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Por que algumas cirurgias no cérebro são feitas com o paciente acordado?

Cirurgia cerebral com paciente acordado: entenda por que o cérebro não sente dor, como o paciente participa e os riscos e benefícios

30 jan 2026 - 10h31
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Em algumas salas de cirurgia, especialmente em grandes centros neurológicos, uma cena chama atenção: o paciente está acordado enquanto os médicos operam o cérebro. A imagem costuma gerar estranhamento, mas esse tipo de procedimento, conhecido como cirurgia cerebral com o paciente acordado, faz parte da rotina de muitos serviços de neurocirurgia em 2025. A prática é cercada de cuidados e segue protocolos rígidos, com o objetivo principal de preservar funções essenciais, como fala, movimento e memória.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, a pessoa não sente dor no cérebro durante a operação. O que exige mais explicação não é apenas a tecnologia envolvida, mas a própria forma como o sistema nervoso funciona. Entender por que o cérebro não sente dor e como isso é usado a favor do tratamento ajuda a tornar o tema menos misterioso e mais compreensível para o público em geral.

Por que o cérebro não sente dor durante a cirurgia?

A palavra-chave para entender essas cirurgias é cérebro não sente dor. O tecido cerebral em si não possui receptores de dor, chamados de nociceptores. Isso significa que, quando o cirurgião manipula diretamente o córtex ou estruturas internas do encéfalo, não há a sensação dolorosa típica que ocorre em cortes na pele ou em músculos. A dor associada a problemas neurológicos, como enxaqueca ou neuralgia, vem de vasos sanguíneos, meninges e nervos, não do cérebro propriamente dito.

Durante a cirurgia, a equipe médica anestesia completamente o couro cabeludo, os músculos e o osso do crânio, que são estruturas sensíveis. A abertura do crânio é feita com o paciente sedado ou sob anestesia geral parcial, e apenas depois dessa etapa a equipe reduz a sedação para que o indivíduo possa despertar, já com a região protegida e sem dor. Assim, a intervenção acontece em um ambiente controlado, em que desconfortos são monitorados e tratados em tempo real.

O cérebro não sente dor. Essa característica do sistema nervoso permite que médicos operem áreas sensíveis enquanto o paciente conversa e realiza tarefas durante o procedimento – depositphotos.com / ArturVerkhovetskiy
O cérebro não sente dor. Essa característica do sistema nervoso permite que médicos operem áreas sensíveis enquanto o paciente conversa e realiza tarefas durante o procedimento – depositphotos.com / ArturVerkhovetskiy
Foto: Giro 10

Em quais situações a cirurgia com o paciente acordado é indicada?

Os médicos costumam optar pela cirurgia cerebral acordada em casos em que o tumor, lesão ou foco de epilepsia está localizado próximo a áreas consideradas "eloquentes" do cérebro. Essas regiões controlam funções fundamentais, como linguagem, movimentos finos das mãos, deglutição, visão e compreensão de palavras. Em vez de operar com o paciente desacordado e correr o risco de afetar essas funções, a equipe prefere monitorar tudo ao vivo, com a colaboração ativa da pessoa.

Entre as situações mais citadas pelos especialistas estão:

  • Ressecção de tumores cerebrais próximos às áreas da fala ou do movimento;
  • Cirurgia de epilepsia, para remover o foco de crises sem comprometer funções vitais;
  • Implante de eletrodos para estimulação cerebral profunda em alguns casos de Parkinson ou outras doenças do movimento;
  • Correção de malformações ou lesões em regiões críticas do córtex.

Nessas circunstâncias, o fato de o cérebro não sentir dor permite uma abordagem mais precisa, em que cada milímetro conta para manter a qualidade de vida após o procedimento.

Como o paciente participa durante o procedimento?

A participação do paciente não é improvisada. Semanas antes da cirurgia, a equipe multiprofissional — que costuma incluir neurocirurgião, neurologista, anestesista, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e psicólogo — explica cuidadosamente o que vai acontecer. Durante o ato cirúrgico, o paciente é guiado a realizar tarefas específicas, definidas de acordo com a área que será operada.

Entre as atividades mais comuns estão:

  1. Falar palavras ou frases, para testar a fluência e a compreensão;
  2. Reconhecer imagens, cores, objetos ou números exibidos em uma tela;
  3. Mover braços, mãos, pernas ou pés, seguindo comandos simples;
  4. Contar histórias curtas ou repetir sequências de números, para avaliar memória e atenção.

Enquanto isso, o cirurgião estimula pequenas áreas do cérebro com correntes elétricas muito fracas. Se uma região for essencial para uma função, a tarefa pode ficar momentaneamente prejudicada, o que indica que aquele ponto deve ser poupado ao máximo. O diálogo constante com a equipe, em tom calmo e planejado, é parte essencial da segurança.

Acordado, orientado e acompanhado por uma equipe multiprofissional, o paciente se torna parte ativa da cirurgia – depositphotos.com / KostyaKlimenko
Acordado, orientado e acompanhado por uma equipe multiprofissional, o paciente se torna parte ativa da cirurgia – depositphotos.com / KostyaKlimenko
Foto: Giro 10

Quais são os benefícios e os riscos desse tipo de cirurgia?

A principal vantagem da cirurgia com o paciente acordado é aumentar a chance de retirar o máximo possível de um tumor ou foco de epilepsia, preservando funções neurológicas importantes. Na prática, isso pode significar maior controle de crises, redução de sintomas e menor probabilidade de sequelas como dificuldade de falar, de se movimentar ou de executar tarefas do dia a dia. Em muitos casos, a possibilidade de manter atividades profissionais e sociais está diretamente ligada à precisão obtida com esse método.

Entre os benefícios frequentemente citados estão:

  • Mapeamento funcional em tempo real das áreas cerebrais;
  • Planejamento mais seguro da extensão da remoção da lesão;
  • Redução do risco de déficits permanentes de linguagem ou movimento;
  • Adaptação imediata da estratégia cirúrgica conforme a resposta do paciente.

Por outro lado, o procedimento não é isento de riscos. Podem ocorrer crises convulsivas durante o estímulo cerebral, alterações momentâneas de pressão arterial, ansiedade intensa ou desconforto pela posição prolongada. Há ainda os riscos gerais de qualquer cirurgia, como sangramento, infecção e reações à anestesia. Por isso, a indicação é individualizada, e pacientes com determinadas condições psiquiátricas graves, dificuldade de comunicação ou grande instabilidade clínica podem não ser candidatos ideais.

Quais situações reais ajudam a entender essa técnica?

Cenários comuns em grandes hospitais incluem, por exemplo, pessoas com tumores de crescimento lento, que se instalam em áreas ligadas à fala. Em muitos desses casos, o indivíduo chega ao consultório ainda trabalhando, estudando e se comunicando, e um dos objetivos centrais da cirurgia é manter essa rotina o mais preservada possível. A equipe, então, programa uma operação em que o paciente será convidado a nomear figuras, ler frases e conversar enquanto a lesão é removida.

Outro exemplo frequente envolve a epilepsia de difícil controle medicamentoso. Quando exames indicam que o foco das crises está em região delicada, a cirurgia acordada permite delimitar com maior exatidão a área que pode ser retirada sem causar déficits importantes. Em ambos os casos, o ponto em comum é o uso do fato de que o cérebro não sente dor para transformar o paciente em um aliado direto do processo, reduzindo incertezas e aumentando as chances de um resultado funcionalmente mais favorável.

Giro 10
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