No Festival de Veneza, o cineasta Ilya Khrzhanovsky defendeu a vitória e a independência da Ucrânia, rebatendo críticas de Kiev, que rotulou seu filme "Dau" como propaganda pró-Moscou. O diretor, que renunciou à cidadania russa contra a invasão promovida por Putin, justificou que o financiamento do oligarca sancionado Sergey Adonyev ocorreu antes da guerra. Estrelado por Teodor Currentzis, o longa retrata o terror soviético por meio da vida do físico Lev Landau, criador da bomba atômica da URSS.
O diretor russo Ilya Khrzhanovsky, cujo filme "Dau" está entre os mais polêmicos do 83º Festival de Cinema de Veneza, afirmou nesta quarta-feira (9) que deseja que a Ucrânia "sobreviva" à guerra e "preserve sua independência".
A declaração foi dada em entrevista coletiva no dia de estreia do longa na competição pelo Leão de Ouro, após as críticas do governo ucraniano à inclusão da produção na seleção oficial da mostra.
"Minha posição sobre a guerra sempre foi muito clara, desde antes da invasão de 2022", disse Khrzhanovsky, que já declarou ter renunciado à cidadania russa em protesto contra o governo de Vladimir Putin e o conflito.
"A Ucrânia vive um momento de guerra terrível e sangrenta, que dura mais de quatro anos. Acho que sobreviverá, permanecerá forte, preservará sua independência e terá um futuro melhor. A única coisa que posso desejar no momento é paz e que o governo ucraniano tenha o maior sucesso possível: que salve o país e vença a guerra", acrescentou.
A presença de "Dau" na competição foi contestada por Kiev, que classificou a obra como instrumento de propaganda de Moscou, acusação rejeitada pelo cineasta e pelo diretor do Festival de Veneza, Alberto Barbera.
"Desde que comecei esse filme, vi acontecerem muitas coisas terríveis no país onde nasci. Tudo começou com a guerra na Ucrânia, cujas violências continuam e são cada vez piores. Isso é mais importante do que qualquer polêmica", reagiu Khrzhanovsky.
Nascido como biografia do físico Lev Landau, vencedor do Prêmio Nobel e um dos nomes centrais no desenvolvimento da primeira bomba atômica soviética, "Dau" é interpretado pelo maestro e ator greco-russo Teodor Currentzis.
O filme acompanha a trajetória do cientista entre 1928 e 1968, atravessando quatro décadas de terror, delações, julgamentos de fachada e censura na União Soviética. "Terminamos as filmagens principais em 2011. Depois me concentrei principalmente no projeto artístico 'Dau', com instalações, livros e muitos outros aspectos", contou o diretor.
"Houve uma parte de filmagens mais recentes. Tentei não modificar o filme inicial, que já estava estruturado dessa forma, mas minha percepção mudou", salientou. O longa tem ainda uma participação especial do físico italiano Carlo Rovelli, no papel de um cientista comunista da época.
"Rovelli é um cientista único, não só por estar ao lado dessa teoria moderna e criativa da gravidade quântica, mas também por encontrar as palavras para descrever e explicar a ciência a um vasto público", disse Khrzhanovsky.
Questionado sobre a participação do oligarca russo Sergey Adonyev (alvo de sanções dos Estdos Unidos) entre os financiadores do projeto, o diretor explicou que o apoio ocorreu entre 2008 e 2019, em "tempos completamente diferentes", quando o bilionário "não figurava em nenhuma lista de sancionados".
"Nos últimos sete anos, o projeto assumiu uma natureza totalmente nova", acrescentou.
Sobre a posição neutra de Currentzis em relação à guerra, Khrzhanovsky preferiu não criticar o colega. "Cada um responde por suas próprias decisões, pela própria vida, pelo próprio destino. Como se vê no filme, o protagonista também faz escolhas diversas. E paga as consequências, como acontece com todos nós", disse. .