Guerra no Irã ameaça deixar legado tóxico no meio ambiente

13 mar 2026 - 17h20

De refinarias em chamas a navios afundados. Repercussões duradouras devem afetar saúde da população local, o abastecimento de água e alimentos e os ecossistemas da região.Os ataques a instalações petrolíferas e bases de mísseis na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã estão despertando preocupações entre especialistas sobre um legado tóxico para a saúde humana e o meio ambiente que pode persistir muito depois do fim dos combates.

Explosões em instalações petrolíferas causam nuvens de fumaça tóxica e chuva negra no Irã
Explosões em instalações petrolíferas causam nuvens de fumaça tóxica e chuva negra no Irã
Foto: DW / Deutsche Welle

Desde o início do conflito, a ONG britânica Conflict and Environment Observatory (CEOBS) identificou mais de 300 incidentes com potencial de causar danos ambientais - desde ataques a bases de mísseis até ofensivas contra petroleiros no Golfo Pérsico.

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Mas os pesquisadores afirmam que esse número provavelmente representa apenas uma fração do dano real. "Isso é só a ponta do iceberg", afirma o diretor da CEOBS, Doug Weir. "Só os Estados Unidos afirmam que atingiram 5 mil alvos".

As Nações Unidas também alertaram que ataques recentes a instalações petrolíferas podem gerar "consequências ambientais graves em toda a região, com potenciais impactos imediatos sobre a água potável, o ar que as pessoas respiram e os alimentos."

Um sinal desses riscos surgiu quando uma "chuva negra" - mistura de óleo com precipitação - cobriu as ruas de Teerã após ataques israelenses no fim de semana contra várias instalações petrolíferas.

Incêndios nas instalações lançaram uma espessa fumaça negra sobre a capital, onde vivem quase 10 milhões de pessoas, levando o Crescente Vermelho do Irã a alertar os moradores para permanecerem em casa a fim de evitar poluentes tóxicos no ar. Alguns moradores relataram dores de cabeça e dificuldade para respirar.

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Segundo Zongbo Shi, professor de biogeoquímica atmosférica da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, a fumaça provavelmente continha poluentes como "material particulado fino e dióxido de enxofre, além de compostos orgânicos voláteis tóxicos e outros subprodutos perigosos da combustão". Essas partículas podem penetrar profundamente nos pulmões e estão associadas a riscos maiores de doenças respiratórias e cardiovasculares, especialmente entre bebês, idosos e pessoas com problemas de saúde pré-existentes, de acordo com Shi.

Legado tóxico duradouro

Além da poluição imediata do ar, especialistas alertam que ataques a instalações militares e de energia podem deixar uma contaminação que persiste no ambiente por anos.

Quando instalações de petróleo são bombardeadas - como ocorreu no Irã e em outros países do Golfo -, elas podem liberar nuvens de poluentes tóxicos que se espalham pelas comunidades próximas e se acumulam em estradas, telhados, solos e áreas agrícolas, segundo a CEOBS.

Ataques a locais militares como bases de mísseis também são extremamente perigosos, pois incêndios e explosões liberam contaminantes tóxicos como combustíveis, metais pesados, PFAS (chamados de químicos eternos) e explosivos. Alguns desses compostos podem permanecer por muito tempo após o fim das hostilidades.

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Por exemplo, o TNT - usado em munições e classificado como possível carcinógeno humano pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) - pode permanecer no solo, prejudicando a vegetação e a saúde humana.

No entanto, avaliar a escala da contaminação é difícil sem testes presenciais. "Temos pouquíssima transparência ou certeza sobre o que existe nesses locais atingidos", sublinha Weir. "Sabemos, em termos gerais, que podem conter materiais militares, alguns deles tóxicos, como propelentes e combustíveis para mísseis, mas realmente não temos detalhes ou dados concretos sobre o que havia ali e o que foi destruído."

A equipe de Weir só pode usar imagens de satélite, mapas de danos por radar, redes sociais e notícias para avaliar os riscos ambientais à distância.

Ecossistemas marinhos em risco

Os ataques dos EUA e Israel contra a marinha iraniana, assim como ataques do Irã a navios que tentam atravessar o Estreito de Ormuz, também aumentam o risco de derramamentos de óleo.

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O Golfo Pérsico abriga recifes extensos e ecossistemas marinhos importantes, como campos de ervas marinhas que servem de habitat para peixes, ostras perlíferas, tartarugas-verdes e a segunda maior população mundial de dugongos - espécie ameaçada de extinção. Comunidades pesqueiras também dependem do mar para sustento.

"Essa é uma dimensão que raramente vemos na maioria dos conflitos", frisa Weir. "Também vimos vários locais costeiros atacados por Israel, onde há grande probabilidade de poluentes atingirem o ambiente costeiro."

Os EUA afirmaram nesta quarta-feira que atingiram mais de 60 navios iranianos durante os combates.

Navios afundados podem se tornar fontes prolongadas de poluição se combustível e outros materiais perigosos vazarem para a água, afirma Weir. Ele acrescenta que uma fragata iraniana torpedeada durante o conflito está agora vazando uma longa mancha de óleo ao largo do Sri Lanka. "Não é apenas o Golfo Pérsico que está em risco", observa Weir. "Esses impactos ambientais já chegaram ao Sri Lanka."

Imensa pegada de CO₂

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Outra forma de os impactos ambientais se espalharem além das zonas de conflito são as enormes emissões de carbono geradas pelas operações militares.

Os três primeiros anos da guerra da Rússia na Ucrânia, por exemplo, produziram ao menos 230 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo a ONG Initiative on GHG Accounting of War. Isso equivale às emissões anuais combinadas de Hungria, Áustria, República Tcheca e Eslováquia.

As forças armadas são grandes consumidoras de combustíveis fósseis. Se os militares do mundo fossem um país, teriam a quarta maior pegada de carbono do planeta, representando cerca de 5,5% das emissões globais. Mesmo assim, os países não são obrigados a incluir emissões militares nos totais nacionais que reportam como parte do Acordo de Paris.

Recuperação após a guerra

O Irã já enfrentava pressões ambientais severas, como escassez crônica de água, poluição atmosférica crescente e degradação de grandes ecossistemas - problemas agravados pelas mudanças climáticas e pela má gestão estatal.

A guerra está intensificando esses desafios. Conflitos costumam ser seguidos de governança frágil, com a proteção ambiental perdendo prioridade nas transições do conflito para a paz, observou Weir. Ele acredita que esse também será o caso no Irã, um país que, segundo ele, "tem sido historicamente muito fechado e pouco transparente sobre o meio ambiente e sua degradação".

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Se o regime iraniano permanecer no poder, segundo Weir não está claro se irá reconhecer a necessidade de limpeza ambiental, nem quanto apoio obterá da comunidade internacional nesse caso. "Estamos vendo muitos danos ambientais, mas também uma alta probabilidade de que teremos pouquíssima transparência no futuro e capacidade muito limitada para limpar ou gerenciar os danos causados."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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