Executiva que comanda o Signal contesta previsões de 'apocalipse de IA' e diz que risco é o uso descuidado da inteligência artificial

Em entrevista à BBC, Meredith Whittaker, chefe de fundação que criou aplicativo de mensagens criptografadas, afirma que riscos da inteligência artificial têm sido mal compreendidos.

13 out 2026 - 10h12
Resumo
Meredith Whittaker, presidente do Signal, rejeita temores de um apocalipse pela IA e alerta que o perigo real é o uso descuidado da tecnologia, inclusive militar. Firme defensora da privacidade, ela afirma que deixará mercados que tentarem enfraquecer a criptografia do aplicativo contra a vigilância estatal, sustentando que a proteção dos dados deve ser um direito universal inegociável, apesar das pressões regulatórias e de controvérsias sobre o mau uso da plataforma por criminosos.
Meredith Whittaker acredita que não há evidências científicas de que a inteligência artificial possa se voltar contra os seres humanos.
Meredith Whittaker acredita que não há evidências científicas de que a inteligência artificial possa se voltar contra os seres humanos.
Foto: Alvaro Alvarez/ BBC / BBC News Brasil

Aviso: Este artigo contém linguagem forte que pode ofender leitores

Meredith Whittaker rejeita as previsões catastróficas sobre a inteligência artificial (IA) que ganham destaque no noticiário. Para ela, os alertas de que a tecnologia poderia se voltar contra a humanidade se baseiam em um temor "sem fundamento científico".

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"O risco é muito real", afirma Whittaker, presidente da Signal Foundation, organização responsável pelo aplicativo de mensagens criptografadas Signal. "Mas não tem nada a ver com essas histórias fantasiosas contadas por garotos alarmistas."

Whittaker considera que o perigo mais imediato está no uso irresponsável da tecnologia.

Ela menciona um suposto caso noticiado pela emissora americana CNN, no qual um chatbot utilizado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos teria inventado informações sobre um navio chinês que supostamente transportava material nuclear. Segundo a reportagem, o episódio levou os EUA a preparar uma resposta militar.

"Quase entramos em guerra com a China", afirma Whittaker ao BBC Global Women, do Serviço Mundial da BBC. "Um sistema que fornece informações de inteligência falsas e quase provoca uma guerra com a China não pode ser considerado superinteligente, seja qual for o critério adotado."

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O Signal tem entre 40 milhões e 70 milhões de usuários, segundo estimativas — um número muito inferior ao do concorrente WhatsApp, que conta com cerca de 3 bilhões de usuários, também segundo estimativas.

No entanto, o aplicativo Signal é conhecido por sua postura rigorosa na proteção da privacidade dos usuários. Seus servidores não têm acesso à identidade de quem envia as mensagens, o que reduz a quantidade de informações que podem ser obtidas por terceiros ou invasores.

Protesto contra o Projeto Maven

Whittaker foi apontada pela revista americana Time como uma das pessoas mais influentes na área de IA. Ela participa de discussões sobre o futuro da tecnologia em alguns dos principais centros de poder do mundo, de empresas do Vale do Silício à sede do governo britânico, em Downing Street, passando pelo Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), e pelo Vaticano.

Ela estudou literatura na graduação e começou a trabalhar no Google em 2006, como funcionária temporária em um cargo inicial, sem formação em ciência da computação.

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Whittaker ganhou notoriedade no fim de 2017, quando soube por um colega da existência do Projeto Maven, um contrato secreto entre o Google e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para desenvolver sistemas de IA capazes de identificar alvos para ataques com drones.

Ela compreendeu o que significava "encurtar a cadeia de ataque": reduzir o intervalo entre a identificação de um alvo por uma máquina e a decisão humana de disparar, deixando menos tempo para avaliar as consequências.

"Isso vai fazer com que informações de inteligência e dados de má qualidade pareçam confiáveis", lembra ter dito publicamente.

No ano seguinte, Whittaker ajudou a organizar uma paralisação que mobilizou cerca de 20 mil funcionários. Eles protestavam contra a atuação do Google em diversas questões, incluindo o que consideravam uma implementação apressada de novas tecnologias. O Google desistiu do contrato, que foi assumido pela Palantir.

Whittaker critica a falta de apoio de investidores de capital de risco a startups comandadas por mulheres
Foto: Alvaro Alvarez/ BBC / BBC News Brasil

Whittaker relaciona diretamente o Projeto Maven ao ataque com mísseis dos EUA contra uma escola no Irã neste ano. Segundo ela, a operação utilizou o sistema e se baseou em informações de inteligência desatualizadas, que identificavam a escola como um alvo militar.

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"Era exatamente isso que estávamos alertando em 2017", afirma.

A Palantir foi procurada pelo programa Global Women e declarou que "não há evidências de que o software da empresa tenha sido responsável por essa terrível tragédia".

A empresa acrescentou que "a Palantir não é responsável pelos dados utilizados pelo sistema nem pela identificação de falhas nas informações de inteligência".

No início deste ano, Louis Mosley, diretor da Palantir no Reino Unido e na Europa, disse à BBC que "sempre há uma pessoa envolvida no processo, portanto a decisão final é sempre tomada por um ser humano".

