Com aumento do calor, Escócia enfrenta proliferação de mosquito que transmite o vírus Usutu

O aumento das temperaturas favorece a presença do mosquito Culex pipiens na Escócia, responsável pela introdução no país do vírus Usutu, identificado pela primeira vez em abril e até então restrito ao sul da Europa. Transmitido por esses insetos, o vírus tropical já provoca mortes em massa de aves na ilha de Arran. Segundo cientistas da Universidade de Glasgow, a proliferação dos mosquitos está diretamente ligada às mudanças climáticas.

18 jun 2026 - 09h20

"Se você me perguntasse há dez anos qual era o risco de ver surgir uma doença transmitida por mosquitos na Escócia, eu teria dito que jamais veria isso em minha vida. Mas as mudanças climáticas aceleraram consideravelmente o ritmo dessas transformações", afirmou Heather Ferguson, professora de entomologia médica e ecologia de doenças, com foco em mosquitos vetores e transmissão de vírus, na Universidade de Glasgow.

O mosquito O Culex pipiens, responsável pela chegada à Escócia do vírus Usutu, que está matando aves na ilha de Arran.
O mosquito O Culex pipiens, responsável pela chegada à Escócia do vírus Usutu, que está matando aves na ilha de Arran.
Foto: AFP - MARTIN LELIEVRE / RFI

No verão de 2025, entre os meses de junho e setembro, moradores da ilha de Arran passaram a observar melros - aves europeias semelhantes aos sabiás - com "sintomas estranhos". Eles estavam debilitados, desorientados, "com o pescoço torto" e pareciam incapazes de se alimentar, morrendo pouco tempo depois. Uma veterinária local enviou os corpos para análise. Os exames mostraram que as aves foram vítimas do vírus Usutu, transmitido por picadas de mosquitos. 

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Detectado pela primeira vez em 1959 na Suazilândia (atual Essuatíni), próximo a um rio com o mesmo nome, o Usutu circula na Europa desde os anos 2000, mas nunca havia sido encontrado no norte do continente. "Não achávamos que isso fosse possível, porque as condições climáticas ainda eram frias demais", explica Ferguson. 

O Culex pipiens prolifera em temperaturas próximas de 25°C. Com o aquecimento global, essas temperaturas, que antes eram raras no Reino Unido, tornaram-se frequentes. Em 2025, o país registrou seu ano mais quente da história, com um recorde local de 32,2°C em julho, em Aviemore, nas Highlands. 

A chegada do vírus é "um sinal de alerta: o risco está se aproximando de nós. Precisamos nos preparar", afirma a cientista. Por enquanto, o risco de transmissão do Usutu para humanos se limita a 235 casos, segundo um estudo publicado no fim de 2024 na revista Viruses

Mas, "em outras regiões da Europa continental", diz a pesquisadora, "o Usutu é o primeiro sinal de doenças mais graves", como o vírus do Nilo Ocidental, que pode afetar humanos. Ele foi detectado pela primeira vez em mosquitos britânicos em maio de 2025. Pesquisadores de Glasgow já realizam uma série de testes em laboratório para estudar os mecanismos de transmissão de vírus por mosquitos para animais e também para humanos. 

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Calor favorece transmissão de vírus

A primeira conclusão dos cientistas é que temperaturas mais altas favorecem a proliferação de mosquitos e sua capacidade de transmitir vírus. "Em clima frio, os mosquitos não transmitem doenças porque a temperatura é insuficiente para que o vírus sobreviva dentro deles. Assim, a transmissão é impossível.

Existe um equilíbrio entre a temperatura em que os mosquitos conseguem sobreviver e aquela que o vírus prefere, além de uma interação entre esses dois fatores", explica Émilie Pondeville, pesquisadora do centro de pesquisa de vírus da Universidade de Glasgow. 

Por enquanto, o que mais preocupa os biólogos é o impacto dos vírus transmitidos por mosquitos sobre certas aves. O Usutu já dizimou populações de melros, especialmente na Áustria, em 2001, e no leste europeu, em 2018. O vírus também afeta corujas e aves de rapina.  A longo prazo, a multiplicação dos mosquitos pode levar à extinção de várias espécies de aves, temem especialistas. 

No Havaí, a chegada do Culex quinquefasciatus, um parente tropical do Culex pipiens e transmissor da malária aviária, já provocou o desaparecimento de várias espécies, como o po'ouli, pequeno pássaro cantor da ilha de Maui. 

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Outras espécies, como o akikiki ou o emblemático i'iwi, de plumagem vermelha brilhante, parcialmente dizimadas, tentaram se refugiar em áreas de maior altitude. Mas, com o aquecimento global, o mosquito e seus agentes patogênicos estão se expandindo para altitudes acima de 1.500 metros. 

Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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