Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Símbolo de 'infância feliz', ultraprocessados ainda têm rótulos pouco compreendidos, diz estudo

Levantamento mostra que 55% dos responsáveis por crianças em áreas urbanas não observam a rotulagem frontal ao comprar alimentos

31 mar 2026 - 05h57
Compartilhar
Símbolo de 'infância feliz', ultraprocessados ainda têm rótulos pouco compreendidos, diz estudo
Símbolo de 'infância feliz', ultraprocessados ainda têm rótulos pouco compreendidos, diz estudo
Foto: Divulgação/UNICEF

Alimentos ultraprocessados são frequentemente vistos como símbolo de “infância feliz” e conquista social em comunidades urbanas do Brasil, mesmo entre famílias preocupadas com a saúde das crianças. É o que revela um novo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que também aponta que a rotulagem nutricional frontal, em vigor no país desde 2022, é pouco compreendida e raramente influencia as escolhas de compra. 

O estudo “Ultraprocessados e Infância: Barreiras e Caminhos para Hábitos Saudáveis em Comunidades Urbanas”, realizado com apoio da Novo Nordisk, investigou fatores culturais, sociais e estruturais que influenciam a alimentação e a prática de atividade física na primeira infância em três comunidades urbanas do Brasil: Pavuna (Rio de Janeiro/RJ), Ibura (Recife/PE) e Guamá (Belém/PA).

Os dados mostram que o consumo de ultraprocessados está bastante presente no cotidiano de meninas e meninos, com os lanches se destacando como a refeição de maior exposição: 50% das crianças consumiram esses produtos no dia anterior à pesquisa, em comparação a 27% no café da manhã e 13% no almoço e no jantar.

O levantamento indica ainda que 55% dos entrevistados nunca olham o rótulo dos alimentos, mesmo quando informam presença de açúcar, gordura ou calorias. Muitas vezes, essa escolha é feita com a compreensão de que esses produtos são bons para a saúde, fenômeno descrito pelo estudo como “falsos saudáveis”. Entre os exemplos, 52% consideraram saudável o iogurte com sabor e 49% os nuggets, se preparados na fritadeira elétrica, a air fryer.

Crédito: UNICEF
Tipos de "falso saudável" Alimento base Alimento consumido
Associados a produtos de fato saudáveis: alimentos que são consumidos porque vistos como versões igualmente saudáveis de um produto saudável Iogurte sem sabor Iogurte com sabor
Leite Leite fermentado
Fruta Suco de fruta feio em casa (mas adoçado com açúcar)
Açaí Açaí com condimentos: leite condensado, leite em pó
"Substitutos": alimentos consumidos porque são vistos como produtos ou preparos mais saudáveis do que o "original" não saudável Refrigerante Refrigerante zero
Biscoito recheado Biscoito sem recheio
Nuggets/batata frita, fritos em imersão Nuggets/batata frita, fritos na Air Fryer 
Tempero Tempero pronto de vendinhas

Consumo de ultraprocessados e percepção de saúde

Entre os entrevistados, 84% declararam estar muito preocupados em manter uma alimentação saudável para sua família. Apesar dessa preocupação, o padrão de consumo ainda é influenciado por fatores como percepção de preço e sobrecarga materna, inserindo-se em um cenário preocupante de saúde pública, de acordo com o UNICEF.

A obesidade é atualmente a forma mais prevalente de má nutrição entre crianças e adolescentes no Brasil e cresce de forma acelerada. Em 2023, 13,5% das crianças de 0 a 5 anos apresentavam excesso de peso, percentual que chega a 31,2% entre adolescentes, segundo o Ministério da Saúde.

Entrevistados foram perguntados o quanto consideravam diferentes tipos de alimentos saudáveis, em uma escala de 1 a 10 (de nada a muito saudável)
Entrevistados foram perguntados o quanto consideravam diferentes tipos de alimentos saudáveis, em uma escala de 1 a 10 (de nada a muito saudável)
Foto: Divulgação/UNICEF

“O estudo mostra, de forma clara, que escolhas alimentares não são apenas individuais, mas moldadas pelo ambiente, com influência de fatores como contexto familiar, acesso, preço, qualidade da informação e dos espaços disponíveis", destaca Luciana Phebo, chefe da área de Saúde e Nutrição no UNICEF Brasil, reforçando ser fundamental a construção de hábitos saudáveis ainda nos primeiros anos de vida.

