O peso da retirada dos EUA dos pactos climáticos

13 jan 2026 - 11h50

Falta de apoio de Washington dificulta cooperação para enfrentar crise climática - mas Casa Branca está isolada, e novas alianças e investimentos mantêm expansão de energias renováveis."Um novo patamar de retrocesso". Assim descreveu a organização sem fins lucrativos americana Union of Concerned Scientists (UCS) sobre o plano de Donald Trump de retirar o país de 66 organizações, convenções e tratados internacionais, sob a alegação de que eles não atendem mais aos interesses dos Estados Unidos.

Além de cortar financiamento e vínculos com iniciativas para a defesa da democracia e dos direitos humanos, como o Fundo das Nações Unidas para a Democracia, a ONU Mulheres e o Fórum Global sobre Migração e Desenvolvimento, há um claro tom contra a defesa do meio ambiente e o enfrentamento das mudanças climáticas na mais recente medida da Casa Branca.

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Entre as entidades ambientais na lista estão a União Internacional para a Conservação da Natureza, a Agência Internacional de Energia Renovável e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Também figura a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), sediada na cidade alemã de Bonn e responsável pela organização das conferências climáticas anuais da ONU.

Em 2015, os países signatários dessa convenção aprovaram o Acordo de Paris, comprometendo-se a evitar o aquecimento descontrolado do planeta. Trump, que nunca escondeu seu apoio à indústria do petróleo e já chamou as mudanças climáticas de "farsa", anunciou seus planos de sair do acordo logo após assumir o segundo mandato.

Em comunicado divulgado após o anúncio da Casa Branca na quarta-feira, Rachel Cleetus, diretora de políticas e economista-chefe do Programa de Clima e Energia da UCS, afirmou que a saída dos EUA da UNFCCC é "mais um sinal de que esta administração autoritária e anticiência está determinada a sacrificar o bem-estar das pessoas e desestabilizar a cooperação global".

Impactos e reações internacionais

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Petter Lydén, co-diretor da divisão de política climática internacional da ONG ambiental Germanwatch, disse que a medida é ruim tanto pela perda do financiamento vindo dos EUA quanto pelo fato de que "chegar a um consenso sobre cooperação internacional para enfrentar a crise climática se torna muito mais difícil quando um país tão grande está ausente das negociações".

Em resposta ao anúncio, o chefe de política climática da União Europeia, Wopke Hoekstra, escreveu no LinkedIn que a UNFCCC "sustenta a ação climática global", acrescentando que a decisão de "recuar é lamentável e infeliz".

Ele garantiu que a Europa "continuará apoiando de forma inequívoca a pesquisa climática internacional, base do nosso entendimento e trabalho".

O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, afirmou que a decisão "não foi surpresa". Referindo-se à conferência climática da ONU realizada em Belém no fim do ano passado, disse que estava claro que os EUA estavam isolados em sua posição sobre proteção climática.

Ele citou "numerosas novas alianças" em mercados internacionais de carbono, aceleração da eliminação dos combustíveis fósseis e até combate às fake news sobre questões climáticas como prova de que outros países estão comprometidos com a ação.

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Lydén ressaltou que a direção tomada pelos EUA não muda o fato de que a transição para um futuro de baixo carbono está em curso. "A expansão das energias renováveis vai continuar", afirmou, acrescentando que países que adotam soluções climáticas estão colhendo benefícios econômicos.

Ação climática nos EUA prejudicada?

A mais recente jogada de Trump foi duramente criticada por líderes climáticos americanos.

Gina McCarthy, primeira conselheira nacional de clima da Casa Branca sob o governo Biden e atual presidente da coalizão America Is All In (AIAI), classificou a saída da UNFCCC como "uma decisão míope, vergonhosa e tola".

Segundo ela, isso significa abrir mão da "capacidade de influenciar trilhões de dólares em investimentos, políticas e decisões que poderiam impulsionar nossa economia e nos proteger de desastres caros que assolam o país".

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McCarthy acrescentou que a coalizão AIAI, que reúne governos locais, estados, empresas, universidades e outros atores, continuará comprometida com a colaboração internacional para cumprir as metas do Acordo de Paris.

Lydén, da Germanwatch, acredita que seria difícil para a Califórnia ou outros estados preencherem totalmente a lacuna deixada por um governo federal ausente. No entanto, disse que há muito acontecendo além das "decisões formais", onde "níveis locais e regionais podem até ter mais protagonismo que o federal".

McCarthy afirmou que a AIAI ampliará seus esforços "para trabalhar no nível local e construir esperança e oportunidades", e não permitirá que esta administração negue aos americanos os "enormes benefícios de saúde, segurança e economia que a energia limpa proporciona".

Rachel Cleetus também destacou que estados americanos com visão de futuro e o restante do mundo entendem a ameaça crescente das mudanças climáticas e reconhecem que "a ação global coletiva continua sendo o único caminho viável para garantir um futuro habitável para nossos filhos e netos".

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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