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'Rumores e pânico podem assustar mais que a epidemia', diz embaixador da China sobre coronavírus

Embaixador da China no Brasil, Yang Wanming critica a adoção de medidas restritivas por parte dos Estados Unidos e diz que espera que a sociedade brasileira reaja à epidemia com calma

14 fev 2020
08h10
atualizado às 09h46
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SÃO PAULO - "Os rumores e o pânico podem ser mais assustadores do que a própria epidemia." É o que defende o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, em relação ao coronavírus. Em entrevista exclusiva ao Estado, ele comentou, por e-mail, as ações que estão sendo feitas pelo país para conter a expansão da epidemia, que já matou 1.426 pessoas na China. Foram confirmados 51.986 casos de infecção no país.

O embaixador criticou a adoção de medidas restritivas por parte dos Estados Unidos e disse que espera que a sociedade brasileira reaja à epidemia com calma e evite qualquer reação agressiva contra os cidadãos chineses.

O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, pede calma sobre a epidemia de coronavírus: "Os rumores e o pânico podem ser mais assustadores do que a própria epidemia", diz
O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, pede calma sobre a epidemia de coronavírus: "Os rumores e o pânico podem ser mais assustadores do que a própria epidemia", diz
Foto: Embaixada da República Popular da China no Brasil / Divulgação / Estadão

"É lamentável ver que alguns países, como os Estados Unidos, tenham aplicado medidas excessivamente restritivas. O objetivo disso só pode ser aumentar a tensão e até mesmo criar pânico, o que é mais preocupante do que a doença em si e contraria as recomendações da OMS. Na era da globalização, os destinos das nações estão intimamente ligados. Na resposta a uma crise da saúde pública, os países devem manter-se objetivos, justos e racionais, reforçar a comunicação e a coordenação e desempenhar um papel construtivo, em vez de que criar dificuldades para todos ou tirar proveito do problema", afirmou. Só os EUA adoraram medidas restritivas.

Para ele, a China estabeleceu um novo padrão de resposta a surtos epidêmicos "que merece o apreço dos outros e serve como experiência". Confira a seguir a entrevista na íntegra.

A velocidade de transmissão do novo coronavírus é muito maior do que a do vírus da SARS. O senhor acha que isso se deve apenas às características do novo vírus ou também ao fato de, hoje, a China ter uma população maior, mais urbanizada e mais rica, o que favorece um maior contato entre as pessoas e um número maior de deslocamentos e viagens?

De acordo com estudos epidemiológicos, a propagação deste novo coronavírus deve-se, principalmente, a sua forte capacidade de transmissão entre humanos. Além disso, a multiplicação deste vírus é muito mais rápida que a do vírus da SARS: o tempo de duplicação do coronavírus da SARS era de nove dias, enquanto este novo tipo leva apenas seis dias para ter uma nova geração. Isso também contribuiu para um crescimento mais veloz dos casos de infecção. Outro fato é que o início do surto coincidiu com as vésperas do feriado do Ano Novo Chinês. O maior movimento de pessoas levou a uma disseminação mais rápida e a um impacto mais amplo. Contudo, a letalidade do novo coronavírus é muito inferior à da SARS. Em vista disso, o governo chinês decidiu de imediato bloquear a cidade de Wuhan, epicentro do surto, para controlar a propagação. É de imaginar como está sendo difícil e complicado colocar em quarentena uma cidade inteira de mais de dez milhões de habitantes e ainda garantir o funcionamento eficaz do sistema de saúde e o abastecimento da população. Isso requer uma grande responsabilidade.

Como as embaixadas chinesas em todo o mundo estão participando dessa emergência em saúde?

Em cada etapa da evolução do surto da pneumonia, o governo chinês vem adotando uma atitude aberta, transparente e responsável, sobretudo na sua cooperação internacional. Com o máximo grau de abertura e a maior eficiência, notificou, na primeira hora, a Organização Mundial de Saúde sobre o evento e compartilhou informação técnica e a sequência do genoma completo de uma parte da cepa. No que se refere especificamente às missões diplomáticas da China no exterior, nosso trabalho de prevenção e controle gira em torno de dois aspectos: em primeiro lugar, emitimos alertas consulares para os cidadãos e a comunidade, divulgando amplamente os conhecimentos sobre a prevenção da doença para evitar sua propagação. Pedimos que os cidadãos residentes e expatriados recém-retornados da China observem as medidas de inspeção ao desembarcar e façam uma quarentena voluntária. Em segundo lugar, mantemos um estreito contato com os governos dos países onde estamos credenciados, informando sobre o desenrolar da epidemia e as medidas tomadas pela China. Além disso, prestamos toda a assistência necessária conforme as circunstâncias e demandas específicas desses países para prevenir a disseminação da doença. É exatamente o que a Embaixada da China no Brasil está fazendo também. Montamos um mecanismo de trabalho que funciona 24 horas por dia em conexão com autoridades como o Itamaraty, o Ministério da Saúde, a Polícia Federal e a alfândega, a fim de divulgar prontamente informações oficiais e colaborar com a parte brasileira nas ações de prevenção e controle, assim como eliminar os rumores e evitar o pânico. Ao mesmo tempo, a embaixada mantém contato direto com as empresas, a comunidade e os estudantes da China no Brasil, oferecendo-lhes ajuda e orientação.

