"É uma história que eu desejo que possa atrair principalmente um público mais jovem para poder ouvir, poder fazer e pensar, para as pessoas poderem refletir e pensar: 'Quem são esses porcos dos dias atuais?'", diz Gaby Amarantos, narradora do audiobook de A Revolução dos Bichos, obra de George Orwell lançada em 1945, já disponível na Audible.
Além da cantora, a obra também traz performances de Mateus Solano, que vive Napoleão, e Matheus Nachtergaele, voz de Major. A icônica obra, uma fábula política que se utiliza dos animais para criticar o autoritarismo, ganha uma nova roupagem, de forma a atualizar um clássico lançado no século passado e, ainda assim, manter seus conceitos e ideias originais.
"É ouvir um livro ser contado, com pessoas e com toda a ambientação, e é uma experiência realmente única, mas é um convite pra você ler o livro e ter uma infinidade de outras vozes dentro da sua cabeça", afirma Solano.
O audiolivro como porta para a leitura
Em conversa com o Estadão, os atores refletiram sobre como a evolução da tecnologia mudou a relação dos seres humanos com o tempo - e como, neste contexto, o audiolivro pode servir como uma introdução à leitura.
"A ideia que nos foi vendida era de que a gente ia ser libertado e ia ter mais tempo pra nós. Foi mentira, era o contrário disso. A ideia era de libertação, mas o instrumento foi usado pra doma", diz Nachtergaele, ao fazer um paralelo com o clássico em questão. "Estamos muito ocupados, na verdade. O tempo inteiro. E, obviamente, esse estilo de vida impede um pouco a parada para o livro".
"Me parece que o audiolivro deve ser, no seu melhor aspecto, um bom convite pra leitura", prossegue o ator. "Ele facilita o acesso. Nos tempos de hoje, você consegue estar fazendo alguma coisa, já que a gente foi sequestrado e, ao mesmo tempo, ouvir o livro. Na melhor das hipóteses, você consegue parar de quando em quando para receber a nossa versão do livro, mas sem a resolução total".
Sotaques diversos
A cantora Gaby Amarantos celebrou o fato de que o audiolivro tenha reunido vozes de artistas brasileiros de diversas regiões. "Me deixou muito feliz ouvir essa diversidade de sotaques e jeitos de falar, nuances e camadas e o quanto que a voz também é essa ferramenta tecnológica que temos e que podemos usar para dar todas as nuances dos personagens e de explorar também esse novo universo."
Foi justamente essa representatividade o principal motivo para ela aceitar trabalhar no projeto: "Eu quis fazer isso porque eles pensaram numa pessoa do Norte pra contar essa história que não é brasileira, mas que nós brasileiros - acho que pessoas no mundo inteiro - nos identificamos muito", relatou.
A cantora ainda confessou ter se sentido "apavorada" com os desafios da narração. "Depois eu fui me sentindo acolhida e nesse apavoramento eu fui encontrando poder para poder trazer esse sotaque, essa nuance, de uma mulher que é da Amazônia, que é do Norte", disse.
A vilania e suas diferentes facetas
Mateus Solano dá voz ao porco Napoleão, que na história é um antagonista tirânico, mas carismático -- aspecto que o conecta a outro grande vilão vivido pelo ator: o Félix da novela Amor à Vida.
"Não acho que o Napoleão, por ser autoritário, deixe de ser carismático. Os discursos são carismáticos à medida que eles atendem às nossas expectativas", pontuou Solano. "Acho que o Napoleão, desde sempre, é um cara autoritário. Ele autoritariamente luta pela igualdade do início e autoritariamente trai a própria revolução."
"Tem muito suco aí para tirar o Napoleão também desse lugar de vilão e colocar ele dentro de todos nós", reflete o ator.