PUBLICIDADE

Mudafavela leva arte e educação para o Calabar, em Salvador

Com mais de seis mil habitantes de maioria preta e parda, bairro resiste contra opressão através de projetos sociais

26 nov 2023 - 05h00
Compartilhar
Exibir comentários
Painel feito em uma oficina com aproximadamente 100 crianças no bairro do Calabar, em Salvador, ação apoiada pela Frente Nacional de Negros e Negras
Painel feito em uma oficina com aproximadamente 100 crianças no bairro do Calabar, em Salvador, ação apoiada pela Frente Nacional de Negros e Negras
Foto: Caique Sapho

Promover ações de impacto social positivo e incentivar o autocuidado em suas diversas formas, voltadas para o bairro do Calabar e periferias ao redor: estes são os objetivos do movimento Mudafavela, criado esse ano por Fátima Gavião, do grupo Mulheres de Fibra; Chris Barra, da Casa Apipema; Caique Sapho, arte educador e artista plástico; e Tereza Soares, moradora do Calabar, em Salvador.

O bairro é formado por segmentos populares de maioria negra. A comunidade tem uma história de organização e resistência na luta pelo direito à cidade, para permanecer em um local considerado nobre na capital baiana. Ele está localizado entre o Jardim Apipema, Ondina, Alto das Pombas e Avenida Centenário.

Segundo o historiador Cid Teixeira, alguns escravos trazidos de uma região da África chamada de Kalabari, atual Nigéria, se refugiaram e construíram o Quilombo dos Kalabari onde, hoje, está o bairro do Calabar.

A partir do final de 1960, o bairro vive um rápido crescimento, com a chegada dos imigrantes da zona rural e de famílias inteiras expulsas de outros locais da cidade pelo poder público.

Lutando por um bairro melhor

Bairros vizinhos, Calabar e Alto das Pombas passam por uma onda de violência. Desde o mês de outubro, há registros de intensas trocas de tiros, mortes, prisões e apreensões de armas. Alguns moradores deixaram suas casas.

O trabalho de mobilização e melhoramento da comunidade da Calabar passa por oficinas de grafite, como a ministrada por Caique Sapho
O trabalho de mobilização e melhoramento da comunidade da Calabar passa por oficinas de grafite, como a ministrada por Caique Sapho
Foto: Caique Sapho

Há décadas, a comunidade realiza ações para pressionar os órgãos públicos por melhorias urbanas na comunidade. Realizam passeatas, implantam grupos de estudos e de teatro. Construíram a Escola Aberta, posto de saúde e uma creche comunitária, com a participação ativa das mulheres, que foram as idealizadoras desses equipamentos.

Neste contexto, acontece o fortalecimento e a organização de grupos do bairro para reivindicarem direitos básicos como moradia, saúde, educação, com destaque para o grupo de Jovens Unidos do Calabar – JUC, o jornal e a rádio comunitária.

Uma das ações do movimento foi a oficina de grafite com crianças, na Casa Apipema, que resultou na pintura de uma parede em uma rua muito utilizada pelos moradores. Outra rua, na região da Bomba, foi grafitada com a colaboração de vários artistas de outras comunidades, além da quadra poliesportiva do Calabar pintada junto com o time de basquete GCBCAP.

Até geladeira velha é incorporada

Entre as ações de melhoria da comunidade, uma velha geladeira foi pintada para servir de estante de livros doados, na rua do Morro, onde os jovens e a população podem fazer troca de livros.

Geladeiras velhas são pintadas na rua do Morro, onde os jovens e a população podem fazer troca de livros doados
Geladeiras velhas são pintadas na rua do Morro, onde os jovens e a população podem fazer troca de livros doados
Foto: Caique Sapho

Em outubro, aconteceu a campanha Todos pela Paz, junto com a Frente Nacional de Negros e Negras, com a entrega de mais de 300 brinquedos e a criação de um painel de grafite de 30 metros quadrados, resultado de uma oficina que atendeu 100 crianças.

Para atender a demanda crescente, um serviço de assistência psicológica foi criado na Casa Apipema, resultado de uma parceria entre a Universidade Federal da Bahia (UFBA), o grupo Mulheres de Fibra e o Mudafavela.

“Semear cantinhos perdidos com mudas diversas”

Para 2024, estão programadas atividades de assistência jurídica aos moradores, na biblioteca do Calabar, junto com uma universidade particular, além da reforma da fachada da biblioteca, uma horta comunitária, pintura de mais ruas e a instalação de outras geladeiras de livros para incentivar a leitura.

Segundo Caique Safo, mobilizador cultural, artista, arte educador e grafiteiro, as ações do Mudafavela têm mudado a cara do lugar. “Estou sempre atrás de parceiros e investidores para que possamos trazer políticas públicas para o Calabar e comunidades ao redor. Tudo isso faz com que a gente aumente a autoestima da comunidade e consiga dar uma contrapartida, que o Estado não está fazendo”, declara.

Fátima Gavião, agente comunitária de saúde e do grupo Mulheres de Fibra, entusiasta do Mudafavela diz que é preciso “trazer para o Calabar cores, sons e emoções”
Fátima Gavião, agente comunitária de saúde e do grupo Mulheres de Fibra, entusiasta do Mudafavela diz que é preciso “trazer para o Calabar cores, sons e emoções”
Foto: Caique Sapho

Fátima Gavião, agente comunitária de saúde e membro do grupo Mulheres de Fibra, é outra entusiasta do Mudafavela. “Trazer para o Calabar cores, sons e emoções, e também mudar, plantar, semear os cantinhos perdidos com mudas diversas, pra fazer um chá, banhos e frutinhas de comer, flores. Plantar amor, alegria e esperança, com um monte de gente que pensa igual”, poetisa.

ANF
Compartilhar
Publicidade
Publicidade