Como fungos estão permitindo "cultivar" tijolos e casas sustentáveis no futuro

Cultivar edifícios com micélio: tijolos sustentáveis que reciclam resíduos, isolam calor e som, reduzem CO₂ e superam o concreto em desempenho

29 jun 2026 - 07h31

Em laboratórios e fábricas-piloto espalhados pelo mundo, blocos que lembram tijolos comuns estão surgindo de um processo pouco convencional: em vez de fornos e cimento, entram em cena resíduos agrícolas e o micélio, a rede de raízes dos fungos. A proposta é simples de descrever e ambiciosa na prática: cultivar materiais de construção, e não apenas produzi-los, usando a biotecnologia para criar estruturas leves, resistentes e com baixa pegada de carbono.

Esses materiais à base de micélio ganharam espaço em eventos de arquitetura sustentável e em projetos experimentais desde meados da década passada. Prototipagens em pavilhões, fachadas temporárias e peças de design vêm demonstrando que a arquitetura verde com micélio não é apenas um conceito teórico. A combinação entre resíduos orgânicos abundantes e fungos específicos permite fabricar blocos, painéis e placas que se comportam como tijolos ecológicos, com características bem diferentes do concreto e dos tijolos cerâmicos tradicionais.

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tijolo feito de micélio.
tijolo feito de micélio.
Foto: Reprodução de vídeo / Giro 10

Como o micélio se transforma em tijolo sustentável?

A base do chamado tijolo de micélio está em um processo de cultivo controlado. Resíduos como palha, serragem, bagaço de cana ou cascas de grãos são limpos, triturados e misturados com água até formar um substrato úmido. Em seguida, esse material recebe o micélio, que se espalha como uma malha branca, preenchendo os espaços vazios entre as partículas. Em poucos dias, essa rede fúngica "cola" tudo, criando um bloco rígido e leve.

Para dar forma ao material, o composto é colocado em moldes que podem ter o tamanho e o desenho de um tijolo, de um painel de parede ou de elementos decorativos. O micélio cresce até preencher totalmente o molde. Quando atinge a densidade desejada, o bloco é submetido a calor ou desidratação controlada, interrompendo o crescimento do fungo e estabilizando a peça. O resultado é um material de construção de micélio pronto para uso, sem necessidade de queima em fornos de alta temperatura.

Tijolo de micélio é mesmo resistente e seguro para construir?

Os estudos mais recentes mostram que a resistência mecânica do tijolo de micélio depende da receita usada: tipo de resíduo, espécie de fungo, tempo de crescimento e densidade final. Em muitos testes, a relação entre resistência e peso supera a do concreto convencional, o que interessa especialmente em estruturas leves, divisórias internas e sistemas de fechamento. Essa vantagem vem do fato de o micélio formar uma trama contínua, distribuindo esforços através de milhões de filamentos entrelaçados.

Outro ponto relevante é o comportamento ao fogo. Diferentemente de muitos polímeros sintéticos, os blocos de micélio tendem a carbonizar na superfície, criando uma camada que retarda a propagação das chamas. Essa característica torna o material naturalmente resistente ao fogo dentro de certos limites de uso, algo que vem sendo investigado em laboratórios de desempenho térmico e segurança predial. Para completar, a estrutura porosa desses blocos oferece isolamento térmico e acústico de forma similar a lãs minerais e espumas sintéticas, ajudando a reduzir o consumo de energia de aquecimento e resfriamento dos edifícios.

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Quais impactos ambientais o tijolo de micélio pode trazer para a construção civil?

O uso de materiais de construção sustentáveis à base de micélio mexe diretamente na balança de emissões da construção civil, setor conhecido pela alta pegada de carbono. Enquanto o cimento Portland exige temperaturas superiores a 1.400 °C e libera grandes quantidades de dióxido de carbono em sua fabricação, o tijolo de micélio cresce à temperatura ambiente ou pouco acima disso, consumindo bem menos energia e dispensando matérias-primas minerais intensivas em carbono.

Além de emitir menos, esse tipo de tijolo contribui para sequestrar carbono. Tanto o resíduo agrícola quanto o próprio micélio armazenam carbono que foi retirado da atmosfera pelas plantas durante o crescimento. Em vez de queimar ou descartar esses resíduos, o processo os transforma em componentes de edificações. Em escalas maiores, essa abordagem pode auxiliar estratégias de neutralização de emissões, alinhando a construção com metas climáticas de longo prazo.

Do resíduo ao fim da vida útil: como funciona o ciclo de vida do tijolo de micélio?

O ciclo de vida do tijolo ecológico de micélio começa no campo, com a coleta de sobras da agricultura e da indústria madeireira. Materiais que normalmente seriam subaproveitados passam a ser insumos de alto valor na bioeconomia da construção. Na etapa de fabricação, o crescimento em moldes reduz o desperdício: a peça sai quase na geometria final, exigindo pouca ou nenhuma usinagem posterior.

Durante o uso em paredes, divisórias, painéis acústicos ou elementos de mobiliário, esses blocos atuam como isolantes térmicos e sonoros e contribuem para regular a umidade interna, já que são porosos e podem interagir com o ar ambiente. Em muitas aplicações, são combinados com estruturas de madeira engenheirada ou perfis metálicos, criando sistemas híbridos que equilibram resistência estrutural e desempenho ambiental.

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Ao fim da vida útil do edifício ou da peça, quando não há mais interesse em reutilizar os blocos, o destino é diferente dos entulhos de concreto. Dependendo do tratamento recebido (por exemplo, da presença de resinas ou revestimentos), o material de micélio pode ser triturado e devolvido ao solo como composto orgânico ou servir novamente como base para novos ciclos industriais. Em cenários mais controlados, a devolução ao ambiente acontece com baixa geração de resíduos tóxicos, reduzindo o volume de descarte em aterros de construção e demolição.

"Cultivar" edifícios: como essa biotecnologia muda o jeito de construir?

A expressão "cultivar edifícios" resume uma mudança de paradigma. Em vez de extrair grandes quantidades de minerais, transportar toneladas de insumos e queimá-los em fornos, a biofabricação com micélio aposta em processos biológicos de baixa energia. Componentes podem ser "crescidos" perto do local da obra, diminuindo deslocamentos e permitindo personalização das peças conforme o clima, o tipo de projeto e as exigências de desempenho.

Em escala urbana, a disseminação de tijolos e painéis de micélio tende a aproximar a construção civil de cadeias produtivas agrícolas e florestais, reforçando a lógica de economia circular. Pesquisos em andamento investigam a integração desses materiais com sensores, sistemas de ventilação natural e soluções de captação de água, ampliando as possibilidades de criar edifícios que interajam melhor com o meio ambiente. Ao alinhar biotecnologia, arquitetura sustentável e gestão de resíduos, esse tipo de inovação abre espaço para cidades em que construir e regenerar caminham lado a lado.

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