O filho vem primeiro: o que a ida de Cucurella ao Real Madrid revela sobre o autismo
Marc Cucurella está na Copa do Mundo defendendo a seleção da Espanha. Mas um dos assuntos que mais chamou atenção fora de campo foi o motivo que pesou na decisão de aceitar a proposta do Real Madrid. Uma das primeiras preocupações não foi o salário, o contrato nem a oportunidade de vestir a camisa de […]
Marc Cucurella está na Copa do Mundo defendendo a seleção da Espanha. Mas um dos assuntos que mais chamou atenção fora de campo foi o motivo que pesou na decisão de aceitar a proposta do Real Madrid.
Uma das primeiras preocupações não foi o salário, o contrato nem a oportunidade de vestir a camisa de um dos maiores clubes do mundo.
Antes de tomar a decisão, ele e a família precisavam ter certeza de que o filho Mateo, diagnosticado com autismo, encontraria em Madri escolas e terapias capazes de atender às suas necessidades.
A escolha chamou atenção porque revelou uma realidade vivida por milhares de famílias. Depois do diagnóstico de autismo, decisões sobre trabalho, moradia e até mudanças de cidade passam a considerar, antes de tudo, o acesso ao atendimento especializado.
Foi justamente esse cenário que Cucurella descreveu em entrevista ao programa Radioestadio Noche, da rádio espanhola Onda Cero, ao explicar por que a estrutura oferecida pela capital espanhola pesou na decisão de aceitar a proposta do Real Madrid.
Escolas e terapias pesaram na decisão de Marc Cucurella
Desde que o filho recebeu o diagnóstico de autismo, após a mudança da família para Londres, onde Marc Cucurella defendia o Chelsea, escolas e terapias passaram a ser um dos principais critérios antes de qualquer mudança de cidade.
"Tiveram equipes interessadas, mas sempre buscávamos primeiro se havia colégios ou terapias para ele. É uma coisa principal e super importante. Por sorte, em Madri tem tudo e estaremos muito bem servidos lá", afirmou.
Segundo o lateral espanhol, essa prioridade passou a orientar qualquer decisão envolvendo uma mudança.
"Hoje em dia não iríamos para uma equipe onde não tivesse colégios ou algo que nosso filho se adaptasse a ele, porque é uma coisa da nossa vida. E o mais importante, mais que o futebol. O mais importante é a família estar bem, que esteja adaptada", acrescentou.
Depois do diagnóstico, a vida costuma mudar de direção
Quando uma criança recebe o diagnóstico de autismo, é comum que a rotina da família passe por uma profunda reorganização.
Horários, orçamento, deslocamentos e até planos profissionais podem ser adaptados para garantir acesso às terapias, à escola e ao acompanhamento especializado.
Em muitos casos, isso significa rever projetos de vida, mudar de bairro ou até de cidade.
Para Natália Lopes, mãe atípica, empresária e fundadora da plataforma Voz das Mães, essa transformação começa logo após o diagnóstico.
"Quando recebemos o diagnóstico de um filho, nossa escala de prioridades muda completamente. O emprego, a casa, a cidade onde moramos e até nossos sonhos passam a ser reorganizados em função do acesso às terapias, à escola inclusiva e aos profissionais que podem favorecer o desenvolvimento da criança. O caso do Cucurella mostra que essa realidade não escolhe classe social nem profissão. O que muda é a possibilidade de acesso", afirma Natália.
Além da busca por atendimento, ela lembra que muitas famílias enfrentam um período marcado por dúvidas e insegurança.
"Uma mãe recebe o diagnóstico e, junto com ele, chegam dezenas de dúvidas, medo e uma enorme sensação de solidão. Informação confiável e uma rede de apoio fazem toda a diferença para que essa família consiga tomar decisões mais seguras e menos dolorosas", acrescenta.
Por que começar o acompanhamento cedo pode fazer diferença?
Os primeiros anos de vida representam uma fase importante para o desenvolvimento infantil.
Quando as necessidades da criança são identificadas precocemente, aumenta a oportunidade de planejar intervenções adequadas ao seu perfil e estimular habilidades importantes para o dia a dia.
A neuropsicopedagoga e especialista em autismo Silvia Kelly Bosi explica que esse acompanhamento deve ser individualizado.
"A intervenção precoce aproveita a grande capacidade de adaptação do cérebro na infância. Quanto mais cedo identificamos as necessidades da criança e iniciamos um plano terapêutico individualizado, maiores são as oportunidades de desenvolver comunicação, autonomia, interação social e habilidades para a vida diária", explica Silvia.
Ela ressalta que não existe uma terapia única capaz de atender todas as crianças.
"O tratamento precisa ser construído de forma personalizada, respeitando o perfil de desenvolvimento, as potencialidades e os desafios de cada criança. Da mesma forma, a escola exerce um papel fundamental. Não basta estar matriculado; é preciso que exista inclusão verdadeira, profissionais preparados e um ambiente que favoreça a aprendizagem", destaca.
Autismo / Marc Cucurella durante partida pela seleção da Espanha e, ao lado, com a família. Na imagem, o jogador segura o filho Mateo, diagnosticado com autismo. Crédito: Tribuna.com
Cuidar da família também faz parte do processo
O impacto do diagnóstico não se limita à criança.
Pais e cuidadores também precisam de orientação para compreender melhor o desenvolvimento do filho e aprender estratégias que possam ser incorporadas à rotina da casa.
Esse apoio também contribui para que a família participe de forma mais ativa do acompanhamento da criança.
"Quando pais e cuidadores recebem orientação, compreendem melhor o desenvolvimento da criança e aprendem estratégias para estimular habilidades no dia a dia, toda a família passa a participar do processo terapêutico. Isso reduz a sobrecarga emocional e fortalece o desenvolvimento infantil", observa Silvia Kelly Bosi.
Na avaliação de Natália Lopes, acolher a família também faz parte do cuidado.
"Não é apenas a criança que precisa de cuidado. A família inteira passa por uma transformação. Quando existe informação, orientação e apoio, conseguimos substituir o medo pelo planejamento e enxergar possibilidades onde antes existiam apenas incertezas", afirma.
O caso de Cucurella ajuda a ampliar a discussão sobre o autismo
Ao tornar pública a forma como a família tomou uma das decisões mais importantes da carreira, Marc Cucurella acabou dando visibilidade a uma realidade compartilhada por milhares de pais.
Para Silvia Kelly Bosi, quando pessoas conhecidas falam abertamente sobre o autismo, contribuem para reduzir preconceitos e incentivar outras famílias a buscar orientação.
"Quando uma personalidade pública fala abertamente sobre o autismo do filho, contribui para reduzir preconceitos e mostra que buscar terapias, adaptar rotinas e priorizar o desenvolvimento da criança não é motivo de vergonha, mas um ato de cuidado. Essa visibilidade pode incentivar outras famílias a procurarem diagnóstico, intervenção precoce e os direitos garantidos por lei", conclui Silvia Kelly Bosi.
A história do jogador espanhol mostra que algumas decisões parecem falar apenas de futebol.
Na prática, porém, elas também revelam o que acontece longe dos estádios. Quando há uma criança com autismo na família, encontrar uma escola preparada, acesso às terapias e uma rede de apoio pode pesar mais do que qualquer oportunidade profissional.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.