Indígenas da Amazônia se preparam para o El Niño

19 out 2026 - 17h42
Resumo
Diante da intensificação do El Niño e do risco de secas severas na Amazônia, comunidades indígenas mobilizam brigadas locais, adotam o Manejo Integrado do Fogo e criam planos de adaptação para evitar tragédias como as de 2023 e 2024. A atuação foca no combate a incêndios florestais e na segurança alimentar e hídrica dos territórios, enquanto órgãos federais articulam ações emergenciais e de assistência às aldeias mais afetadas.

Após o desastre provocado pela seca de 2023 e 2024, comunidades reforçam brigadas e medidas de prevenção para enfrentar mais uma temporada de calor extremo e queimadas na região.O fogo avançava pela aldeia Muruary, em Santarém (PA), região do Baixo Tapajós, na virada de 2015 para 2016. Liderados pela cacica Hélia Kumaruara, os indígenas tentavam combater as chamas, mas até o igarapé, fonte de água da comunidade, havia secado. "O fogo acabou com toda a aldeia: as casas, as casas de farinha, os roçados. Perdemos tudo", lembrou Tainan Kumaruara, 38 anos, filha da cacica.

Após a devastação provocada pelo fogo em episódios anteriores, Baixo Tapajós passou a investir em prevenção e manejo integrado
Após a devastação provocada pelo fogo em episódios anteriores, Baixo Tapajós passou a investir em prevenção e manejo integrado
Foto: DW / Deutsche Welle

Há uma semelhança entre aquele período e o atual: um poderoso El Niño, fenômeno que pode agravar a seca e os incêndios florestais na Amazônia. "Estamos um pouco aflitos. Mas temos trabalhado para estar mais preparados, com menos falta de água e incêndios florestais. Principalmente garantindo a segurança alimentar das famílias", avaliou Tainan, coordenadora da Brigada Guardiões Kumaruara e conselheira da Rede de Brigadas do Baixo Tapajós.

Publicidade

Na segunda semana de outubro, os brigadistas precisaram entrar em ação para combater o fogo na região. Os incêndios, segundo Tainan, ocorriam fora da Resex Tapajós-Arapiuns, unidade de conservação sobreposta parcialmente às terras indígenas. "Estamos combatendo pelo compromisso que temos com a causa. E também para que esse fogo não entre na Resex", explicou Tainan, em entrevista à DW.

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) está atenta ao fenômeno e criou um plano de adaptação para lidar com os efeitos do El Niño e dos eventos climáticos extremos. "O último ciclo de El Niño, de 2023 e 2024, marcou a memória das pessoas", lembrou Ruan Guajajara, técnico da Gerência de Monitoramento Territorial Indígena da Coiab.

"Desde 2023, quando foi criada a gerência de monitoramento, percebemos uma diversidade de territórios em áreas de seca extrema, com grande dificuldade de mobilidade, logística, comunidades presas, sem acesso à água potável, alimento e remédio. A gente viu um quadro bem preocupante", contou Guajajara.

Situação pode se agravar

Publicidade

Embora a situação não seja tão crítica como em 2023 e 2024, a seca na Amazônia vem se intensificando nos últimos meses, segundo a pesquisadora especializada em secas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Ana Paula Cunha. Desde julho, o fenômeno tem se agravado, principalmente no norte da região, atingindo os estados de Roraima, Amapá e norte do Amazonas.

O quadro, no entanto, pode piorar ainda mais. Como o El Niño ainda está se intensificando e deve durar até março ou abril, a previsão é de chuvas abaixo da média nos próximos meses, prejudicando a fase em que os rios deveriam encher nas principais bacias da Amazônia. Esse cenário pode comprometer a disponibilidade de água e intensificar a estiagem em 2027.

O El Niño foi um fator importante para o desastre provocado pela seca na Amazônia em 2023 e 2024, quando os níveis de muitos rios atingiram os menores patamares já registrados. Mas o fenômeno não foi o único responsável. O aquecimento do Oceano Atlântico também contribuiu para agravar a estiagem.

"Às vezes, a gente foca muito no El Niño. Só que são os dois juntos que realmente causam um grande desastre, em termos de déficit de chuvas e secas. Por isso é importante acompanhar também a situação do Oceano Atlântico", ponderou Cunha. Por enquanto, o Atlântico permanece sem aquecimento anômalo, mas segue sob monitoramento.

Publicidade

Com o avanço da seca e do calor, aumenta a probabilidade de incêndios florestais. No Amazonas, o governo federal já reconheceu situação de emergência em 36 municípios. Desde setembro, a fumaça tem sufocado habitantes de diversas cidades, como a capital, Manaus.

Segundo dados do BDQueimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), até meados de outubro foram registrados cerca de 39 mil focos de calor na Amazônia, ante 24 mil no mesmo período de 2025. Os números, porém, são inferiores aos do ciclo anterior do El Niño, quando foram registrados cerca de 69 mil focos em 2023 e 112 mil em 2024 no mesmo período.

Virada de chave

Após os incêndios que devastaram a aldeia Muruary entre 2015 e 2016, sob os efeitos do El Niño, a comunidade "virou a chave", conforme conta Tainan Kumaruara. "Com toda a dor que a gente vivenciou, a gente disse, a minha mãe disse, não podemos trabalhar apenas com regeneração e reflorestamento, precisamos ter uma ferramenta para combater e controlar incêndios."

