Você pode ter órgãos 'mais velhos' que outros, revela estudo
Pesquisa mostra que cada órgão pode seguir um ritmo próprio de envelhecimento - e, no futuro, um exame de sangue poderá ajudar a identificar essas diferenças
A idade que aparece no documento não necessariamente conta toda a história sobre o envelhecimento do nosso corpo. Enquanto alguns órgãos podem apresentar sinais de envelhecimento mais cedo, outros parecem seguir um ritmo diferente, mesmo pertencendo à mesma pessoa.
É o que mostra um novo estudo publicado na revista científica Nature Medicine. Usando inteligência artificial para analisar milhares de imagens microscópicas de tecidos humanos, pesquisadores conseguiram identificar padrões associados à idade biológica de diferentes partes do organismo.
A descoberta reforça uma ideia cada vez mais presente nas pesquisas sobre longevidade: envelhecer não é um processo uniforme. E, no futuro, entender essas diferenças pode ajudar a acompanhar a saúde de determinados órgãos por meio de algo tão simples quanto um exame de sangue.
Cada órgão parece ter seu próprio ritmo de envelhecimento
A pesquisa mostrou que os tecidos não apresentam as mesmas transformações na mesma fase da vida. Pulmões, rins, pâncreas e glândulas adrenais, por exemplo, apresentaram períodos de envelhecimento mais acelerado já entre os 20 e os 40 anos. Outros órgãos demonstraram padrões diferentes, com mudanças mais expressivas acontecendo posteriormente.
No útero, os cientistas observaram uma alteração particularmente significativa próxima à idade em que costuma ocorrer a menopausa. "O que chama a atenção é como cada órgão envelhece de forma diferente e como isso se reflete na arquitetura dos tecidos", explicou Ernesto Abila, um dos principais autores do estudo.
Essas diferenças levaram os pesquisadores a desenvolver uma espécie de "relógio" específico para os tecidos, capaz de estimar sua idade biológica a partir da aparência microscópica.
Idade cronológica e idade biológica não são a mesma coisa
Para compreender a descoberta, é importante separar dois conceitos. A idade cronológica corresponde simplesmente ao número de anos vividos. Já a idade biológica busca representar o estado de envelhecimento do organismo - e pode não acompanhar exatamente o calendário.
No estudo, algumas pessoas apresentaram alterações estruturais em determinados tecidos antes do que seria esperado considerando sua idade cronológica. Isso sugere que um órgão pode mostrar características de envelhecimento mais avançadas do que outro.
Os pesquisadores também encontraram relações entre doenças e o envelhecimento de determinados tecidos. Casos de insuficiência renal foram associados a sinais de envelhecimento acelerado em vários tecidos, enquanto o diabetes apresentou efeitos especialmente relevantes no pâncreas.
Isso não significa, porém, que seja possível afirmar simplesmente que alguém tem um "coração de 70 anos" ou um "pulmão de 50". Os relógios desenvolvidos na pesquisa são modelos experimentais e ainda precisam ser aperfeiçoados antes de uma possível aplicação clínica.
Inteligência artificial analisou mais de 25 mil imagens
Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram informações do projeto GTEx, um grande banco de amostras de tecidos humanos. Avaliaram amostras de 983 pessoas e 40 tipos diferentes de tecidos, incluindo cérebro, coração, pulmões, pele, intestino e pâncreas. No total, a inteligência artificial analisou 25.712 imagens digitais em alta resolução, divididas em aproximadamente 480 milhões de pequenas regiões para análise.
Um detalhe chamou especialmente a atenção: mesmo sem ser instruída especificamente a procurar sinais relacionados à idade, a inteligência artificial identificou o envelhecimento como um dos principais fatores ligados às diferenças na aparência dos tecidos.
A partir dessas informações, os cientistas desenvolveram os chamados relógios teciduais, que conseguiram estimar a idade biológica dos órgãos com um erro médio de aproximadamente 4,9 anos. "Nossos tecidos carregam um registro notavelmente detalhado do processo de envelhecimento", afirmou André Rendeiro, pesquisador principal do CeMM e autor correspondente do trabalho.
O que muda dentro dos tecidos conforme envelhecemos?
Quando pensamos em envelhecimento, é comum imaginar apenas aquilo que conseguimos enxergar externamente, como cabelos brancos, rugas ou alterações na pele. Por dentro do organismo, entretanto, o passar dos anos também deixa marcas.
Os modelos encontraram relações entre a idade estimada dos tecidos e características já conhecidas do envelhecimento, como encurtamento dos telômeros, alterações patológicas e presença de doenças crônicas. A arquitetura microscópica dos órgãos, portanto, pode funcionar como uma espécie de registro das transformações acumuladas pelo organismo ao longo dos anos. A inteligência artificial conseguiu perceber padrões tão sutis que poderiam passar despercebidos em uma análise visual convencional.
Um exame de sangue poderá revelar como seus órgãos estão envelhecendo?
Essa é uma das possibilidades mais interessantes levantadas pelo estudo, mas ainda não é uma realidade disponível nos consultórios. Para observar diretamente a arquitetura de um tecido, seria necessário retirar uma amostra do órgão, procedimento invasivo e pouco viável para acompanhar rotineiramente uma pessoa saudável.
Por isso, os pesquisadores buscaram outra estratégia. Eles compararam os sinais encontrados nos tecidos com padrões de expressão gênica presentes no sangue. Com essa associação, conseguiram desenvolver modelos capazes de identificar características relacionadas ao envelhecimento de determinados órgãos a partir de uma amostra sanguínea.
Doenças também deixaram padrões diferentes
Ao analisar os sinais obtidos pelo sangue, os pesquisadores encontraram associações com diferentes condições de saúde, entre elas Alzheimer, diabetes, doença de Crohn, fibrose cística, vasculite e AVC. E os padrões não foram iguais em todas elas.
Nos casos de Alzheimer analisados, por exemplo, o sinal mais expressivo de envelhecimento apareceu no cérebro. Já na doença de Crohn, as alterações estavam distribuídas pelo trato gastrointestinal. "Este estudo destaca que o envelhecimento não é simplesmente uma questão de tempo cronológico", afirmou Yimin Zheng, também autor principal do trabalho.
Os resultados sugerem que a maneira como envelhecemos pode depender tanto de fatores que afetam o organismo de forma geral quanto de processos particulares de cada tecido.
Ainda serão necessários novos estudos para aprimorar os modelos e entender sua utilidade na prática médica. No futuro, porém, os pesquisadores esperam que esses "relógios" possam contribuir para identificar alterações precocemente e acompanhar como diferentes órgãos envelhecem sem depender de procedimentos invasivos.
A descoberta traz, sobretudo, uma nova maneira de enxergar o passar do tempo: embora comemoremos uma única idade a cada aniversário, biologicamente, nosso corpo pode estar seguindo vários relógios ao mesmo tempo.
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