A Alphabet perdeu mais de US$ 500 bilhões em valor de mercado após a divulgação de que seus resumos de inteligência artificial estão canibalizando as receitas de anúncios nas buscas, gerando a maior queda diária de suas ações desde 2004. O cenário reflete o crescente ceticismo de Wall Street quanto ao retorno dos altos investimentos em IA das gigantes de tecnologia, movimento que também provocou forte desvalorização nas ações da Amazon devido a gastos elevados, enquanto a Microsoft conteve custos.
A Alphabet, empresa controladora do Google, perdeu pouco mais de US$ 500 bilhões (R$ 2,7 trilhões) em valor de mercado na quinta-feira (29/10), após revelar que seus próprios resumos de inteligência artificial (IA) — as respostas que aparecem resumidas no topo da página — estão afetando a receita de publicidade em seu mecanismo de busca.
Para dimensionar a magnitude dessa perda de valor, o montante equivale a mais da metade dos US$ 885 bilhões de valor de mercado de todas as empresas listadas na B3, a bolsa de valores de São Paulo, segundo levantamento da empresa de análise de dados financeiros Elos Ayta.
A queda de 12,64% registrada na quinta-feira foi a maior desvalorização diária das ações da companhia desde a abertura de capital do Google, em 2004.
O diretor comercial Philipp Schindler afirmou que o "modo IA" do Google, em que a plataforma responde a perguntas de forma conversacional, está reduzindo a receita obtida com anúncios exibidos ao lado dos resultados de buscas tradicionais.
No entanto, Schindler disse que se sentia "muito bem com a nossa trajetória" com a versão do mecanismo de busca focada em IA.
O papel central do Google em responder às dúvidas do mundo foi desafiado pelo boom da IA, com milhões de pessoas usando programas como ChatGPT e Claude, em lugar do buscador.
Kim Scott, ex-diretora da área de publicidade do Google, declarou ao programa Today da BBC que a empresa "prefere prejudicar a si mesma a permitir que outros a prejudiquem", ao ter seus próprios resumos de IA impactando sua receita de buscas.
Ela disse que o Google foi fundado na ideia de fazer apostas de longo prazo em tecnologia — mesmo que isso prejudique a empresa no curto prazo.
"Acho que eles estão fazendo uma aposta de longo prazo na IA", disse ela.
Em seus resultados divulgados na quarta-feira, a Alphabet revelou que a receita total cresceu 25% nos três meses até o final de setembro, em comparação com o mesmo período do ano passado, atingindo US$ 127,6 bilhões.
No entanto, a empresa não lucrou tanto quanto os analistas previam, principalmente em seu braço publicitário, o que assustou muitos investidores.
Após a divulgação dos resultados, as ações da empresa atingiram seu menor valor em seis meses.
Ao final da quinta-feira, o valor total de mercado da empresa havia caído para US$ 3,46 trilhões, ante US$ 3,97 trilhões no dia anterior.
Investidores céticos com a Amazon
A Microsoft e a Amazon também divulgaram sus balanços esta semana e se juntaram ao Google nos planos de continuar investindo grandes somas de dinheiro na corrida pela inteligência artificial.
Mas os investidores pareceram consternados com os impactos que esses planos estão tendo na capacidade de cada uma delas de continuar expandindo suas principais linhas de negócios.
As ações da Amazon sofreram um baque na quinta-feira, com uma queda de 6% nas negociações após o fechamento do mercado.
Juntamente com um crescimento trimestral de vendas de 11%, atingindo US$ 201 bilhões, a empresa divulgou um número impressionante de fluxo de caixa negativo de US$ 42 bilhões.
Esse número mostra que a Amazon não só está gastando mais dinheiro do que ganha, como também que seus gastos aumentaram seis vezes em apenas três meses.
O diretor executivo Andy Jassy afirmou que a empresa está investindo em parte porque tem a chance de passar a ter não apenas um, mas dois negócios que podem acabar gerando US$ 1 trilhão para a Amazon no futuro.
Jassy não especificou quais seriam esses dois negócios da Amazon. Mas, durante uma teleconferência com analistas financeiros, ele mencionou repetidamente a oportunidade financeira representada pela Amazon fabricando e vendendo seus próprios chips de computador, bem como sua plataforma de desenvolvimento de IA, a Bedrock, que oferece aos usuários pagantes acesso à maioria dos principais modelos e ferramentas de IA.
"Uma das lições que aprendemos ao longo de mais de 20 anos é que não existe uma única ferramenta que domine o mundo", disse Jassy.
"As pessoas sempre presumem que o que estiver na liderança no início será a única coisa que todos usarão — isso nunca é verdade."
Ao ser questionado diversas vezes sobre os gastos da empresa, Jassy admitiu que "seria mais conveniente" se eles fossem distribuídos ao longo dos próximos 25 anos. "Mas não é assim que funciona", acrescentou.
"Podemos financiar este plano, e acredito que ele mudará para sempre o tamanho, a receita e o fluxo de caixa livre da Amazon."
Microsoft levanta a questão do valor real da IA
A reação de Wall Street ao balanço da Microsoft foi mais discreta, com as ações caindo menos de 1% na quinta-feira.
A empresa, que também é uma das maiores investidoras da OpenAI, criadora do ChatGPT, gastou cerca de US$ 5 bilhões a menos em investimentos dedicados à IA.
Além disso, revelou no início da semana planos para demitir milhares de funcionários, o que reduzirá ainda mais os custos da empresa.
A receita da empresa cresceu 19% em relação ao ano anterior, atingindo US$ 92,3 bilhões no trimestre. Seu crucial negócio de computação em nuvem cresceu 30%, chegando a US$ 63 bilhões.
O diretor executivo Satya Nadella afirmou que o uso do Copilot, o chatbot e ferramenta de IA da Microsoft, viu "as tarefas automatizadas quase dobrarem desde julho", com um crescimento de 500% no número de usuários diários em relação ao ano anterior.
Normalmente, a redução de gastos e o aumento das vendas geram uma reação positiva dos investidores.
Tracy Woo, analista sênior da consultoria Forrester, afirmou que Wall Street está tentando olhar mais para o futuro quando se trata de quais empresas realmente cumprirão suas grandes promessas em relação à IA.
"Os resultados da Microsoft reforçam a ideia de que a demanda corporativa por IA permanece forte, mas também destacam uma questão muito maior que o setor de tecnologia enfrenta: onde o valor da IA será, em última análise, capturado", disse Woo.