Treino feito por IA é seguro? Veja até onde confiar na tecnologia
Inteligência artificial consegue criar rotinas de exercícios em segundos, mas especialistas alertam para limites na individualização, execução e progressão dos treinos
O uso de inteligência artificial para criar treinos cresce por sua praticidade e baixo custo, gerando sequências baseadas em dados dos usuários. Contudo, especialistas alertam que a tecnologia apenas organiza rotinas genéricas e não substitui a avaliação física nem a correção postural feitas por profissionais, essenciais para evitar lesões em iniciantes e grupos de risco. A IA é mais indicada como ferramenta de apoio e organização, devendo ser integrada à supervisão humana para garantir a segurança.
A inteligência artificial já ajuda a organizar viagens, estudar, escrever, controlar tarefas e até planejar refeições. Agora, ela também entrou na academia e no treino. Com algumas informações sobre idade, objetivo e experiência, ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude conseguem sugerir em segundos uma sequência de exercícios aparentemente personalizada.
E muita gente já está recorrendo à tecnologia para isso. Uma pesquisa da ABC Fitness divulgada no fim de 2025 apontou que cerca de dois terços dos frequentadores de academias entrevistados haviam utilizado recursos de inteligência artificial relacionados ao fitness ao longo daquele ano.
A popularização não é difícil de entender. A IA está disponível a qualquer hora, costuma ter baixo ou nenhum custo e consegue transformar um objetivo vago - "quero ganhar massa muscular", por exemplo - em algo mais concreto. O problema começa quando uma sugestão digital passa a ser encarada como uma prescrição individualizada.
Afinal, um chatbot pode até conhecer os princípios de um bom treinamento. Mas ele conhece o seu corpo?
Personalização existe, mas tem limites
Quanto mais informações são fornecidas à ferramenta, mais específica tende a parecer a resposta. Idade, peso, frequência semanal, equipamentos disponíveis, nível de experiência e objetivo ajudam a IA a selecionar exercícios e distribuir séries e repetições. Isso significa que a tecnologia consegue organizar uma estrutura inicial de treinamento. Não significa, porém, que tenha realizado uma avaliação física.
Há informações que o próprio usuário pode não saber identificar ou descrever. Mobilidade limitada, assimetrias, postura, histórico de lesões, capacidade de coordenação e padrões de movimento são alguns exemplos.
É justamente aí que está uma das diferenças entre receber uma lista de exercícios e ter um treino verdadeiramente individualizado. Utilizar a IA como apoio pode ser útil, mas recorrer a ela de maneira totalmente independente traz limitações importantes. Entre elas, está o fato de a ferramenta não conseguir observar a execução do movimento ou ajustar a postura do indivíduo, o que pode trazer riscos.
O exercício pode estar certo - e a execução, errada
Um chatbot pode sugerir agachamento, remada ou levantamento terra em uma situação na qual esses exercícios façam sentido. O problema é que escolher o movimento representa apenas uma parte do treinamento. Na academia, é preciso observar como aquele corpo executa o que foi proposto.
Uma pessoa pode utilizar carga demais, diminuir a amplitude por falta de mobilidade ou deslocar outras regiões do corpo para conseguir terminar uma repetição. Para alguém sem experiência, esses erros nem sempre são perceptíveis.
Dor, perda da qualidade do movimento, fadiga acima do esperado ou dificuldade de coordenação podem indicar que a carga precisa diminuir, que o exercício deve ser adaptado ou até substituído.
O problema do famoso "3 séries de 10"
Outro risco é confundir organização com personalização. Um treino pode parecer completo porque apresenta exercícios, séries, repetições e intervalos, mas ainda assim seguir uma estrutura bastante genérica.
Segundo os especialistas consultados pelo TechTudo, recomendações como três séries de dez repetições ou quatro séries de 12 aparecem com frequência nas respostas das ferramentas. "Isso funciona em alguns casos, mas não serve para todos os alunos nem para todos os momentos", explica o educador físico Isaac Marins.
O corpo também muda conforme o treinamento avança. Aquilo que representa um desafio hoje pode se tornar fácil depois de algumas semanas. A progressão, então, pode envolver mais carga, novas repetições, alterações no volume, descanso ou até a troca do exercício.
Também existe o problema contrário: avançar antes da hora. Mais exercício e mais peso não significam necessariamente resultados mais rápidos. Recuperação, sono, alimentação e descanso fazem parte do processo, e aumentar o estímulo sem considerar esses fatores pode resultar principalmente em cansaço e maior risco de problemas.
Para iniciantes, o cuidado deve ser maior
Quem já treina há bastante tempo provavelmente consegue perceber com maior facilidade quando uma carga está pesada demais ou quando determinado movimento não está saindo como deveria. Um iniciante ainda está aprendendo justamente essas referências.
Sedentários e pessoas que estão começando a frequentar a academia podem ter menor consciência corporal e pouco conhecimento sobre a mecânica dos movimentos. Por isso, seguir sozinho uma sequência fornecida pela IA pode aumentar a possibilidade de executar exercícios de maneira inadequada.
O cuidado também precisa ser redobrado entre idosos e pessoas com condições de saúde ou limitações específicas. Hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares ou respiratórias, alterações osteoarticulares e obesidade grave são alguns dos exemplos citados por profissionais que o acompanhamento especializado ganha ainda mais importância.
Isso não significa evitar atividade física. Pelo contrário: o exercício pode fazer parte dos cuidados com a saúde em diferentes fases da vida. A questão é garantir que intensidade, modalidade e progressão sejam adequadas à condição individual.
Então para que vale a pena usar IA na academia?
É justamente quando deixa de tentar ocupar o lugar do profissional que a inteligência artificial pode mostrar algumas de suas melhores possibilidades. Ela pode ser utilizada para registrar cargas, organizar o histórico dos treinos, acompanhar frequência, explicar conceitos, criar lembretes ou apresentar alternativas que depois podem ser discutidas com um educador físico.
A tecnologia também pode ajudar em um problema muito comum: manter a constância. Afinal, ela pode criar lembretes e um planejamento adaptado, além de acompanhar o progresso. Essa organização pode ser interessante até para profissionais. Com registros frequentes sobre carga, adesão e desempenho, sistemas de IA conseguem ajudar a encontrar padrões em grandes quantidades de informações. O treinador, por sua vez, pode usar esses dados como mais uma ferramenta para tomar decisões.
O futuro do treino pode ser uma combinação dos dois
A tendência é que as ferramentas fitness se tornem cada vez mais sofisticadas. Aplicativos já conseguem integrar informações de relógios inteligentes, acompanhar frequência cardíaca, organizar a evolução e modificar sugestões de acordo com os dados registrados pelo usuário.
Isso pode tornar a tecnologia especialmente útil para ampliar o acesso à informação e facilitar a organização da rotina de exercícios. Mas existem elementos que continuam difíceis de transformar em números.
Um profissional consegue observar a execução de uma repetição, perceber uma compensação corporal, conversar sobre uma dor que apareceu naquela semana e entender até que o treino teoricamente "perfeito" não está funcionando porque o aluno simplesmente não gosta dele.
Por isso, a tendência apontada pelos especialistas é menos de substituição e mais de integração: a tecnologia assume tarefas de organização e análise, enquanto a avaliação, a observação do movimento e as decisões individualizadas continuam dependendo da atuação humana.
No fim, um treino não é bom apenas porque apresenta os exercícios considerados corretos. Ele precisa ser seguro, possível de manter e adequado à pessoa que vai executá-lo. E, por enquanto, essa é uma diferença importante entre conhecer muitas informações sobre exercício e conhecer o corpo que está se exercitando.
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