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Se não for suspenso, memorial negro começará em 2024 em SP

Contrato com escritório de arquitetura está assinado; movimentos sociais querem cancelar concurso que escolheu o projeto

25 nov 2023 - 05h00
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O arquiteto Igor Carollo está à frente da restauração da Capela dos Aflitos e da construção do Memorial dos Aflitos, obras vizinhas e ligadas historicamente
O arquiteto Igor Carollo está à frente da restauração da Capela dos Aflitos e da construção do Memorial dos Aflitos, obras vizinhas e ligadas historicamente
Foto: Arquivo pessoal

Em um café do bairro da Liberdade, na capital paulista, encontro o jovem arquiteto Igor Carollo, de 26 anos. Apesar da curta trajetória profissional, ele está à frente de importantes projetos, especialmente dois: a reforma da Capela dos Aflitos e a construção do Memorial dos Aflitos, marcos da história negra em São Paulo, do lado oposto do quarteirão onde está o estabelecimento chiquezinho em que o entrevisto.

Se as duas obras, uma ao lado da outra, ocorrerem simultaneamente, como, até o momento, deve acontecer, não se sabe como será a relação de Igor Carollo, responsável pelos dois projetos, com os movimentos sociais, alocados na Capela dos Aflitos. Apesar de serem contra a construção do Memorial, que desconsideraria a representatividade negra e indígena, fiéis desejam a restauração da igrejinha construída em 1779.

Deixemos o arquiteto sentado à minha frente, esperando um café e um pão de queijo, e voltemos no tempo para entender o enredo da situação que jamais agradará a todos os envolvidos e talvez só se resolva daqui muitos anos, se for judicializada – é o que o arquiteto pode fazer, caso os movimentos sociais consigam cancelar o concurso para construção do Memorial dos Aflitos, pedido que está sendo analisado pelo Tribunal de Contas do Município de São Paulo.

Restauração da Capela dos Aflitos

O bairro da Liberdade, atualmente identificado com a cultura oriental, era a periferia de São Paulo entre os séculos 17 e 19. Ali vivia a população pobre composta por negros, indígenas e imigrantes. Havia cadeia, pelourinho, forca, cemitério e órgão da administração pública. Sobrou a Capela dos Aflitos, identificada com o culto ao herói negro Chaguinhas.

Fachada do projeto que arquitetônico do Futuro Memorial dos Aflitos na rua Galvão Bueno, na Liberdade, em São Paulo. Ao fundo, Capela dos Aflitos
Fachada do projeto que arquitetônico do Futuro Memorial dos Aflitos na rua Galvão Bueno, na Liberdade, em São Paulo. Ao fundo, Capela dos Aflitos
Foto: Reprodução

Literalmente caindo aos pedaços, no início deste ano o restauro da igrejinha foi aprovado pela prefeitura e pelos setores de patrimônio municipal e estadual. Movimentos sociais, como a Associação de Amigos da Capela dos Aflitos (Unamaca), e o Instituto Tebas, comemoraram a decisão.

Quase ao mesmo tempo, a Secretaria de Cultura da capital escolheu, por concurso, o projeto de construção do Memorial dos Aflitos, a ser construído ao lado da Capela dos Aflitos, em local onde funcionou o primeiro cemitério público de São Paulo.

Parecia ser mais um motivo para comemoração, afinal, um bem arquitetônico histórico seria restaurado e outro, construído no terreno vizinho, mas a encrenca começou logo após a aprovação do projeto arquitetônico do Memorial dos Aflitos.

Memorial dos Aflitos questionado

Apesar de movimentos sociais como a Unamca e o Instituto Tebas terem representantes no concurso que classificou três projetos arquitetônicos para o Memorial dos Aflitos, após o anúncio do vencedor, o Escritório Paulistano de Arquitetura, o caldo entornou.

Parte interna do Memorial dos Aflitos. Projeto prevê um subsolo. Se o concurso que o escolheu não for cancelado, construção começa no ano que vem
Parte interna do Memorial dos Aflitos. Projeto prevê um subsolo. Se o concurso que o escolheu não for cancelado, construção começa no ano que vem
Foto: Reprodução

A proposta passou a ser questionada desde a utilização da terra do local, até a falta de representatividade negra e indígena, sobretudo pelos movimentos sociais que a escolheram. O escritório vencedor desistiu do concurso.

E quem era o segundo colocado, que, então, assumiu a construção do Memorial dos Aflitos, conforme as regras do concurso? Carollo Arquitetura e Restauro, o mesmo responsável pela reforma da Capela dos Aflitos.

