Por que o merthiolate e o mercúrio foram proibidos em muitos países?
Descubra por que muitos países proibiram mercúrio e merthiolate em feridas de bebês, seus riscos tóxicos e alternativas seguras atuais
Durante boa parte do século XX, o mercúrio e produtos à base de merthiolate eram presença constante em farmácias e casas de família. Eram aplicados em pequenos cortes, arranhões e feridas de bebês e crianças, quase como um cuidado de rotina. Com o passar dos anos, porém, pesquisas científicas começaram a apontar riscos importantes associados ao uso contínuo dessas substâncias, o que levou muitos países a restringirem ou proibirem sua utilização em produtos de uso tópico, sobretudo em recém-nascidos e crianças pequenas.
A mudança não ocorreu de forma repentina. Ela foi resultado de uma soma de fatores: maior conhecimento sobre a toxicidade do mercúrio, revisão de normas sanitárias, disponibilidade de antissépticos mais seguros e atenção crescente à saúde infantil. Assim, aquilo que era visto como um cuidado tradicional passou a ser reavaliado à luz de estudos mais recentes e de critérios de segurança mais rigorosos.
Por que o mercúrio é considerado perigoso para a saúde?
A palavra-chave central desse tema é mercúrio, um metal pesado que, em determinadas formas químicas, pode ser altamente tóxico para o organismo humano. Em adultos, a exposição excessiva pode causar alterações neurológicas, renais e problemas no sistema imunológico. Em bebês e crianças, os riscos são ainda maiores, porque o sistema nervoso central está em desenvolvimento e é mais sensível a substâncias tóxicas. Mesmo em pequenas quantidades, a exposição prolongada pode trazer consequências de longo prazo.
O problema se agrava quando o mercúrio está presente em compostos que permanecem em contato com a pele ou mucosas. Em produtos antigos de uso tópico, parte do mercúrio podia ser absorvida pelo organismo, especialmente em peles mais finas, como a de recém-nascidos. Por isso, agências regulatórias passaram a considerar que o potencial de dano, somado ao uso repetido, superava os eventuais benefícios, principalmente quando existiam alternativas mais seguras no mercado.
Qual é a relação entre merthiolate e mercúrio?
O merthiolate clássico, usado nas décadas passadas, continha um composto chamado timerosal, que é um derivado orgânico do mercúrio. Esse produto era utilizado como antisséptico para desinfecção de feridas e cortes superficiais. Na época, era valorizado pela praticidade e pela sensação de que "ardia e limpava bem", o que reforçava a percepção de eficácia. Com o avanço da toxicologia, no entanto, a presença de mercúrio na fórmula começou a ser vista como um ponto crítico.
Em muitos países, incluindo o Brasil, versões antigas do merthiolate foram reformuladas, justamente para retirar o mercúrio da composição. Em diversos lugares, o nome comercial até permaneceu, mas o conteúdo mudou, passando a utilizar outros princípios ativos antissépticos, como clorexidina ou iodopovidona. Em outros mercados, produtos com timerosal para uso direto na pele foram restringidos ou deixaram de ser fabricados, seguindo orientações de órgãos de saúde internacionais. Em alguns rótulos mais recentes, costuma-se destacar que se trata de "Merthiolate sem mercúrio" ou "nova fórmula", para diferenciar claramente das formulações antigas.
Por que tantos países proibiram mercúrio e merthiolate em feridas de bebês?
A proibição ou restrição ao uso de mercúrio e merthiolate em feridas de bebês não está ligada a um único motivo, mas a um conjunto de preocupações sanitárias. Entre os principais fatores, destacam-se os riscos de toxicidade sistêmica, a sensibilidade da pele infantil, a possibilidade de alergias e a disponibilidade de alternativas mais seguras. Dessa forma, autoridades de saúde passaram a considerar que o uso de compostos mercuriais em crianças pequenas era um risco desnecessário.
- Toxicidade do mercúrio: mesmo em formas orgânicas como o timerosal, o metal pode se acumular no organismo ao longo do tempo.
- Sistema nervoso em desenvolvimento: bebês e crianças pequenas estão em fase crítica de formação cerebral, o que aumenta a vulnerabilidade a metais pesados.
- Pele mais fina e permeável: a barreira cutânea do bebê é menos espessa, facilitando a absorção de substâncias químicas presentes em feridas e na superfície da pele.
- Risco de alergias e irritações: alguns compostos mercuriais podem causar reações alérgicas de contato, com vermelhidão, coceira e piora da lesão.
- Existência de antissépticos mais seguros: produtos sem mercúrio, com eficácia comprovada e menor risco, tornaram o uso de mercúrio desnecessário em cuidados rotineiros.
Com base nesses pontos, vários países optaram por medidas como proibir a fabricação de antissépticos com mercúrio, limitar sua venda, ou restringir o uso para aplicações muito específicas, sob supervisão profissional. No caso de produtos voltados para o cuidado de feridas em bebês, a orientação foi migrar para fórmulas sem compostos mercuriais.
Como a legislação e as normas sanitárias mudaram ao longo do tempo?
Ao longo das últimas décadas, organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências reguladoras nacionais, passaram a revisar de forma sistemática o uso do mercúrio em produtos médicos, cosméticos e farmacêuticos. Em 2013, por exemplo, foi assinada a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado global que buscou reduzir e, quando possível, eliminar o uso desse metal em diversas atividades. A partir daí, muitos países reforçaram políticas de restrição ao mercúrio em produtos de consumo.
Na prática, essas mudanças legais atingiram principalmente itens de uso cotidiano, nos quais a exposição poderia ser crônica e sem necessidade real, como pomadas, antissépticos tópicos e alguns cosméticos. A prioridade passou a ser a redução de fontes de exposição, especialmente em grupos considerados mais vulneráveis: gestantes, bebês e crianças. Assim, o merthiolate com mercúrio, que antes era rotina em pequenos machucados, deixou de fazer parte das recomendações modernas de primeiros socorros. Hoje, quando o nome merthiolate ainda aparece em prateleiras, costuma se referir a versões reformuladas, sem mercúrio, alinhadas às normas atuais.
Quais alternativas ao mercúrio são utilizadas atualmente?
Com a retirada progressiva do mercúrio de antissépticos de uso caseiro, outros ingredientes passaram a ocupar esse espaço. Antissépticos sem mercúrio, com base em substâncias como clorexidina, iodopovidona e alguns tipos de álcool, tornaram-se mais comuns em farmácias e kits de primeiros socorros. Esses produtos buscam oferecer ação antimicrobiana eficaz, com menor risco de absorção tóxica e de efeitos adversos em crianças.
- Clorexidina: usada em soluções aquosas ou alcoólicas, com aplicações em cuidados de feridas e higienização da pele.
- Iodopovidona: antisséptico amplamente utilizado em ambientes hospitalares e também em uso doméstico, desde que respeitadas as orientações de uso.
- Produtos sem álcool para bebês: algumas fórmulas infantis evitam álcool e corantes, focando em ingredientes mais suaves e com menor potencial irritativo.
Além dos antissépticos modernos, orientações de profissionais de saúde enfatizam práticas simples, como lavar a região com água e sabão neutro e manter a ferida limpa e seca. Essa abordagem, combinada ao uso criterioso de produtos sem mercúrio, reflete a tendência atual de priorizar segurança e eficácia com o menor risco possível, especialmente quando se trata de cuidados com a pele sensível de bebês e crianças. Assim, o antigo merthiolate com mercúrio dá lugar a uma gama de opções mais seguras, adequadas ao conhecimento científico e às normas sanitárias vigentes.