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Festas juninas da periferia do RJ têm raízes nordestinas

Tradição é mantida, mas mudanças culturais modificam e atualizam danças, adereços e a relação com o público

14 jun 2023 - 12h58
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Apresentação da Quadrilha Junina Dançart, de São João do Meriti. Não é fácil manter o grupo independente
Apresentação da Quadrilha Junina Dançart, de São João do Meriti. Não é fácil manter o grupo independente
Foto: Divulgação

As festas juninas nas periferias do Rio de Janeiro são de grande importância para as comunidades locais, mobilizando diferentes setores e revivendo tradições nordestinas, região de onde vieram muitos moradores. São exemplos o famoso Arraiá do Alemão, que acontece no Complexo do Alemão, zona norte da capital, e a Festa de Santo Antônio, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Nesses e em outros locais periféricos, ruas e comércios são decorados com bandeirinhas, balões e fogueiras em junho. Acontecem apresentações e competições de danças folclóricas, especialmente quadrilhas, além de barracas de comidas típicas e shows de ritmos tradicionais nordestinos, como o forró.

Em geral, as festas são organizadas pela população, incentivam a economia local e atraem turistas. Fica nítido o intercâmbio cultural com o norte e nordeste do Brasil, como o sucesso do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, mais conhecido como Feira de São Cristóvão – bairro da cidade do Rio de Janeiro, onde está localizada a Feira que recebe, em média, 150 mil visitantes mensalmente.

Periferia reencontra origem nas festas juninas

A migração nordestina para o estado do Rio de Janeiro é forte desde o século passado e se concentra, principalmente, nas favelas e cidades da Baixada Fluminense. Daí a relevância das tradições nordestinas.

O técnico em meio ambiente Flávio Minervino, 57 anos, morador do Rio Comprido, zona norte do Rio de Janeiro, ajuda a manter o legado nordestino na cultura carioca. Ele é diretor do Grupo Folclórico Doce Mel Show, do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, região central da capital fluminense.

Noivo e Noiva da quadrilha Doce Mel Show, do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa
Noivo e Noiva da quadrilha Doce Mel Show, do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa
Foto: Divulgação

“O pessoal é muito animado, né? Lembra um pouquinho da sua origem. Vem para o Rio pensando que vai ter outro ritmo, tipo samba, aí, quando veem um grupo folclórico se apresentando, é alegria que não tem preço. É muito legal você ver um nordestino participando dessa nossa atividade com sorriso no rosto, lembrando um pouco da terrinha”, descreve Minervino.

Manter grupos juninos vivos é tarefa difícil

A estudante de educação F=física Luciane Nogueira, 31 anos, moradora do Parque Novo Rio, em São João de Meriti, Baixada Fluminense, relata que as pessoas que promovem a cultura junina encontram dificuldades para manter a tradição viva, devido à falta de investimento público.

Ela dança na posição de florista na Quadrilha de Salão Junina Dançart, grupo de Venda Velha, favela de São João de Meriti. “Somos nós por nós mesmos. A gente faz vaquinha, ou fazemos um bar para arrecadar dinheiro, bancar nossas roupas, nosso transporte, para não deixar a cultura morrer, né?”

Quando conta sobre sua participação na equipe da Dançart, as pessoas se surpreendem que ainda existam quadrilhas. “Então a gente vê que parece que diminuíram muito, muitas quadrilhas que a gente via, não vê mais.”

Grupo Dançart em apresentação deste ano: tradições são reconfiguradas a cada apresentação
Grupo Dançart em apresentação deste ano: tradições são reconfiguradas a cada apresentação
Foto: Divulgação

Mesmo com a dificuldade pelas quais os grupos de tradições juninas passam e a consequente perda da herança cultural, as festas continuam resistindo. “Hoje a Dançart está brigando pelo nosso espaço, para ser reconhecida e não deixar a cultura morrer. Porque isso é o mais importante, a sobrevivência da cultura”, diz Luciane Nogueira.

Pesquisa acadêmica fala em tradições ressignificadas

A pesquisadora Elis Regina Barbosa Angelo, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aponta as transformações do espetáculo e dos ornamentos juninos na capital fluminense e cidades do entorno.

Ela afirma que as festas foram mantidas e ressignificadas com elementos representativos da diversidade cultural brasileira em escolas, instituições e comunidades. Um dos exemplos se refere a Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde o coreógrafo Alegria Adjael Soares chegou como voluntário em 2005.

Grupo Doce Mel Show: beleza das roupas e acessórios nas festas da periferia relembram tradições nordestinas
Grupo Doce Mel Show: beleza das roupas e acessórios nas festas da periferia relembram tradições nordestinas
Foto: Divulgação

Ele veio para resgatar tradições e, ao mesmo tempo, adaptar o espetáculo aos novos tempos. “Foi um divisor de águas dentro da quadrilha de salão e da roça porque é um estilo que veio trazer uma movimentação maior, uma forma de passos diferentes, uma dinâmica de espetáculo e uma estrutura de trabalho que também era totalmente diferente”, sendo aplicada por diversos grupos até hoje.

ANF
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