Assim surgiu a Brigada Guardiões Kumaruara, que integra a Rede de Brigadas do Baixo Tapajós. A atuação é baseada no Manejo Integrado do Fogo (MIF), conjunto de práticas que se tornou política pública em 2024. Muitas das técnicas, inclusive, são inspiradas nos conhecimentos das comunidades tradicionais, como indígenas e ribeirinhos.

Publicidade

Como o fogo é importante para essas populações, seja na realização de rituais ou na limpeza dos roçados, foi preciso se adaptar. Por meio de ações de educação ambiental e conscientização, a brigada ensina, por exemplo, sobre a melhor época e horário para usar o fogo. Também faz queimas controladas e acompanha comunidades que usam o fogo nos roçados.

Com o avanço do fogo neste mês, enquanto as equipes atuam na linha de frente, Tainan coordena a estrutura de apoio e suprimentos. "Fico na parte da logística: fazendo ligações, conseguindo insumos, combustível e organizando o transporte dos brigadistas", detalha.

Às vezes, ela sente uma certa impotência diante dos incêndios que se repetem, mesmo que o fogo não tenha atingido sua aldeia. "Trabalhamos o ano todo para que as pessoas possam se conscientizar e amenizar esses incêndios neste período. E, mesmo que sejam em áreas em que não atuamos diretamente, conseguimos levar um pouquinho das informações até elas por meio das redes sociais e de grupos de WhatsApp."

Plano de adaptação indígena

O que precisa ser feito antes da seca? O que fazer em caso de incêndio, falta de água ou isolamento? Essas são algumas perguntas que norteiam a preparação dos indígenas, segundo o Plano de Adaptação e Estratégia dos Territórios Indígenas da Amazônia Brasileira para o El Niño e Eventos Climáticos Extremos, organizado pela Coiab.

Publicidade

"Os cenários atualmente disponíveis indicam potencial de ocorrência de secas severas, redução dos níveis dos rios e igarapés, comprometimento da navegabilidade e da mobilidade, aumento dos focos de calor, maior pressão sobre os recursos hídricos e impactos sobre a produção de alimentos, a saúde comunitária e a proteção territorial", diz um trecho do plano.

A partir do plano, a Coiab organizou uma cartilha para levar as informações até as comunidades. "A gente pensou: precisamos traduzir essas informações para que elas circulem pelas comunidades, mobilizem as pessoas e permitam ações efetivas de proteção. Traduzimos tudo isso em um material mobilizador, uma cartilha, muito utilizada nas metodologias da educação popular", explicou Ruan Guajajara.

Mesmo considerando as diferenças em cada território, a cartilha reúne informações que podem ser aplicadas em todas as áreas. Sugere formas de organizar a comunidade, proteger a água, garantir alimentos e medicamentos, preparar o território e planejar a logística.

A Coiab salienta que a preocupação não se deve só ao El Niño. A situação é agravada pelas mudanças climáticas e por ações que prejudicam seus territórios, como desmatamento, garimpo e degradação ambiental.

Publicidade

Os indígenas também projetam um cenário desafiador para 2027, de acordo com Guajajara. "Agora é só o primeiro ano do ciclo. O segundo pode vir com tudo. O ano de 2023 foi ruim, quebrou recordes. Nós achamos que parou ali. Mas em 2024 quebrou os recordes anteriores. Os povos indígenas conseguiram perceber isso."

O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) informou que, junto com outros órgãos federais, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), está atuando na preparação de medidas de prevenção e resposta.

"Entre as ações em preparação estão a atualização de informações sobre aldeias, rotas de acesso e condições de navegabilidade; o planejamento do abastecimento emergencial de água e da distribuição de alimentos e outros insumos; a elaboração e atualização de protocolos de resposta rápida e planos de contingência; e o fortalecimento das brigadas indígenas e das ações de Manejo Integrado do Fogo", informou o ministério.

Segundo o MPI, estão sendo realizadas entregas de cestas de alimentos aos povos indígenas, por meio da atuação articulada da Funai com órgãos parceiros, como o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). "Essas ações podem ser reforçadas ou ampliadas conforme a evolução dos impactos do El Niño e as necessidades identificadas nos territórios."

Publicidade

"Ser brigadista é algo revolucionário"

Ao mesmo tempo em que sente uma certa impotência pelo avanço do fogo na sua região, Tainan Kumaruara entende seu trabalho voluntário como fundamental. "Para mim, ser brigadista é algo revolucionário. Porque a gente faz, a gente chega nos lugares onde os órgãos que deveriam estar não estão."

Sua mãe, que liderou os Kumaruara nos incêndios de 2015 e 2016, faleceu em fevereiro. Hoje, os dois filhos de Tainan, Taís, de 14, e Emerson, de 12, seguem seus passos. O menino integra uma brigada mirim, que acompanha os adultos nas atividades de prevenção e educação ambiental. "Quando eu olho para eles, tenho um sentimento de estar conseguindo realizar a minha missão. Ensinar que precisamos cuidar da mãe terra para que eles tenham um futuro."

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações