O uso indiscriminado de canetas emagrecedoras sem orientação médica traz sérios riscos à saúde. Especialistas alertam que o emagrecimento rápido gera flacidez severa, queda de cabelo e carência nutricional, além de reduzir a massa muscular e a densidade óssea, provocando dores articulares. Para minimizar esses impactos e evitar descompensações no organismo, os médicos reforçam que a perda de peso deve ser gradual, acompanhada por profissionais e associada a exercícios físicos e dieta adequada.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Com a popularização do uso das canetas, a cirurgiã plástica Suzy Vieira, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia, notou um aumento do número de operações estéticas. Ela o atribui, em parte, ao "emagrecimento generalizado" de uma parcela da população que tem acesso ao medicamento.
"O emagrecimento rápido gera quadros intensos de flacidez facial e corporal. Além disso, como o paciente seca muito, muitas vezes falta gordura do próprio corpo para realizar o preenchimento no rosto ou nos glúteos, por exemplo, sendo necessário recorrer a preenchedores sintéticos, como o ácido hialurônico. Quando usadas sem acompanhamento médico, as canetas também causam perda severa de nutrientes, proteínas e queda de cabelo", explica a cirurgiã.
"Particularmente, considero as canetas como um marco na medicina, mas as pessoas estão usando sem nenhum acompanhamento. Não se perde só gordura: perde-se nutrientes, proteínas, começa a cair o cabelo, a pele fica flácida. Isso se parece muito com o pós-operatório da cirurgia bariátrica. O acompanhamento é necessário", diz.
O ortopedista Bruno Scatigna, especialista em cirurgia do quadril e membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira do Quadril, faz um alerta semelhante. "Os análogos de GLP-1 são, incontestavelmente, uma descoberta revolucionária e beneficiam muitos pacientes. Mas seu uso sem indicação ou acompanhamento pode trazer consequências negativas, não necessariamente pela substância em si, mas pelos efeitos decorrentes do emagrecimento que ela provoca", afirma.
Uma delas é a perda de densidade mineral óssea associada ao emagrecimento rápido. As pesquisas demonstram que esse efeito não decorre diretamente do uso das canetas emagrecedoras, mas da perda acelerada de peso que elas provocam. Segundo o ortopedista, esse processo requer acompanhamento adequado para minimizar os impactos sobre a saúde óssea.
"Exercícios físicos, dieta, qualidade da alimentação e quantidade de proteína ingerida são fatores determinantes. Dependendo do caso, pode haver perda de massa muscular, comprometimento da estrutura óssea e redução da densidade mineral óssea."
Apostar na atividade física
O ortopedista cita um estudo publicado na revista científica JAMA (Journal of the American Medical Association) que mostra como a prática de exercícios físicos pode compensar essa perda e reduzir seus efeitos sobre o organismo.
"A perda de massa muscular tende a gerar, indiretamente, perda de massa óssea, já que há diminuição da carga exercida sobre o esqueleto", afirma. "A literatura mostra que a atividade física devolve qualidade de vida ao paciente, enquanto o manejo adequado da alimentação ajuda a evitar a recuperação do peso perdido."
Em seu consultório, Bruno Scatigna já recebe casos de pacientes que perderam peso sem necessidade e acabam desenvolvendo uma descompensação. "Esse emagrecimento é um efeito secundário do uso das canetas, e frequentemente constatamos perda de densidade mineral óssea como consequência desse processo", ressalta. "Isso pode ocorrer com o uso das canetas, de forma intencional ou não, após cirurgia bariátrica, por causa de um transtorno alimentar ou de dietas excessivamente restritivas. Em qualquer situação, o emagrecimento deve ocorrer de forma gradual, com acompanhamento profissional."
Há ainda outros riscos associados à perda rápida de peso. "Se a pessoa emagrecer muito ao longo de dez anos, tudo bem. O problema é perder muito peso em três meses, por exemplo, o que pode levar a quadros importantes de perda de força muscular. Isso gera dor, seja muscular, seja articular", explica o ortopedista. "O emagrecimento, independentemente da forma como aconteça, deve ser acompanhado da prática de musculação."