Área queimada na Europa poderá triplicar até o fim do século

20 ago 2026 - 16h27
Resumo
Segundo estudo do Instituto Potsdam, a área devastada por incêndios na Europa pode crescer até 192% até o fim do século em um cenário de altas emissões. O calor extremo e a seca já ampliam o fogo para regiões atípicas e áreas úmidas. Especialistas alertam que, embora investimentos em prevenção e combate florestal sejam cruciais para mitigar prejuízos, o controle a longo prazo depende obrigatoriamente de uma redução drástica no aquecimento global para evitar limites incontroláveis.

Estudo alerta que a área devastada por incêndios florestais no continente pode aumentar até 192% se as emissões de gases de efeito estufa continuarem elevadas. Mesmo com proteção climática, área poderia aumentar 39%.Espanha, França, Portugal, Itália, Grécia, além de Irlanda, Reino Unido, Noruega e Alemanha: é longa a lista de países europeus afetados por incêndios florestais especialmente severos.

Combate ao fogo em Hohes Venn, na Bélgica. Incêndios em turfeiras podem ficar em brasa no subsolo por meses
Combate ao fogo em Hohes Venn, na Bélgica. Incêndios em turfeiras podem ficar em brasa no subsolo por meses
Foto: DW / Deutsche Welle

O calor extremo e a seca prolongada aumentaram durante semanas o risco de incêndios. Mais de 6 mil quilômetros quadrados de florestas já foram consumidos pelas chamas e centenas de milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas. No início de agosto, os prejuízos já eram estimados em 15 bilhões de euros (R$91 bilhões).

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E o risco de incêndios florestais na Europa continuará aumentando nos próximos anos, segundo um estudo publicado nesta quinta-feira (20/08) pelo Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático (PIK).

Áreas afetadas podem triplicar

Uma das conclusões do estudo é que, mesmo com uma proteção climática significativamente maior, até o fim do século, a área queimada anualmente na Europa poderá ser cerca de 39% maior que a média atual em um cenário de baixas emissões. Em um cenário de altas emissões, o aumento poderá chegar a 192%.

"Se emitirmos mais gases de efeito estufa e as temperaturas globais aumentarem cerca de 3,6 °C, os incêndios ocorrerão com muito mais frequência, especialmente na região do Mediterrâneo e em amplas áreas da Europa Ocidental e Central, incluindo regiões onde até agora quase não havia incêndios", afirma Maik Billing, pesquisador do PIK e principal autor do estudo publicado na revista científica Global Change Biology.

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Aa comunidade internacional concordou em limitar o aquecimento global a 1,5 °C ou, no máximo, a um nível abaixo de 2 °Cem comparação aos níveis pré-industriais. No entanto, os países ainda estão muito atrasados em suas ações de combate às mudanças climáticas.

Enquanto isso, os efeitos do aquecimento global tornam-se cada vez mais evidentes. Neste verão europeu de calor extremo, até o início de agosto, a área queimada na Europa já era o dobro da registrada nos últimos anos, segundo os autores.

Contudo, a população não está completamente à mercê das chamas. Altos investimentos estão sendo feitos.

"Estamos observando um aumento das condições favoráveis aos incêndios, portanto precisamos investir mais", afirma Thomas Hickler, pesquisador da Sociedade Senckenberg para Pesquisa da Natureza, que participou do estudo.

Segundo Hickler, a gestão adequada dos incêndios florestais, melhor treinamento e equipamentos para as equipes de emergência, além de uma boa coordenação entre o setor florestal, órgãos de conservação ambiental e bombeiros, podem "fazer uma diferença significativa".

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A União Europeia deve destinar cerca de 2,1 bilhões de euros (R$ 12,7 bilhões) entre 2021 e 2027 para a gestão florestal e de incêndios nos países membros. O Banco Mundial garante que a cada euro investido em prevenção, podem ser economizados até sete euros em combate a incêndios e reconstrução.