As Forças Armadas dos EUA ainda não divulgaram os resultados da investigação sobre o ataque à escola em Minab, no Irã, mas o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que os militares "jamais atacariam alvos civis".

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'Tenho princípios'

Governos, incluindo o do Reino Unido, defendem ter mais acesso às conversas em aplicativos de mensagens como o Signal e o WhatsApp. Uma das principais justificativas é a de proteger mulheres e crianças.

Durante a semana de tecnologia London Tech Week 2026, o então primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que as empresas de tecnologia teriam de identificar e bloquear imagens de nudez nos dispositivos usados por crianças, sob pena de enfrentar novas leis.

Whittaker argumenta que as crianças conseguiriam contornar qualquer medida desse tipo e classifica a proposta do governo como "um sistema sem precedentes de controle das comunicações e das informações".

O Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia do Reino Unido informou à BBC que está preparando propostas de mudanças na lei sobre o assunto.

O Signal deixaria de operar em algum país, incluindo o Reino Unido, caso fosse obrigado a enfraquecer a criptografia de suas mensagens?

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"Sim! Meu Deus, eu tenho princípios", responde Whittaker. "Eles não mudam conforme meu humor. Nem por orientação de consultores."

Segundo Whittaker, se fosse necessário submeter à vigilância pessoas "que confiam em nós, às vezes em situações de vida ou morte, e que poderiam ter essas informações usadas contra elas", a empresa "deixaria de atuar naquele mercado".

O aplicativo está total ou parcialmente bloqueado na Rússia, na China e no Irã.

Whittaker aconselha mulheres que trabalham com tecnologia a não se deixar intimidar
Foto: Alvaro Alvarez/ BBC / BBC News Brasil

Rani Govender, responsável pela área de segurança infantil na internet da Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), disse à BBC que a organização recebe relatos de crianças que foram aliciadas e levadas a usar plataformas com criptografia de ponta a ponta, nas quais são coagidas a produzir material de abuso sexual infantil.

"As empresas de tecnologia são responsáveis pelas decisões que tomam ao desenvolver seus produtos e não podem ignorar os riscos que essas escolhas podem representar para as crianças."

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Mas o Signal conta com o apoio de algumas organizações de defesa dos direitos das mulheres, especialmente de países do Sul Global, cujas integrantes também utilizam o aplicativo.

"Em tempos de vigilância estatal e ataques cibernéticos, o Signal é uma ferramenta de sobrevivência", afirma Hera Hussain, fundadora da Chayn, organização de combate à violência de gênero que atua em todo o sul da Ásia.

"Como qualquer plataforma, ele também pode ser usado por pessoas mal intencionadas, e precisamos reconhecer essa realidade."

'O que vamos fazer com as cozinhas?'

Cito a Whittaker um caso ocorrido no Canadá, em que policiais trocaram mensagens racistas e misóginas em um grupo do Signal. O conteúdo só veio a público depois que um dos participantes o repassou à imprensa.

O advogado de um dos policiais afirmou que os homens acreditavam que suas conversas no Signal eram tão privadas e seguras quanto as que tinham dentro de casa.

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"Se eles tivessem conversado na cozinha e um dos amigos os tivesse dedurado, a pergunta seria: 'O que vamos fazer com as cozinhas?'", questiona Whittaker.

"O aplicativo precisa funcionar para todos, caso contrário não funciona para ninguém. Esse é o princípio dos direitos fundamentais. Eles valem até para os idiotas."

Ela menciona o caso de uma mulher nos EUA que foi presa depois que a Meta (dona de Instagram, WhatsApp e Facebook) entregou a autoridades mensagens que mostravam que ela havia ajudado a filha a ter acesso a um aborto em um Estado onde o procedimento havia sido criminalizado.

Segundo Whittaker, a privacidade das comunicações protege as pessoas de diferentes ameaças, como "um marido abusivo, um policial misógino com acesso a um banco de dados ou um governo autoritário que acredita que as mulheres não devem estudar".

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Pergunto o que ela diria a uma mulher que deseja trabalhar na área de tecnologia, mas se sente intimidada pelo machismo no setor.

"Você gosta mesmo disso?", questiona. "Quando se senta diante de um computador, sente aquela empolgação? Gosta de experimentar e desenvolver sistemas de inteligência artificial?"

Ela faz uma pausa antes de continuar: "Você consegue lidar com ambientes interessantes, mas complicados, onde nem todo mundo vai ser simpático? Porque não há nada mais perigoso do que demonstrar covardia diante de alguém que pratica intimidação".

Pergunto se esses ambientes estão cheios de pessoas assim.

Uma colega de Whittaker intervém: "Acho que já são 14h", horário combinado para o fim da entrevista.

Whittaker sorri. "Eu diria para não ser puxa-saco", afirma, usando uma expressão para se referir a quem bajula excessivamente pessoas em posição de autoridade.

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"Isso não vai ajudar em nada. Não ria de uma piada se você não a achar engraçada."

Reportagem adicional de Katie Roberts

Essa reportagem é parte do Global Women, do Serviço Mundial da BBC, que compartilha histórias importantes e inéditas sobre mulheres ao redor do mundo.

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