Como é o bairro humilde abalado pela violência visitado pelo papa Leão 14 na capital do Uruguai

Região no norte da capital visitada pelo pontífice neste sábado em sua passagem pelo Uruguai apresenta níveis de homicídios e pobreza muito superiores aos do restante da cidade e contrasta com a imagem de tranquilidade e prosperidade frequentemente associada ao país.

7 nov 2026 - 22h11
Resumo
Em visita ao Uruguai, o papa Leão 14 esteve em Casavalle, bairro de Montevidéu marcado por extrema pobreza, tráfico de drogas e pelos maiores índices de homicídios da capital. Contrastando com a imagem próspera do país, a região sofre com tiroteios frequentes e precariedade social. Diante dessa realidade, o pontífice discursou contra a violência e a fome que afetam as crianças locais, cobrando uma ação conjunta e urgente entre a Igreja, a sociedade civil e o poder público em prol do bem comum.
O Papa Leão 14 visitou a paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe em Casavalle
O Papa Leão 14 visitou a paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe em Casavalle
Foto: Reuters / BBC News Brasil

É meio-dia em Casavalle, e o silêncio nas ruas de terra contrasta com os disparos que aterrorizam os moradores depois que o sol se põe.

"Há tiroteios praticamente todas as noites", relata Silvana de los Santos, que viveu seus 50 anos nesta região do norte de Montevidéu.

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"Minha filha tem 10 anos e me pergunta: 'Mãe, o que é isso? São bombas ou...?'. E não tem jeito, chega um momento em que preciso dizer a verdade, porque ela está crescendo", continua.

Em uma pequena banca de frutas e verduras, ela fala à BBC Mundo (serviço em língua espanhola da BBC) a poucos quarteirões do local visitado neste sábado (7/11) pelo Papa, que esteve de passagem pelo Uruguai, e expressa o desejo de que essa presença traga um pouco de paz à região, especialmente para as crianças.

"Às vezes", conta De los Santos, "nas escolas públicas, os pais precisam sair correndo para buscar os filhos por causa de conflitos entre gangues ou tiroteios".

Casavalle compreende diversos microbairros com alta densidade populacional e registra, conforme apontam vários estudos, maior desigualdade socioeconômica e índices de violência mais elevados do que em outras partes da capital uruguaia.

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Essa realidade, que destoa da imagem de tranquilidade e prosperidade frequentemente associada ao Uruguai, foi mencionada pelo Papa em seu discurso no local.

"Não podemos passar indiferentes quando sabemos que há crianças no Uruguai que não vão à escola por medo de não voltar. Não podemos silenciar nossa consciência ao constatar que uma mãe não tem meios para alimentar seus filhos", disse o pontífice diante dos moradores da região.

"Um filho deste país, tão rico em recursos, não deveria ir dormir sem comer, nem deveria abrir mão de receber uma educação e um futuro dignos por causa da insegurança que impera nas ruas", afirmou. "Muito menos deveria sofrer violência a ponto de perder a vida."

'Isso é violência'

A paróquia de Casavalle, que recebeu a visita de Leão 14 neste sábado, se chama Nossa Senhora de Guadalupe — um templo de 1987 com tijolos aparentes que vive uma movimentação especial nestes dias.

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Na entrada, foi montado um palco para receber o pontífice com uma cruz de madeira de cerca de 130 quilos confeccionada por adolescentes do Inisa, o instituto uruguaio de detenção de menores infratores.

Os preparativos para receber o Papa foram intensos em Casavalle
Foto: BBC Mundo / BBC News Brasil

"O Papa vem a Casavalle para lembrar a muitos uruguaios que existe vida do outro lado da Avenida Italia", diz Alejandro Andrada, de 52 anos, referindo-se à via que divide Montevidéu entre o norte, mais popular, e o sul, mais rico.

Andrada liderou uma organização social em Casavalle que deixou de existir e, ao caminhar pela região, aponta para ruas com esgoto a céu aberto ou lixo acumulado.

"Isso é violência", comenta.

Ele também observa a solidez de casas construídas por imigrantes espanhóis e italianos décadas atrás, que se distinguem de outras moradias muito mais precárias e recentes.

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Um pouco mais adiante, dois moradores antigos descrevem uma cena dantesca que presenciaram pouco antes em uma caçamba de lixo.

"Uma mulher estava brigando com um cachorro porque ela queria comer um macarrão que tinham jogado fora e o cachorro também queria comê-lo", relata Delmar Sandez, um aposentado de 86 anos.

