Relatórios da ONU alertam que superar o limite de 1,5°C causará danos graves e irreversíveis às geleiras, oceanos polares e permafrost, acelerando a alta do nível do mar e liberando mais gases-estufa. Com a temperatura atual em 1,37°C, cientistas afirmam que o limiar seguro para a criosfera seria de até 1°C, já que a recuperação do gelo pode levar séculos. A projeção de 2,6°C até 2100 reforça a urgência de cortar o uso de combustíveis fósseis para evitar tragédias humanas e climáticas ainda maiores.
O limite de 1,5°C acima dos níveis da era pré-industrial é a meta mais ambiciosa estabelecida pelo Acordo de Paris. Segundo um dos relatórios, ultrapassá-lo provocará consequências importantes, e muitas vezes irreversíveis, na criosfera e nos oceanos polares, regiões do planeta onde há neve, gelo e solos permanentemente congelados.
O derretimento das geleiras e do gelo marinho, o descongelamento do permafrost, camada de solo que permanece congelada por pelo menos dois anos consecutivos e que pode liberar grandes quantidades de gases de efeito estufa ao descongelar, e a aceleração da elevação do nível do mar estão entre os principais impactos. As consequências incluem maior risco de inundações, perdas econômicas e ambientais, escassez de água e aumento dos perigos em áreas montanhosas.
Já está quente demais
Alguns efeitos já podem ser observados. Na Suíça, por exemplo, 20% da massa das geleiras já desapareceu, segundo o relatório.
Embora a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C continue sendo considerada importante, ela já seria alta demais para a criosfera. A chamada "temperatura de segurança" para essas regiões estaria mais próxima de 1°C, ou até abaixo disso.
O aquecimento global já chegou a 1,37°C em relação à era pré-industrial. Segundo o serviço europeu Copernicus, a marca de 1,5°C poderá ser ultrapassada de forma permanente por volta de 2030.
"Para limitar os danos provocados pela perda de gelo nas regiões polares e montanhosas do planeta, as temperaturas precisam ser reduzidas para bem abaixo de 1,5°C o mais rapidamente possível", afirma James Kirkham, principal autor de um dos relatórios, divulgados uma semana antes da COP31, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas.
"Cada fração adicional de grau e cada ano acima desse limite provocarão consequências mais devastadoras", alerta.
Recuperação pode levar séculos
Os cientistas também chamam atenção para o risco de ultrapassar determinados pontos de não retorno. Mesmo que o aquecimento global volte a ficar abaixo de 1,5°C, a recuperação das áreas congeladas seria muito lenta.
No caso das grandes calotas de gelo, retornar a um nível de aquecimento inferior a 1,5°C não apagaria os efeitos provocados pelo período em que esse limite foi ultrapassado, explica Chen Zhao, glaciologista especializada na Antártida e uma das autoras dos relatórios.
Ainda existem, porém, alguns sinais positivos. Algumas geleiras poderiam se recuperar parcialmente se o aquecimento global voltasse rapidamente para uma média inferior a 1,5°C ou até 1°C. O gelo marinho do Ártico também poderia se beneficiar.
O problema é que essa recuperação seria muito mais lenta do que o processo de derretimento. "Isso pode levar várias décadas, ou até séculos", afirma Matthew England, oceanógrafo e climatologista da Universidade de Nova Gales do Sul.
Ainda há tempo para reduzir os danos
O segundo relatório alerta que um cenário de aquecimento de 2,8°C, mantido ao longo do próximo século, teria consequências ainda mais graves.
O nível do mar poderia subir até 5 cm por ano até 2150, contra cerca de 0,45 cm atualmente. O derretimento do permafrost também poderia liberar, todos os anos, uma quantidade de CO₂ equivalente às emissões atuais dos Estados Unidos, segundo maior emissor do mundo.
Esse cenário extremo, no entanto, não é considerado improvável. De acordo com um relatório recente da ONU, mesmo que os países cumpram seus atuais compromissos climáticos, o planeta caminha para um aquecimento de cerca de 2,6°C até 2100.
"Uma ultrapassagem temporária de 1,5°C não significa que os objetivos do Acordo de Paris tenham perdido importância. Pelo contrário, isso os torna ainda mais urgentes", afirma Kirkham.
Segundo ele, medidas políticas imediatas e ambiciosas, especialmente para reduzir o uso de combustíveis fósseis, ainda podem diminuir significativamente os danos à criosfera e suas consequências para as populações e o planeta.
"As decisões tomadas nos próximos anos determinarão a dimensão dos danos", afirma Gunjan Silwal, pesquisador nepalês especializado em geleiras. Para ele, "a tragédia no Nepal é apenas um aviso do que pode acontecer".
Em agosto, o desabamento de uma geleira e de parte de uma montanha no norte do Nepal, atribuído por cientistas ao aquecimento global, provocou mais de 1.500 mortes e deixou 5.000 pessoas desaparecidas.
Com AFP