Apesar dos esforços do governo chinês para a contenção do surto, como o isolamento de cidades, investimentos em pesquisas e construção veloz de hospitais, o número de casos e mortes pela doença continua aumentando de forma significativa dia a dia. A velocidade de propagação do vírus surpreendeu as autoridades chinesas?

Nos últimos dias, o número de casos confirmados cresceu bastante. Mas não vejo motivo para pânico. De acordo com especialistas chineses e internacionais, a razão disso não é uma propagação mais rápida, mas a maior capacidade de detecção do vírus, ou seja, a detecção ficou mais rápida e alcançou uma cobertura maior, o que encurtou o prazo da confirmação dos casos suspeitos. Por outro lado, a província de Hubei, cuja capital é Wuhan, concentra quase 65% dos casos confirmados na China, e 95% dos óbitos, enquanto a mortalidade nas outras províncias é de aproximadamente 0,2%, não mais do que uma gripe. Segundo as estatísticas da OMS, os casos fora da China representam menos de 1% do total, isso também confirma que são eficazes as medidas rigorosas que a China tomou. Vale lembrar que mais de 6 mil casos já foram curados na China e esse número vem crescendo diariamente, indicando que os tratamentos estão dando resultado. Embora o surto ainda esteja em fase de propagação, os trabalhos de prevenção da epidemia na China estão sendo implementados de forma científica e ordenada e, em geral, a doença é controlável e tratável. O governo e o povo chineses têm plena determinação, confiança e capacidade de conter a epidemia e vencê-la o mais rapidamente possível.

Que outras medidas o governo central da China pretende adotar para minimizar os danos desse surto e tentar conter a propagação do vírus?

Combater o surto do novo coronavírus é a tarefa primordial do governo chinês neste momento. O presidente Xi Jinping está pessoalmente no comando dos trabalhos nesse sentido. Em tempo extremamente curto, foi montado um sistema multidimensional e de abrangência nacional, foram mobilizadas todas as forças da sociedade e implementadas as ações mais rigorosas e minuciosas. Atualmente, concentramos todos os recursos e recorremos a todos os meios para cortar a cadeia de contágio do vírus e conter a propagação da epidemia. Ao coordenar os recursos de saúde em todo o país para tratar os pacientes, estamos também acelerando a pesquisa de vacina e medicamentos para a doença.

A cidade de Wuhan registrou os primeiros casos de pneumonia de causa desconhecida no início de dezembro, mas a OMS só recebeu a notificação do governo chinês sobre a doença no dia 31 de dezembro. Por que o governo esperou tantos dias para fazer a notificação aos organismos internacionais?

Não houve um atraso intencional da notificação, o fato é que, perante uma doença de causa desconhecida, é necessário algum tempo para observar a evolução do quadro, a fim de chegar a uma conclusão científica e precisa e evitar alarmes falsos que causariam um pânico desnecessário. Na realidade, passaram só quatro dias. Desde 29 de dezembro de 2019, os departamentos de saúde da Província Hubei e da cidade Wuhan receberam os relatórios sobre casos agregados de pneumonia de causa desconhecida, até 3 de janeiro de 2020, e as informações relevantes foram notificadas à OMS e aos países relacionados. E a China levou apenas menos de duas semanas desde o surto até determinar a sequência do gene viral e compartilhá-la com o mundo. A China notificou a OMS na primeira hora e sempre com a máxima abertura e a maior eficácia.

Alguns países criticaram o governo chinês alegando falta de transparência na divulgação dos dados e excessivo controle governamental sobre as informações referentes às cidades atingidas pela epidemia. O senhor acha que o governo chinês poderia ser mais transparente quanto às informações do surto?

Estas críticas são infundadas. Em cada etapa da evolução do surto, o governo chinês sempre adotou uma atitude de abertura, transparência e responsabilidade e foi proativo na sua cooperação internacional. Notificou, na primeira hora, a OMS sobre o evento e compartilhou informação técnica e a sequência do genoma completo de uma parte da cepa. Essa medida foi altamente apreciada por muitos países e pela própria OMS. Como declarou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, em várias ocasiões, foi impressionante a rapidez com que a China identificou o surto, isolou o vírus, obteve sua sequência genética e compartilhou-a com a OMS e outros países. Também foram impressionantes a abertura e a transparência da China, assim como sua determinação de dar apoio aos demais países. Isso afirma o grande compromisso da China não só com a vida e a saúde do seu próprio povo, mas também com a prevenção e o controle da epidemia no mundo. Segundo ele, o que a China estabeleceu é um novo padrão de resposta a surtos epidêmicos, que merece o apreço dos outros e serve como experiência.