Algumas partes de Casavalle carecem de serviços básicos, como saneamento, ruas pavimentadas ou iluminação
Foto: BBC Mundo / BBC News Brasil

Rodolfo Arévalo, de 67 anos, comenta ao lado que os roubos se tornaram tão frequentes nessas ruas quanto as rajadas de tiros.

"É por causa das drogas, da pasta-base (de cocaína), entre gangues de diferentes bairros", afirma.

Ele não é o único que pensa assim.

Cerca de dois terços dos moradores da região apontam "as drogas" como um dos principais problemas e os confrontos entre grupos ligados a elas como uma preocupação, segundo um estudo da Universidade da República, publicado em junho, com base em uma pesquisa realizada em Casavalle e nos bairros vizinhos.

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No ano passado, a delegacia da região registrou 39 ocorrências de homicídio, o que equivale a 44,1 casos por 100 mil habitantes — a maior taxa de Montevidéu naquele período, segundo dados oficiais.

Essa proporção é quase três vezes a média de homicídios de toda a cidade (16,5); é um pouco inferior à registrada na cidade colombiana de Cali (46,8 por 100 mil pessoas) e quase o dobro da taxa de mortes violentas observada no Rio de Janeiro (22,7 por 100 mil habitantes).

A presença policial aumentou de forma notória em Casavalle antes da visita do Papa
Foto: BBC Mundo / BBC News Brasil

Especialistas atribuem boa parte dessas mortes em Casavalle a conflitos ligados ao microtráfico e a disputas territoriais.

Mas a delegacia da região também foi a que registrou o maior número de denúncias de violência doméstica em Montevidéu no ano passado: 1.377.

Estrella Cuadrado, uma vendedora ambulante de 50 anos, associa o aumento da insegurança à ausência de adultos que, antigamente, "faziam respeitar o bairro".

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"Hoje, essas figuras de referência mais velhas não estão mais aqui", diz ela. "Estão presas ou se mataram umas às outras."

'Despertar de nossas inércias'

O padre Pablo Coimbra, líder da paróquia local, aponta que no bairro "há violência, pobreza, narcotráfico", mas também "gente humilde e trabalhadora que quer vencer na vida".

As obras sociais da Igreja na região, explica ele, incluem centros educacionais que oferecem bolsas de estudo a crianças e jovens, oficinas de capacitação profissional — que vão da tecnologia à marcenaria —, além de fornecimento de alimentação, promoção de esportes e assistência a pessoas idosas abandonadas pelas famílias.

O padre Pablo Coimbra afirma que a Igreja Católica está realizando uma dúzia de projetos importantes em Casavalle voltados para os mais vulneráveis
Foto: BBC Mundo / BBC News Brasil

Também foram construídas e reformadas mais de 130 moradias nos últimos anos para famílias ligadas à paróquia.

Tudo isso é financiado pela própria Igreja, por fundações privadas e, em alguns casos, por convênios com o Estado, detalha Coimbra, que também é contador e iniciou sua missão em Casavalle há seis anos.

"Não é um Estado ausente", comenta, "mas é, sim, um Estado ineficiente".

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Em seu discurso no local, o Papa pediu que "a Igreja, a comunidade civil e o Estado" trabalhem juntos.

"Precisamos despertar de nossas inércias e defender o bem comum", disse o Papa, que viveu mais de 20 anos no Peru.

Ao chegar ao bairro, o pontífice abençoou um conjunto de moradias sociais da Igreja que estão em fase de construção, a poucos metros da paróquia.

Guadalupe Bongiovanni e Diego Rivero trabalham nessa obra e alertam para a insegurança na região.

"Assaltaram meu filho na esquina de casa, com arma e tudo", relata Bongiovanni, de 36 anos.

O Papa abençoou um conjunto de moradias construídas pela Igreja em Casavalle para famílias ligadas à paróquia
Foto: BBC Mundo / BBC News Brasil

Para a visita papal, o bairro recebeu centenas de policiais a pé, em motos, caminhonetes e até em veículos blindados.

O pároco Coimbra cumprimenta os moradores com familiaridade ao caminhar pelas ruas.

De repente, Lorenzo Álvarez, um aposentado de 71 anos, se aproxima do sacerdote para informar que sua casa foi assaltada enquanto ele estava fora.

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Coimbra recorda que, no ano passado, ele mesmo enfrentou um ladrão conhecido na região para exigir que parasse de roubar os moradores.

"Vou te matar", respondeu o homem.

O pároco, então, registrou uma ocorrência policial por causa da ameaça. E seguiu com suas tarefas.

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