A cidade alemã que está se adaptando a um futuro de extremos climáticos

11 ago 2026 - 12h35

De áreas verdes a obras contra inundações, Kiel, cidade costeira alemã às margens do Mar Báltico, aposta em soluções de longo prazo para enfrentar os efeitos de um clima cada vez mais extremo.Em outubro de 2023, a costa do Mar Báltico sofreu sua pior ressaca em mais de 150 anos. O fenômeno destruiu diques, provocou o desmoronamento de falésias costeiras e devastou marinas no estado alemão de Schleswig-Holstein e em partes do sul da Dinamarca.

A ressaca catastrófica removeu 2,68 metros de encosta costeira em Kiel, cidade portuária e capital de Schleswig-Holstein. Isso representou uma perda mais de quatro vezes superior à média anual registrada nas duas décadas anteriores.

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As mudanças climáticas causadas pela ação humana estão intensificando eventos extremos, como tempestades. E, em cidades costeiras como Kiel, as consequências já são impossíveis de ignorar.

"Os impactos das mudanças climáticas são algo muito concreto em Kiel", afirma Martina Baum, responsável pela divisão de adaptação climática da cidade. "Pelo menos desde a ressaca de 2023, todos nós fomos lembrados dos profundos efeitos que elas podem ter sobre nós, sobre nossa vida cotidiana e sobre o ambiente ao nosso redor".

Esses efeitos estão levando Kiel, uma das primeiras cidades a declarar emergência climática em 2019, a repensar seu design urbanoe funcionamento. Desde então, a cidade se tornou uma referência em adaptação às realidades de um clima em transformação, criando a divisão liderada por Baum em 2025 para aumentar sua resiliência aos eventos climáticos extremos e adotando, em fevereiro de 2026, um plano de adaptação para ampliar essas medidas.

Adaptação x proteção

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Para autoridades municipais como Baum, adaptar-se não exclui reduzir as emissões de combustíveis fósseis que aquecem o planeta. A proteção climática continua sendo a principal estratégia, pois limitar o aquecimento reduzirá os danos futuros.

"Durante muito tempo, houve hesitação em tratar oficialmente da questão da adaptação às mudanças climáticas. Eu mesma me senti desconfortável no início, porque parecia que, de alguma forma, diminuiria a pressão por ações de proteção climática", admite Baum à DW.

Mas a adoção de medidas de adaptação em Kiel reflete o que vem acontecendo em outras cidades do mundo, de Santa Cruz, nos Estados Unidos, a Quezon City, nas Filipinas, à medida que governos se preparam cada vez mais para impactos como calor extremo, chuvas mais intensas e ressacas mais fortes, que já fazem parte da realidade.

Isso não significa que proteção climática e adaptação estejam sempre alinhadas. A instalação de aparelhos de ar-condicionado em moradias, creches ou centros para idosos, por exemplo, protege pessoas vulneráveis durante ondas de calor. Mas também aumenta o consumo de energia, "o que iria na direção contrária dos objetivos de proteção climática", aponta Baum.

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"Mesmo que utilizemos energia renovável, a demanda ainda não é atendida por fontes renováveis 100% do tempo. Portanto, qualquer energia adicional que consumirmos acabará resultando na emissão de gases de efeito estufa que prejudicam o clima", explica.

O dilema do ar-condicionado

Embora o ar-condicionado seja necessário em algumas situações, Kiel está trabalhando em soluções que resfriem a cidade de forma natural, seja adicionando vegetação às fachadas dos edifícios, redesenhando um parque para canalizar ar mais fresco até o centro da cidade ou facilitando o acesso dos moradores a licenças, informações e subsídios para projetos de adaptação.

A cidade também está testando quais espécies de árvores conseguem sobreviver às condições futuras. Há uma década, Kiel plantou cinco exemplares de cada uma de 20 espécies diferentes para descobrir quais suportam melhor calor, seca e a maresia vinda do Mar Báltico.

