Homem trans é o primeiro a dar à luz em hospital da rede pública da Paraíba
O nascimento da pequena Iara entrou para a história da saúde pública da Paraíba. Daniel Valentim, homem trans, tornou-se o primeiro a dar à luz em uma unidade da rede estadual.
O nascimento da pequena Iara entrou para a história da saúde pública da Paraíba. Daniel Valentim, homem trans e estudante de Agronomia, tornou-se o primeiro a dar à luz em uma unidade da rede estadual, após uma gestação marcada por desafios físicos, emocionais e episódios de preconceito.
Morador de Esperança, no Agreste paraibano, Daniel precisou interromper a terapia hormonal para realizar o sonho de formar uma família ao lado da esposa, Gisele Castro, que também é trans. A gravidez foi considerada de alto risco devido a um diagnóstico de trombose e terminou com o parto realizado no Hospital da Mulher, em João Pessoa.
Ao longo da gestação, Daniel conta que enfrentou um dos momentos mais difíceis da transição. A suspensão dos hormônios provocou mudanças corporais que desencadearam episódios intensos de disforia de gênero.
"Eu não conseguia me olhar no espelho. Via meu quadril alargando, o peito crescendo e a barriga aumentando. Sempre repetia para mim mesmo que tudo aquilo era pela minha filha", relatou.
Gisele também precisou interromper o tratamento hormonal, realizado havia mais de 15 anos. Segundo ela, o acompanhamento médico permitiu reverter temporariamente as alterações reprodutivas para que o casal pudesse engravidar.
A primeira tentativa ocorreu em 2022, mas foi interrompida pelo impacto emocional causado pelas transformações físicas. Em 2025, eles decidiram tentar novamente e a gravidez aconteceu logo nos primeiros meses.
A confirmação veio de forma inesperada. Daniel realizou um teste de farmácia antes da esposa e preparou uma surpresa com um pacote de fraldas e o exame positivo.
Atendimento especializado
Embora o pré-natal tenha começado em Campina Grande, o casal optou por concluir o acompanhamento no Hospital da Mulher, na capital paraibana. A escolha ocorreu após descobrirem que a unidade já possuía experiência no atendimento à população trans.
Com apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais Fernanda Benvenutty, a transferência foi realizada no oitavo mês de gestação.
Segundo Daniel, o acolhimento recebido pela equipe médica foi determinante para que o parto acontecesse com segurança e respeito.
Preconceito durante a gravidez
Além das dificuldades relacionadas à saúde, Daniel afirma que precisou lidar com situações de discriminação em espaços públicos durante toda a gestação.
Mesmo diante do preconceito, ele diz que a expectativa pela chegada da filha serviu como motivação para enfrentar os meses mais difíceis.
Família e representatividade
Hoje, o casal acredita que a própria história ajuda a ampliar o debate sobre diversidade e parentalidade. Para Gisele, o nascimento de Iara mostra que amor, cuidado e responsabilidade são os pilares de qualquer família, independentemente da identidade de gênero dos pais.
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