Vírus Nipah: como é transmitido? Pode chegar ao Brasil? Quais os sintomas? Tire dúvidas
Autoridades indianas confirmaram dois casos de infecção neste mês
Autoridades sanitárias da Índia confirmaram, no último dia 13, dois casos de infecção pelo vírus Nipah. Duas enfermeiras de um mesmo hospital indiano estão internadas com um quadro de inflamação do cérebro (encefalite) que progrediu rapidamente e insuficiência respiratória.
A infecção, definida pelas autoridades indianas como "altamente fatal, mas de propagação limitada", integra a lista de prioridades da Organização Mundial da Saúde (OMS) por seu potencial de causar uma emergência de saúde pública. A taxa de letalidade é estimada entre 40% e 75%.
O vírus também pode causar doenças graves em animais, como porcos, resultando em perdas econômicas significativas.
Como a doença é tratada?
Não existem, até momento, vacinas, medicamentos ou tratamentos licenciados para a infecção pelo vírus Nipah. As pessoas devem seguir as normas de higiene das mãos, evitar contato com morcegos ou porcos doentes e seus abrigos, e evitar seiva crua de palmeiras e frutas potencialmente contaminadas.
"Uma das recomendações da Organização Mundial de Saúde é para higienizar e checar as frutas, (verificar) se tem tem algum sinal de mordida de morcego e retirar a casca", diz Kamilla Moraes, infectologista da UPA Vila Santa Catarina, unidade pública gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita.
"O tratamento é só suporte para quem adquire o vírus. Não tem nenhuma medida preventiva farmacológica", acrescenta a infectologista.
Muitos pacientes se recuperam totalmente, mas aproximadamente 20% ficam com sequelas neurológicas, como transtorno convulsivo e alterações de personalidade. Um pequeno número de pacientes sofre recaídas ou desenvolve encefalite de início tardio.
Qual o histórico de casos no mundo?
A doença já provocou surtos em diversos países asiáticos ao longo dos anos e foi alvo de medidas de contenção na Índia. Em 2024, um adolescente de 14 anos faleceu após contrair a doença.
Durante o primeiro surto reconhecido na Malásia, que também afetou Singapura, a maioria das infecções humanas resultou do contato direto com porcos doentes ou seus tecidos contaminados. Acredita-se que a transmissão tenha ocorrido por meio da exposição desprotegida às secreções dos porcos ou ao tecido de um animal doente, segundo informações da OMS.
Em surtos subsequentes em Bangladesh e na Índia, o consumo de frutas ou produtos derivados de frutas contaminados com urina ou saliva de morcegos frugívoros infectados foi a fonte mais provável de infecção.
A transmissão do vírus Nipah entre seres humanos também foi relatada entre familiares e cuidadores de pacientes infectados.
É possível que o vírus chegue ao Brasil?
Segundo Kamilla, existe uma preocupação em relação a surtos e disseminação mundial de infecções por conta da globalização, mas, no Brasil, não houve nenhum caso registrado de infecção pelo vírus.
Para ela, o momento é de atenção às medidas que serão tomadas pelas autoridades sanitárias, mas não há motivo para alarme. "No Brasil, não há nenhum alerta, mas é um momento de atenção."
Na visão do infectologista Benedito Fonseca, o maior risco é que o vírus Nipah cause uma epidemia, não uma pandemia - e é mais difícil que chegue ao Brasil. Isso porque é preciso que uma pessoa se alimente de frutas contaminadas principalmente por uma espécie de morcego que é típica da Ásia.
"Nós não temos (a espécie de) morcego que é o reservatório desse vírus aqui no Brasil, ele é normalmente natural da Ásia e pode chegar até a Austrália, mas ele não existe nas Américas, na Europa e na África. Portanto, não existe a possibilidade de que o vírus aconteça naturalmente aqui na nossa região. E a gente não come ceiva da tamareira (espécie de palmeira) e frutas contaminadas pelos morcegos", explica o consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Porém, não é impossível que a doença se espalhe globalmente devido à via de transmissão interpessoal, que é mais rara, mas pode ocorrer, ele diz.
"Eu acho muito difícil que ele tenha um potencial pandêmico. Mas não dá para a gente dizer que não existe (risco) porque porque há a possibilidade de transmissão interpessoal: uma pessoa, por exemplo, se infecta na Índia, pega um avião ainda no período de incubação do vírus e vem para o Brasil, para a Europa, os Estados Unidos ou qualquer que seja o país, e desenvolve a doença. Ela pode, sim, transmitir para outras pessoas", descreve o especialista.