Uma pergunta pertinente

Por que os movimentos sociais aprovaram o projeto que viriam a questionar? “Ocorre o seguinte: desde o momento em que foi anunciado o vencedor, o movimento apontou sete problemas, ainda que tivéssemos dois representantes na comissão julgadora. O que significa isso? Significa que o coletivo é maior do que os indivíduos. O coletivo dá a palavra final”, justifica Abílio Ferreira, do Instituto Tebas.

Segundo o advogado Shigueo Kuwahara, contratado para apresentar denúncia ao Tribunal de Contas do Município de São Paulo, o concurso para o Memorial dos Aflitos não teria atendido aos princípios obrigatórios da publicidade e da concorrência, não adotou medidas para evitar o racismo e nem para incluir a representatividade indígena, entre outros questionamentos.

Abílio Ferreira, do Instituto Tebas, alega que o cancelamento do concurso é uma reivindicação coletiva
Abílio Ferreira, do Instituto Tebas, alega que o cancelamento do concurso é uma reivindicação coletiva
Foto: Arquivo pessoal

O processo está no setor de Assessoria Jurídica e Controle Externo desde o dia 19 de outubro. Dali, deve retornar com um parecer, “fundamental para os futuros desdobramentos”, diz o advogado. Quais seriam esses desdobramentos?

“Não temos indicações nem pela revogação e nem pela manutenção do concurso. Entendo que é um caso complexo, como são complexas as questões de racismo, que vão além dos atos de racismo individual.”

Por falar em racismo...

Voltemos ao café onde entrevisto o arquiteto Igor Carollo. Entre rápidos olhares para o celular – estamos conversando há mais de uma hora – novos cafés e pães de queijo, falamos de uma das autoras do projeto do Memorial dos Aflitos, uma mulher negra e favelada.

Digo que, considerando seu perfil, a alegada falta de representatividade negra não se sustentaria. Lembro ao arquiteto que estou tentando entrevistar sua parceira de trabalho há três meses. Muito cautelosa, a arquiteta Diana Cavalcante preferiu não se manifestar em minha primeira abordagem. Queria esperar uma reunião com representantes dos movimentos sociais.

A arquiteta Diana Cavalcante, 30 anos, nascida e criada na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, assim como seu pai, negro. Ela é filha de uma nordestina
A arquiteta Diana Cavalcante, 30 anos, nascida e criada na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, assim como seu pai, negro. Ela é filha de uma nordestina
Foto: Arquivo pessoal

Contudo, após a conversa com Igor Carollo, a arquiteta envia uma única resposta, longa, considerando a extensão de mensagens de texto via celular. O que ela escreve é um primor de respeito, consciência cidadã e significativa da complexidade desta história.

A resposta da arquiteta

Diana Cavalcante é uma mulher negra de 30 anos, nascida e criada na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, assim como seu pai, negro. Ela é filha de uma nordestina. “Ambos lutaram desde criança, como muitas pessoa nesse país, em sua maioria, negros periféricos, para sobreviver e conseguir melhores condições. Fui a primeira de minha família a me formar em uma universidade pública.”

Ela estudou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cotista, ingressou em 2012, ano em que a UFRJ implantou cotas para negros, pardos e indígenas.

“Acredito que se hoje eu estou aqui falando com você, como uma das autoras do Projeto do Memorial dos Aflitos, é porque, lá atrás, esses mesmos movimentos que reivindicam maior representatividade, não só de pessoas negras, mas também de indígenas, precisaram lutar pra que eu tivesse direito ao acesso à universidade, aos programas de permanência, e a esse espaço.”

Diana Cavalcanti, uma das autoras do projeto arquitetônico do Memorial dos Aflitos: “Não é justo me colocar numa perspectiva individualista”
Diana Cavalcanti, uma das autoras do projeto arquitetônico do Memorial dos Aflitos: “Não é justo me colocar numa perspectiva individualista”
Foto: Arquivo pessoal

Ela sabe que a luta dos negros para conquistar um lugar de destaque ou de liderança não é fácil no Brasil. “É dolorosa, cheia de altos e baixos. Talvez mais de baixos do que de altos e, estrategicamente, muitas das vezes, a gente precisa dar alguns passos atrás para que as novas gerações deem largos passos à frente.”

Obviamente, ela quer realizar o projeto do Memorial dos Aflitos, mas não é afoita. “Pensando na contribuição dessas lutas para que eu chegasse até aqui, não é justo me colocar numa perspectiva individualista contra uma luta e uma construção que são coletivas.”

ANF
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