Condições extremas aumentam risco

Se as emissões de gases de efeito estufa forem reduzidas rapidamente e o aquecimento global for drasticamente limitado, áreas queimadas poderão ser reduzidas em até 90% no futuro, por meio de uma gestão eficaz do fogo.

Mesmo assim, o estudo conclui que um esforço climático muito maior é inevitável para controlar os incêndios florestais a longo prazo. "Com as mudanças climáticas, as condições podem se tornar tão extremas que chegaremos aos limites do que é possível fazer para prevenir e combater incêndios quando eles atingirem determinado tamanho", afirma Kirsten Thonicke, pesquisadora do PIK e coautora do estudo.

Há dias, incêndios também atingem o oeste da Alemanha e a Bélgica.

Na área florestal e de pântanos transfronteiriça chamada Hohes Venn, localizada entre a região de Eifel, na Alemanha, e as Ardenas, na Bélgica, cerca de 3 mil hectares de vegetação foram consumidos pelas chamas nos últimos dias. Trata-se do maior incêndio florestal registrado na Bélgica em décadas.

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Por que áreas úmidas também podem queimar

Áreas úmidas, como pântanos e turfeiras, normalmente parecem menos sucetíveis a incêndios. Porém, quando secam durante períodos de estiagem, como ocorre atualmente no Hohes Venn, podem queimar por muito mais tempo.

Isso acontece devido aos solos de turfa presentes nessas áreas, formados por restos vegetais acumulados ao longo do tempo. Quando seca, a turfa é extremamente inflamável, razão pela qual foi utilizada durante séculos como fonte de energia para aquecimento e cozimento.

Quando extensas áreas de turfeiras, com vários metros de espessura, entram em combustão, o carbono armazenado durante milhares de anos é liberado em pouco tempo. Embora as áreas úmidas cubram apenas 3% da superfície terrestre, elas armazenam cerca de 30% de todo o CO₂ retido nos solos do planeta.

Nos incêndios florestais convencionais, geralmente observam-se grandes chamas. Já os incêndios em turfeiras queimam lentamente sob a superfície do solo. A temperatura é relativamente baixa, produz-se muita fumaça e as chamas costumam ser pouco visíveis. No entanto, esses incêndios são extremamente difíceis de extinguir.

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Incêndios subterrâneos podem durar meses e até continuar ativos durante todo o inverno.

Além disso, grandes quantidades de poluentes são liberadas no ambiente. Além das partículas de fumaça, substâncias tóxicas são emitidas, incluindo metais pesados nocivos à saúde, como o mercúrio.

O exemplo de Indonésia, Canadá e Sibéria

A dimensão que esse fogo pode atingir ficou evidente nos últimos anos com gigantescos incêndios em turfeiras no Canadá e na Sibéria.

Um incêndio em turfeiras ocorrido na Indonésia em 1997, que atingiu aproximadamente 100 mil quilômetros quadrados, foi considerado uma das maiores catástrofes ambientais do século 20.

Na época, cientistas estimaram, em estudo publicado pela revista Nature, que esse único incêndio foi responsável por liberar entre 13% e 40% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa registradas em 1997.

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Na Indonésia e nos países vizinhos, mais de 200 mil pessoas foram hospitalizadas com problemas agudos de saúde. As autoridades temem consequências de longo prazo para mais de 70 milhões de pessoas em seis países.

Como consequência direta desse e de outros incêndios, diversos países do Sudeste Asiático aprovaram poucos anos depois o Acordo sobre Poluição Atmosférica Transfronteiriça por Névoa (AATHP).

Para a Europa, o atual estudo mostra que, se as temperaturas globais continuarem subindo conforme os cenários mais preocupantes indicam, uma melhor gestão dos incêndios florestais poderá apenas limitar os riscos no futuro, mas não eliminá-los completamente.

Nesse cenário, mais da metade das regiões europeias vulneráveis às chamas enfrentará uma quantidade ainda maior de incêndios florestais do que a observada atualmente.

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