De que forma o senhor vê a decisão de países como Estados Unidos e Austrália de proibir a entrada de chineses e outros estrangeiros procedentes da China?

Preocupado com a segurança e a saúde da sua população, o governo chinês adotou as mais rigorosas e abrangentes medidas de prevenção e controle, que foram além das recomendações da OMS e das exigências do Regulamento Sanitário Internacional. Tanto a OMS como a Organização Internacional da Aviação Civil expressaram claramente que não recomendam e até desaprovam a restrição do comércio e da movimentação de pessoas com origem ou destino na China. Afirmaram, repetidas vezes, que as medidas tomadas pela China são eficazes e têm toda confiança de que o País vencerá essa batalha. Sugeriram manter a calma na situação atual sem necessidade de reações desproporcionais. A grande maioria dos países, como o Brasil, seguiu essas recomendações e adotou medidas adequadas, o que respeitamos e compreendemos. No entanto, é lamentável ver que alguns países, como os Estados Unidos, tenham aplicado medidas excessivamente restritivas. O objetivo disso só pode ser aumentar a tensão e até mesmo criar pânico, o que é mais preocupante do que a doença em si e contraria as recomendações da OMS. Na era da globalização, os destinos das nações estão intimamente ligados. Na resposta a uma crise da saúde pública, os países devem manter-se objetivos, justos e racionais, reforçar a comunicação e a coordenação e desempenhar um papel construtivo, em vez de que criar dificuldades para todos ou tirar proveito do problema.

E quanto aos países que repatriaram seus cidadãos da região de Wuhan? O governo chinês vem colaborando com esses países e autorizando a saída das aeronaves. Mas o senhor acha que a evacuação é uma boa medida para esses países ou pode aumentar o risco de expansão global do vírus?

A parte chinesa respeita os pedidos da repatriação apresentados pelos países e prestou toda a assistência e facilidade necessárias. A decisão está em conformidade com as práticas internacionais e a repatriação deve ser feita de acordo com os protocolos de quarentena. Até onde sei, todos os países que retiraram seus cidadãos tomaram providências para monitorar o estado de saúde dos repatriados e colocá-los em isolamento ao desembarcar.

Como o senhor viu a decisão do governo brasileiro de também repatriar seus cidadãos de Wuhan?

Respeitamos e compreendemos a decisão do governo brasileiro e estamos dispostos a oferecer a colaboração e a assistência necessárias de acordo com a praxe internacional e as exigências de quarentena.

O senhor acredita que a decisão do Brasil de repatriar seus cidadãos pode abalar a boa relação diplomática que existe entre os dois países?

De forma alguma. Neste momento, chineses e brasileiros são todos gente comum e companheiros de luta diante da epidemia. Além de colaborar para a repatriação pela parte brasileira, a parte chinesa assegura também a segurança e a saúde dos cidadãos brasileiros que optaram por permanecer na China. Ao mesmo tempo, estamos dispostos a cooperar com o Brasil na troca de experiências, pesquisas conjuntas e outras formas de combater a doença e superar as dificuldades.

Quantos cidadãos chineses vivem atualmente no Brasil? A Embaixada da China já recebeu relatos no Brasil de chineses que sofreram algum tipo de discriminação em território brasileiro por causa do surto de coronavírus? Como a embaixada vê o crescimento de manifestações preconceituosas contra imigrantes orientais por causa do surto?

Mais de 300 mil chineses vivem no Brasil. Até o momento, a embaixada não recebeu nenhum relato de tratamento injusto, mas vimos reportagem de casos pontuais na imprensa local. Acredito que esses casos não representam a opinião pública da sociedade em geral. Na verdade, os ministérios da Saúde e das Relações Exteriores do Brasil manifestaram alto apreço pelos trabalhos realizados pela China. A embaixada e eu pessoalmente também recebemos mensagens de solidariedade dos amigos brasileiros, expressando sua confiança e convicção de que a China vencerá essa luta. Aproveito para agradecer a todos pela amizade de estar conosco neste tempo de adversidade. Gostaria de salientar que os rumores e o pânico podem ser mais assustadores do que a própria epidemia. Com sua experiência bem sucedida de combate à zika e à dengue, acho que o Brasil sente isso na pele mais do que ninguém. Espero, também, que a sociedade brasileira encare a epidemia com calma e evite qualquer reação agressiva contra os cidadãos chineses.

Quanto à morte do dr. Li Wenliang, o que o governo chinês deverá fazer sobre o caso? Alguma investigação será aberta ou alguma punição será aplicada?

Lamentamos o falecimento do dr. Li Wenliang na luta contra o Covid-19. A Comissão Nacional de Supervisão da China anunciou que enviará uma equipe de investigação a Wuhan para investigar as questões relacionadas.

Estadão
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