Médico alerta para riscos do 'trimestre zero', trend que promove práticas radicais antes da gravidez

Uma nova moda nas redes sociais preocupa os profissionais brasileiros: o "trimestre zero". Promovida por influenciadores no TikTok, ela vende a ideia de que é possível preparar o corpo três meses antes da concepção para aumentar as chances de engravidar. O problema é que, além dessas práticas não terem nenhum embasamento científico, trazem riscos para as pacientes alerta Pedro Porto, ginecologista do esporte pela Universidade Federal de São Paulo.

23 jun 2026 - 12h25

Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

As rotinas compartilhadas por influenciadores no Tiktok incluem dietas restritas, exercícios físicos intensos, suplementos e outros protocolos de "detox" para facilitar a gravidez. Os influenciadores recomendam, por exemplo, banir esmaltes que teriam metais pesados na composição, tintura de cabelo, roupas e até medicamentos. Para conhecer o fenômeno mais de perto, Pedro Porto acessou algumas das contas nas redes sociais que promovem a trend e preconizam rotinas espartanas.

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"O que mais tenho visto são dietas muito restritivas, com grande redução calórica, associadas a exercícios em excesso e milimetricamente planejados. Há uma lógica de controle absoluto, como se a gestação fosse totalmente previsível e controlável", explica. "Isso é preocupante porque cria uma falsa sensação de cuidado e de melhora da fertilidade. Mas muitas dessas práticas não têm base científica, e algumas podem ser prejudiciais, como a interrupção de medicações necessárias", acrescenta o ginecologista.

"O que me chama atenção nessa tendência do TikTok são duas coisas. A primeira é o investimento crescente em radicalismo, com práticas bastante extremas. A segunda é que a medicina já estabelece que um casal jovem, sem problemas de saúde, com relações frequentes, em média quatro vezes por semana, e sem preservativo, pode levar até um ano para engravidar", explica o ginecologista brasileiro.

Segundo ele, existem, sim, mudanças no estilo de vida que devem ser adotadas antes da concepção, mas o preparo do corpo é um conceito relativo. "Mudanças nos três meses anteriores à concepção são importantes. É válido pensar sobre alguns hábitos, mas essas mudanças não fazem sentido se não forem mantidas ao longo do período que pode ser necessário para uma gestação bem-sucedida", afirma o ginecologista.

Há problemas de saúde como pré-eclâmpsia, obesidade ou diabetes gestacional que exigem monitoramento, mas a demanda pode ser simplesmente estética. Aí é que mora o perigo. Segundo Pedro Porto, a pressão pela imagem perfeita no Brasil leva algumas mulheres a tomar decisões que podem colocar em risco não só a própria saúde, mas também a do bebê.

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No consultório, o ginecologista do esporte Pedro Porto busca alertar pacientes contra a desinformação nas redes
No consultório, o ginecologista do esporte Pedro Porto busca alertar pacientes contra a desinformação nas redes
Foto: RFI

De acordo com o ginecologista, uma revisão sistemática publicada na revista Human Reproduction Update, referência na área médica, mostrou que essas medidas radicais não melhoram a saúde reprodutiva. O estudo foi feito com 7.905 mulheres.

"Entre aquelas que já tinham boa saúde e qualidade de vida, intervenções feitas nos três meses antes da tentativa de engravidar não aumentaram a fertilidade nem reduziram as taxas de abortamento. Isso indica que, para mulheres saudáveis, esses protocolos mais radicais do chamado 'trimestre zero' não apresentam benefício significativo. A ciência disponível até o momento não sustenta a ideia de que essas mudanças tragam melhora relevante nos desfechos reprodutivos", afirma o especialista.

O ginecologista brasileiro costuma atender em seu consultório pacientes que planejam manter o corpo perfeito durante a gravidez com exercícios intensos. "Uma das minhas pacientes, por exemplo, perguntou se poderia correr uma meia maratona entre as 25 e 30 semanas de gravidez. Também há gestantes muito preocupadas com o ganho de peso. Tivemos um caso de uma atleta que fazia crossfit, musculação e natação durante a gestação e precisou de intervenção não só na dieta, que era muito restritiva, como na carga de exercícios", diz. 

"Eu não costumo desencorajar atividade física. Ao contrário, geralmente incentivo, mas, nesse caso, foi necessário reduzir o treino por causa de uma restrição de crescimento fetal. Ou seja, o bebê não estava evoluindo como o esperado. Temos visto esse movimento no consultório, de encarar a gestação como situação de desempenho, no sentido esportivo do termo", afirma o médico.  

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"Pacote" de sucesso pessoal

O ginecologista explica que muitas pacientes incluem o bebê nesse "pacote" de sucesso pessoal e minimizam os riscos naturais inerentes à gestação, como os abortos espontâneos.  "O abortamento não é um evento raro, embora muitas pessoas tenham essa impressão. Ele é mais frequente do que parece, mas, por vergonha, questões psíquicas ou até por essa lógica de performance, muitas mulheres evitam falar sobre o tema. Isso faz parecer que se trata de algo incomum, quando não é." 

De acordo com ele, a principal causa de abortamento no primeiro trimestre é genética. O corpo humano está em constante evolução, e podem ocorrer alterações que não são compatíveis com a vida naquele momento, observa. "Há poucas intervenções capazes de reduzir de fato essa taxa. Muitas vezes, a paciente chega dizendo que quer 'fazer tudo' para evitar um novo abortamento, mas é importante esclarecer que existem medidas possíveis e outras que não dependem de intervenção médica", afirma. 

Outro ponto importante, ressalta, é a chamada reserva ovariana, definida ainda na vida intrauterina. Ao longo da vida, há uma perda progressiva de óvulos. Em geral, a partir dos 35 anos, observa-se uma queda mais acentuada na quantidade e na qualidade. "Isso não significa que seja impossível engravidar depois dessa idade. Isso é possível e cada vez mais comum, mas pode ser mais difícil, o que exige um acompanhamento mais cuidadoso e planejamento." 

Para o especialista, o segredo é investir na educação e na luta contra a desinformação, trabalho que ele faz durante seus atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde de São Paulo. "Desmentir as informações que circulam e explicar para as pacientes faz parte do trabalho. Gosto muito de usar analogias, porque acredito que ensinar é justamente traduzir algo complexo, como a medicina, em uma linguagem simples, que qualquer pessoa consiga entender." 

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