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Por que colocar DIU dói? Pesquisa revela que desconforto é maior do que o previsto

Dor pode ser leve, moderado ou intenso e o incômodo está relacionado à vários fatores, inclusive ao psicológico

14 jul 2026 - 04h59
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Dispositivo intrauterino (DIU)
Dispositivo intrauterino (DIU)
Foto: Lalocracio / Getty Images

O título desta matéria não é à toa: muitas de nós, ao escolher o dispositivo intrauterino (DIU) como método contraceptivo, já se perguntou se dói colocá-lo e o porquê dessa dor. Em conversa com o Terra, o médico e professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Luis Bahamondes lista alguns passos até a colocação do DIU, e é justamente isso que causa esse incômodo leve, moderado ou intenso. Além disso, há também o fator psicológico. 

São eles: 

  • Realização do toque vaginal;
  • Colocação do espéculo ginecológico (conhecido também como bico de pato) - que auxilia visualização direta do colo do útero e do canal vaginal;
  • Limpeza do colo do útero com anticéptico;
  • Fixação do útero, pegando o colo com uma pinça; 
  • Passar o histerômetro - uma espécie de ‘varinha’ para medir o útero;
  • Colocação do DIU. 

Tudo isso leva cerca de 5 minutos, mas é incômodo, e desde a década de 1960 essa dor já é abordada, conforme explica o professor. No entanto, uma pesquisa realizada no Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (Caism), da Unicamp, na qual Bahamondes é co-orientador, revelou que 81% das mulheres que optam por esse método experimentam dor moderada ou intensa. 

O que é novo é que esse número é mais de 16 vezes maior do que o estimado pelo manual técnico do Ministério da Saúde, que aponta que menos 5% das inserções têm esse nível de desconforto. Para esse resultado, foram analisadas 7.259 inserções de DIU, entre 2022 e 2024, em um serviço público de referência em Campinas (SP). 

O DIU hormonal não bloqueia a ovulação e, ao liberar progesterona no útero, impede que o espermatozoide chegue até o óvulo.
O DIU hormonal não bloqueia a ovulação e, ao liberar progesterona no útero, impede que o espermatozoide chegue até o óvulo.
Foto: Wikimedia Commons / Estadão

A pesquisa resultou na publicação do artigo Dor na inserção de DIU em um centro brasileiro, publicado no jornal científico International Journal of Gynecology and Obstetrics, derivado da tese de mestrado da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi, mestra em Saúde Reprodutiva e Sexual pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido. Além dos dois, também participaram Cássia Juliato, titular do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade, e a professora Judith Lieber, em Londres. 

Reconhecimento da dor e melhor manejo

O que se busca com esses dados é reforçar o debate acerca do reconhecimento da dor associada ao procedimento e ampliar estratégias adequadas de manejo oferecido às pacientes que optam pelo DIU. E com isso, claro, viabilizar uma possível adequação do manual técnico do MS. E isso também inclui, por exemplo, diminuir a ansiedade durante o atendimento. 

“Já se tem testado de tudo, até Florais de Bach ou música no consultório como uma forma de reduzir a ansiedade. Nós estamos escrevendo um artigo neste momento onde testamos um novo instrumento que se chama Carevix, como um pequeno instrumento para fixar o útero sem utilizar a pinça que tem dentro. A dor é menor, significativamente menor. Entretanto, não é zero”, explica. 

Ele aponta que, embora já seja aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ainda não é comercializado. O especialista atribui isso ao fato da prevalência do uso de DIU no Brasil ser muito baixa se comparada à pílula anticoncepcional --4% das pessoas recorrem ao método, enquanto aproximadamente 40% usam as pílulas--, não devido à dor, mas pela falta de treinamento de médicos e profissionais para fazer o procedimento e também falta de política robusta de planejamento familiar. 

Foto: Divulgação

“O DIU deveria estar nas mãos não só da ginecologista, deveria estar nas mãos dos médicos de família, dos enfermeiros ou enfermeiras”, aponta. Ele também exemplifica o estigma com relação ao uso do método, como a falácia de que o método deixa mulheres inférteis. 

DIU hormonal ainda não é uma realidade na maior parte da rede pública do Brasil

Embora o DIU hormonal apresente eficácia contraceptiva ligeiramente superior ao de cobre --taxa de falha de 2 a cada mil mulheres e de uma a cada cem, respectivamente--, ele ainda não está amplamente disponível na rede pública de saúde no Brasil. O de cobre, por sua vez, é oferecido em grande parte das unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), porém a utilização de anestésico local durante sua inserção não faz parte da rotina das Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

Além disso, apenas cerca de 20% das UBSs realizam a inserção do dispositivo, sendo necessário agendamento prévio, que pode levar meses. Em contrapartida, centros de referência, como a Unicamp, oferecem a inserção do DIU sem necessidade de agendamento e, em alguns casos, utilizam anestésico local e anti-inflamatórios para proporcionar maior conforto às pacientes. Na rede privada, o uso de anestésicos durante o procedimento também é mais frequente.

Já a inserção do DIU sob sedação requer internação em centro cirúrgico, o que eleva os custos do procedimento e limita sua viabilidade para oferta em larga escala na rede pública, conforme explica Bahamondes. Ele também cita os riscos para a paciente, como a de perfuração uterina. 

Apenas 4% das pessoas recorrem ao DIU, enquanto aproximadamente 40% utilizam pílulas anticoncepcionais
Apenas 4% das pessoas recorrem ao DIU, enquanto aproximadamente 40% utilizam pílulas anticoncepcionais
Foto: Divulgação/Unicamp

“Como a mulher não tem dor, não sente nada, não se queixa se você perfurar, não tem como você perceber”, exemplifica. Então, ele traz para discussão a necessidade do acolhimento dessa paciente. “Tem a palavra no México que é apapachar, que significa pegar a mão da paciente, conversar, acalmar. Isso resolve muitos casos”, diz. 

O DIU é seguro

Por fim, é importante destacar que o DIU é um método contraceptivo utilizado no Brasil há mais de 50 anos e é extremamente seguro, conforme aponta o co-orientador. 

“Colocar DIU é um procedimento, por dizer assim, menor dentro da medicina. Que, ao mesmo tempo, é um procedimento que provoca dor, apesar de que não queremos que isto seja, o mais importante a dizer é que embora as mulheres se queixam de dor, quando você pergunta no dia seguinte ou terminado o procedimento, você colocaria de novo, sabendo como é, a imensa maioria te diz sim. Quer dizer que estão felizes com o resultado”, finaliza.

Fonte: Portal Terra
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