Terrorismo nutricional: quando comer dá mais medo do que prazer
Nutricionistas Patricia Davidson e Manoella Campello falam sobre o assunto que ficou em alta após treta de Maíra Cardi e Daniel Cady
Já ouviu falar em terrorismo nutricional? O termo se tornou mais conhecido após uma recente treta entre Maíra Cardi e Daniel Cady, nutricionista, casado com Ivete Sangalo.
No dia 13 deste mês, ele gravou um vídeo desmentindo a associação que Maíra Cardi fez entre um bolo de chocolate e os riscos doenças graves. Em seguida, Cady alertou seus seguidores a tomarem cuidado com conteúdos deste tipo, que viralizam com frequência nas redes sociais.
"O nome disso é terrorismo nutricional e só faz piorar sua relação com seu corpo e com a comida", afirmou o nutricionista.
Maíra se incomodou com a crítica e rebateu Daniel, sem citar o nome dele e ironizando por ele ser conhecido como o marido de Ivete.
O Terra Degusta conversou com duas nutricionistas, que costumam debater o tema nas redes sociais: Patrícia Davidson, que possui mais de um milhão de seguidores no Instagram e Manoella Campello, com mais de 588 mil seguidores, que há uma semana ironizou a situação postando a receita de um bolo de chocolate.
"Terrorismo nutricional é você dar informações como profissional de saúde e, ao invés de ser um acompanhamento e um direcionamento educacional, você mais provoca medo. E isso vai gerando nas pessoas conforme essas informações vão sendo propagadas, mais medo de comer do que prazer, ainda mais uma coisa que seria esporádica", diz Patrícia
Manoella completa explicando que o termo é usado para descrever a disseminação de informações exageradas, incorretas e enganosas sobre dietas, grupos alimentares e nutrientes.
"Isso é perigoso porque pode levar as pessoas a cortarem certos alimentos da dieta como um todo, não necessariamente de uma dieta restritiva", explica.
A partir do momento que as pessoas tomam essa decisão baseadas nessas informações que não são corretas, elas podem prejudicar a saúde.
"Não só o físico, mas o mental e o social. Isso aumentou muito mais com as redes sociais porque hoje é muito fácil viralizar um vídeo, você nem precisa ter um perfil grande, às vezes basta colocar o vídeo de uma forma que chame a atenção. Não necessariamente, esse vídeo vai conter informações certas, porque hoje em dia qualquer um pode pegar um celular e postar um vídeo", diz Manoella.
A nutricionista destaca que é perigoso também pessoas compartilharem suas experiências pessoais com emagrecimento e dietas nas redes sociais.
"Porque as pessoas são diferentes, às vezes uma pessoa pode falar que chegou ao resultado porque cortou o doce, mas ela pode não ser muito fã de doce, para ela tudo bem cortá-lo da alimentação. Daí você imagina uma pessoa que gosta muito de doce assistindo isso também, ela pensa que não vai alcançar aquele resultado", comenta.
"Quanto mais polêmico ele for, parece que mais viralizado ele fica e as pessoas se sentem ainda mais com necessidade de mostrar para as outras o horror que está sendo dito", completa Patricia.
Os riscos do terrorismo nutricional
Entre os riscos desse tipo de terrorismo, que levam as pessoas a cortarem alimentos de sua rotina radicalmente, podem ocorrer deficiências nutricionais.
"Os riscos são que as pessoas tenham pavor de comer, criem transtornos alimentares, comecem a excluir vários alimentos, percam comer em alimentos que poderiam eventuais ser colocados dentro de um cardápio, como bolo, uma fritura", diz Davidson.
Manoella explica que o risco não é só referente ao físico e cita como exemplo as dietas low carb, que sugerem retirar ou diminuir o consumo de carboidrato.
"A ingestão de fibra diminuiu muito e a gente sabe que é super importante para nossa saúde intestinal. A gente pode ter deficiências nutricionais sérias. Além desses riscos físicos, a gente tem também os riscos dos desenvolvimentos dos transtornos alimentares", complementa.
Ela explica ainda que quando se desenvolve esse transtorno, é muito difícil recuperar uma boa relação com a comida, é preciso um trabalho multidisciplinar não só com médicos, mas com psicólogo e profissionais da educação física para mostrar para a pessoa que é possível ter um equilíbrio na alimentação.
"A gente não precisa ter medo dos grupos alimentares. Ter saúde, alcançar objetivos estéticos e físicos não vai depender de um alimento que a gente come ou deixa de comer, mas sim num contexto. Como a gente faz isso de uma forma geral. A saúde não depende só do que a gente come, mas também de como a gente dorme, nosso nível de estresse, de atividade física, é a nossa saúde mental, isso é tudo é importante", completa.
O segredo de uma vida saudável e equilibrada numa alimentação, segundo a profissional, é justamente esse. "Quando a gente pensa que pode comer de tudo, não significa que a gente vai comer muito. A gente pode comer um pouquinho, principalmente dos alimentos que não são considerados saudáveis e realmente não apresentam benefícios para nossa saúde. Não necessariamente ela vão ser prejudiciais à nossa saúde", diz.
Avaliação é individual
Patricia Davidson diz que o segredo dessa vida equilibrada não é cortar tudo, ao menos que a pessoa tenha essa necessidade por alguma questão específica.
"Eu faço testes em todos os pacientes para dizer quem é que não pode ovo, glúten, leite, carne, castanha... São alimentos que individualmente podem não fazer bem e eles precisam ser eliminados porque isso vai ser melhor para a saúde, isso é uma avaliação individual. O que é saudável é quando você respeita aquilo que te faz bem, aquilo que não faz bem, você vai comer esporadicamente".
Dependendo da quantidade e frequência, é possível incluir esses alimentos na rotina de uma forma que não interfira na saúde física.
"Para a nossa saúde mental e social, às vezes é uma coisa necessária. Em casos que são recomendados radicalizar, cortar totalmente algum alimento ou grupos alimentares, seria mais um caso de uma alergia, como o glúten", concorda Manoella.
Na doença celíaca, por exemplo, o corpo não absorve o glúten e é necessário cortar esse tipo de alimento. "Cortar um grupo alimentar não precisa ser um sofrimento, principalmente quando a gente está falando em saúde", diz a especialista.
"Em casos de pessoas que precisam melhorar os níveis de colesteróis ou glicose, não é necessário cortar radicalmente, é possível fazer ajustes para que ocorra a constância. As mudanças têm que ser feitas, devagar, respeitando nossa saúde física, mental e social", conclui.