As árvores oferecem sombra, ajudam a reduzir a temperatura das ruas em cerca de 1,5 °C e melhoram a qualidade do ar. No entanto, nem todas as espécies irão prosperar em um clima em mudança.

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"Não existe uma única espécie de árvore adequada para todas as condições; diferentes locais exigem diferentes espécies", destaca Nicole Holz, que trabalha no departamento responsável pelas áreas verdes da cidade.

A pesquisa exige paciência. "Serão necessários cerca de 20 a 30 anos para obter resultados realmente significativos", estima Petra Holtappel, chefe do mesmo departamento.

Design multifuncional

Adaptar-se às mudanças climáticas também exigirá mudanças na vida cotidiana, aponta Baum. Crianças, por exemplo, talvez não possam mais jogar futebol às 15h por causa das altas temperaturas.

Embora Kiel esteja ficando mais quente, espera-se que a cidade seja menos afetada pelo calor do que centros urbanos muito mais quentes do sul e do centro da Europa. Ainda assim, a cidade alemã é vulnerável a ressacas mais frequentes e chuvas intensas, e precisa de mais áreas de retenção para lidar com o excesso de água. Kiel está ampliando a capacidade de um lago em um parque para reter águas pluviais durante chuvas intensas, mas também estuda outras soluções.

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"Uma ideia seria o chamado design multifuncional. Isso significa que, no futuro, um campo de futebol poderia ser construído um pouco abaixo do nível da área ao redor. Durante períodos de chuva intensa, a água poderia ser direcionada para lá e infiltrar-se gradualmente no solo ou evaporar", explica Baum.

A desvantagem é que o campo poderia ficar inutilizável por até 60 dias por ano. Mas, segundo Baum, os moradores precisarão aceitar esse tipo de proposta. Ela ressalta a necessidade de um debate público mais amplo sobre as medidas de adaptação.

Como alcançar quem não se preocupa com o clima?

Ajudar os moradores a compreender essas escolhas e o que está em jogo faz parte do trabalho de Annafried Stürmer. Ela organiza eventos educativos, conduz excursões públicas com cientistas e participa de feiras de bairro para conversar com pessoas que, de outra forma, talvez não se envolvessem com questões climáticas.

Durante a Semana de Kiel, em junho, o maior evento anual de barco a vela do mundo, Stürmer exibiu um mapa mostrando o risco de inundações na cidade causadas por chuvas extremas.

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"As pessoas geralmente acham isso interessante porque, à primeira vista, não parece estar relacionado às mudanças climáticas. A reação inicial costuma ser: 'Nossa, se ocorrer um desses eventos de chuva intensa, minha casa pode sofrer sérios danos' ou 'meu quintal pode acabar alagado'", conta Stürmer.

Segundo ela, muitas vezes é mais fácil falar sobre adaptação climática do que sobre mudanças climáticas, porque é algo mais tangível.

"É mais fácil falar sobre a necessidade de um sistema de esgoto melhor preparado para lidar com chuvas intensas ou sobre o plantio de diferentes tipos de árvores e vegetação do que falar sobre a redução das emissões de CO₂", destaca Stürmer à DW.

As recentes ondas de calor recordes também tornaram a conversa sobre adaptação mais urgente.

"As pessoas perceberam que antes não fazia tanto calor assim", afirms, acrescentando que os moradores reconhecem cada vez mais a necessidade de proteger crianças, idosos, gestantes e trabalhadores que atuam ao ar livre.

Adaptação climática não é "opcional"

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Mesmo com a crescente conscientização pública sobre a necessidade de adaptação, o financiamento continua sendo um problema em Kiel, que enfrenta limitações orçamentárias. Como ainda é vista por alguns como algo opcional, a ação climática pode rapidamente sofrer cortes quando os recursos ficam escassos.

"Discordo da ideia de que a adaptação climática e a ação climática sejam responsabilidades opcionais. Sempre me pergunto: quais são as alternativas?", lamenta Baum. "Afinal, já foi demonstrado repetidas vezes que investir em adaptação e mitigação das mudanças climáticas vale a pena".

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