Carne de piranha: apreciada por pantaneiros e desconhecida no resto do país
A carne de piranha é, para o pantaneiro típico, uma iguaria que faz parte do dia a dia, apreciada tanto no mais tradicional filé frito quanto em pedaços cozidos, no caldo e inclusive em uma apresentação pouco comum e principalmente desconhecida das demais regiões do país.
Estas foram as descobertas feitas pela equipe da Expedição Brasil Gastronômico que está percorrendo o Mato Grosso em busca das peculiaridades gastronômicas do Estado e que desceu o rio Paraguai, a partir da cidade de Cáceres, para acompanhar a pesca e preparo da piranha, peixe temido pela maioria dos leigos, mas amado pelos moradores da região, em especial os pescadores profissionais.
É o caso de Gilmar Brunelli dos Reis e sua esposa Elzi Valadares de Souza, que conduziram a equipe na busca desse peixe e prepararam pratos deliciosos, mostrando que a piranha é sim muito apetitosa, apesar de representar um perigo para os menos cuidadosos na hora de sua captura e manuseio.
Reis é o profissional que mais recebeu prêmios em competições de pesca no Mato Grosso e sua esposa fala com orgulho da paixão do marido pela profissão, mesmo com todas as dificuldades que enfrentam no dia a dia, como longas jornadas de trabalho e a proibição de pesca imposta pelo Governo durante quatro meses por ano, época de reprodução dos peixes.
A viagem para a pescaria começou bem cedo, rumo ao trecho conhecido como Barra do Sepotuba e onde o casal mantém um "rancho", casebre à beira do rio onde guardam utensílios, se preparam, cozinham e descansam após a pescaria.
Em quatro barcos, a equipe, como a Agência Efe constatou, se equipou com iscas, anzóis e outros apetrechos para capturar o peixe. Elzi teve mais sorte que o marido e pescou os animais que seriam preparados para o almoço. Com muito cuidado, ela tirou a piranha do anzol e a depositou no fundo do barco.
A limpeza da piranha foi feita por Reis, à beira do rio, mostrando como se deve lidar com ela após a captura. Com a ajuda do marido, Elzi preparou um delicioso caldo de piranha temperado com cheiro verde, coentro e cebola, além de tomate picado. Reis ainda capturou outro peixe para ser frito junto com postas de piranha, o pacupeva, muito comum na região.
Mas o prato surpresa ficou por conta do sashimi de piranha, feito com carne crua do peixe, cebola em rodelas, gengibre, limão galego e molho shoyo, receita batizada por Reis de "sasha", evidentemente uma tentativa de aportuguesar o vocábulo japonês. Reis confidenciou que há mais de 20 anos come peixe cru, mas que só há pouco tempo família e amigos começaram a apreciar a iguaria.
A carne da piranha tem cheiro pouco acentuado e textura firme, mas pouca gente sabe disso, talvez influenciada pela má fama do animal carnívoro, que devora suas presas com rapidez e fatalidade impressionantes.
A piranha é muito farta na região e Elzi reclama: "Ela atrapalha a pescaria de outros peixes, como, por exemplo, o pintado. Tem gente que vem pescar pintado e desiste porque só pega piranha, ela come todas as iscas".
Iscas estas feitas de outros peixes frescos, abatidos na hora da pescaria, cortados e dispostos nos anzóis em pedaços grandes. Não demora muito e o animal fisga o anzol, que surge com um exemplar de piranha amarela, espécie mais comum na região, maior e mais carnuda do que a vermelha.
O diretor da expedição, Rusty Marcellini, ficou impressionado com a pescaria e preparo do peixe e confidenciou: "Achei o sabor da piranha suave, por ela ser magra, não ter gordura, é um sabor que some muito rápido, não tem aquela coisa mais forte do peixe."
Ainda em Cáceres, a expedição segue nesta quinta-feira para uma fazenda de criação de jacarés, a maior do Brasil, para conhecer como funciona o processo de abate e preparação para venda da carne do animal, considerada exótica pela maioria da população.