consigamos pôr fim a esse massacre, seja para o bem, seja para o mal, dependendo das concepções éticas de cada pessoa na plateia.

"Elefantes na Névoa" foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O filme tem estreia prevista no circuito comercial brasileiro entre janeiro e fevereiro, segundo informou o coprodutor presente na sessão a que assistimos.

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Video: Reprodução/Youtube (@imovision)

Imagem destacada de "Elefantes na Névoa": Divulgação/Imovision

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

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