Para o neurocientista David Eagleman, o segredo para manter seu cérebro jovem é ser um eterno aprendiz, evitando dogmas e aproveitando oportunidades de fazer coisas novas para que o órgão nunca para de se reconfigurar.
Segundo o especialista, que foi um dos destaques do Rio Innovation Week, o conselho mais importante é evitar o caminho de menor resistência, que é o que o cérebro tende a tomar sempre por ser extremamente eficiente. Ele diz que isso pode nos tornar uma espécie de zumbi inconsciente, por fazer as coisas sempre de maneira automática.
A solução apontada para isso é tomar medidas simples que quebram esse padrão, como trocar o relógio do pulso esquerdo para o direito, escovar os dentes com a sua mão que não é dominante ou trocar o caminho que usa para ir do trabalho para casa. Eagleman diz que ao vermos coisas novas e prestar atenção ao mundo ao nosso redor, exercitamos o cérebro e isso pode até mesmo alterar a nossa percepção de passagem do tempo, fazendo a vida parecer mais longa.
"Leonardo da Vinci era famoso por questionar tudo o que estava ao seu redor, mas também questionava tudo o que vinha de dentro. Ou seja, sempre que lhe ocorria uma primeira ideia sobre algo, ele dizia: 'Não vou ficar com a primeira ideia'. Ele pensava em uma segunda. 'Certo, agora vou considerar a terceira', e assim por diante. Ele chegava a ter pelo menos sete ou oito ideias para qualquer coisa que tentasse resolver. É isso que você precisa fazer para manter o cérebro saudável", afirma.
Eagleman diz que, ao aprender coisas novas e manter-se socialmente engajado, o cérebro constrói 'novas pontes' neurais que protegem o seu funcionamento mesmo se houver degeneração física, como ocorre na doença de Alzheimer. Ele cita, por exemplo, que aprender a tocar um novo instrumento musical ou desenvolver uma nova habilidade causa mudanças físicas visíveis no cérebro, expandindo as áreas dedicadas a essas tarefas.
O especialista aponta também a importância de manter engajamento social e ambiental no dia a dia. Eagleman cita que experimentos feitos com ratos mostraram que ambientes "enriquecidos" (com outros indivíduos e objetos para interagir) resultam em neurônios maiores e com mais conexões do que ambientes isolados. Para humanos, ele diz que o toque, o amor e a interação social são essenciais para o desenvolvimento e manutenção de um cérebro saudável.
Em uma conversa no palco do Rio Innovation Week com o físico e astrônomo Marcelo Gleiser, vencedor do prêmio científico Templeton, Eagleman desmistificou algumas crenças comuns sobre o cérebro humano.
Ele explica que o cérebro das crianças possui inteligência fluida, sendo extremamente plástico porque elas precisam aprender tudo sobre o mundo, enquanto os adultos possuem inteligência cristalizada, com modelos internos já formados e, portanto, menos flexíveis. Ou seja, o cérebro jovem é mais plástico por ainda estar se formando e se adaptando ao mundo ao redor. Ele também destaca que o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e pela avaliação de consequências, só termina de se desenvolver por volta dos 25 anos, o que explica por que os jovens podem tomar decisões arriscadas.
O neurocientista também tem uma visão positiva sobre a IA, comparando-a à invenção da prensa móvel por Gutenberg. Eagleman acredita que a IA ajudará a resolver problemas científicos complexos (mencionando a resolução de problemas matemáticos de 80 anos em segundos) e que até relacionamentos com IAs podem ser benéficos, servindo como uma espécie de treinamento para as pessoas aprenderem a lidar melhor com colegas de trabalho.
"Sabemos agora que a disseminação de informações nos tornou melhores e mais inteligentes. E é exatamente isso que acontecerá com a IA. Temos uma oportunidade real de elevar nossa civilização a um novo patamar", afirma.
Eagleman também revelou o lançamento de uma empresa chamada Jojo, que desenvolveu um chatbot que atua como um acompanhante para idosos que vivem sozinhos. Além de oferecer companhia, esse robô realiza monitoramento médico silencioso através da voz, sendo capaz de detectar sinais de declínio cognitivo ou derrames muito antes de diagnósticos clínicos tradicionais, enviando alertas para contatos de emergência.
Fundada em junho de 2025, a startup atua na interseção de neurotecnologia, IA e geriatria, com o principal objetivo sendo o monitoramento proativo da saúde cognitiva de idosos. Atualmente, o projeto está em fase de testes públicos e é possível fazer cadastro no site para solicitar acesso antecipado (em inglês).