O UNICEF afirma que tem defendido políticas públicas e legislações promotoras da alimentação saudável, como leis municipais sobre escolas saudáveis, nas quais são restringidas a venda e publicidade de ultraprocessados e o tema da alimentação saudável é incluído no currículo escolar. A instituição também atua no aumento da taxação seletiva de bebidas açucaradas e adoçadas e fornece apoio técnico a estados e municípios, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, para conscientizar sobre desenvolvimento infantil, aleitamento materno, atividade física e alimentação saudável.

“A prevenção das doenças crônicas graves, como a obesidade, deve começar ainda na infância. Este estudo evidencia que soluções para promover ambientes mais saudáveis precisam considerar os múltiplos fatores que influenciam o bem-estar de crianças e adolescentes", afirma Patricia Byington, Head de Sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil. "E para que essas iniciativas sejam efetivas e sustentáveis, é fundamental a colaboração entre diferentes atores da sociedade", acrescenta.

Maioria dos entrevistados (62%) alegou nunca ter deixado de comprar um produto por causa da identificação
Maioria dos entrevistados (62%) alegou nunca ter deixado de comprar um produto por causa da identificação
Foto: Reprodução/UNICEF

Desafios e oportunidades

O estudo identificou barreiras e facilitadores para a adoção de hábitos mais saudáveis. Entre os desafios estão a priorização de ultraprocessados por conveniência e percepção de preço, a sobrecarga das mães, principais responsáveis pelo cuidado das crianças, e a falta de espaços seguros para o brincar e a prática de atividade física.

Como pontos positivos, o levantamento destaca a cultura alimentar brasileira baseada em refeições caseiras, como arroz e feijão, e políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que ampliam o acesso a refeições mais saudáveis.

Os dados coletados também apontam amplo reconhecimento da importância da atividade física para crianças: 89% dos entrevistados concordaram que sua prática reduz riscos de problemas de saúde. No entanto, embora 57% identifiquem espaços disponíveis nas proximidades, questões como falta de manutenção, iluminação precária e violência surgem como barreiras. Além disso, meninas são mais associadas a brincadeiras sedentárias, como boneca ou conversa, e a sobrecarga doméstica afeta sua disponibilidade para se movimentar à medida que crescem.

Mesmo assim, as crianças usam áreas dos bairros para brincar, geralmente sem rotina ou horário fixo. Iniciativas comunitárias e apoio da vizinhança são fundamentais para viabilizar a prática de atividade física na primeira infância, de acordo com o UNICEF.

Diante desse contexto, o estudo apresenta recomendações em três níveis -- político e regulatório, institucional e comunitário -- para apoiar estratégias que ampliem o acesso a hábitos mais saudáveis:

  • Fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados – avançar na regulação da publicidade infantil, tributação de ultraprocessados e promoção de ambientes escolares saudáveis.
  • Expandir creches e escolas em tempo integral – mais tempo na escola fortalece redes de apoio, reduz sobrecarga das famílias e contribui para hábitos saudáveis.
  • Qualificar e garantir segurança de espaços públicos para atividade física – infraestrutura e segurança adequadas são essenciais para brincar e se movimentar.
  • Fortalecer a orientação alimentar nos serviços de saúde – informação qualificada desde a gestação ajuda a evitar ultraprocessados precoces e promove hábitos saudáveis.
  • Apoiar iniciativas e lideranças comunitárias – hortas, feiras, atividades esportivas e redes locais ampliam o acesso a alimentos saudáveis e incentivam a prática de atividade física.
  • Ampliar compreensão e uso da rotulagem frontal – campanhas educativas devem explicar de forma clara o significado e uso diário da rotulagem.
  • Investir em comunicação para mudança de comportamento – mensagens simples e práticas ajudam famílias a identificar “falsos saudáveis” e melhorar formas de preparo.
Fonte: Portal Terra
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra