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'Não ouvi o choro do meu bebê ao nascer', conta mãe de UTI

Josenilda Pedreira Alves é mãe de Dario, um bebê prematuro extremo, que nasceu em janeiro com somente 809 gramas; eles se preparam para ir juntos para casa logo após o Dia das Mães, depois de 112 dias dentro da UTI

12 mai 2024 - 11h16
(atualizado em 13/5/2024 às 21h55)
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Teste do pezinho
Teste do pezinho
Foto: iStock

Se para toda mãe, a maternidade é uma caixinha de surpresas, rodeada de dúvidas e incertezas, para as mães de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) as angústias são ainda mais latentes. Prestes a dar à luz seu primeiro filho, a enfermeira em radiodiagnóstico Josenilda Pedreira Alves, 37 anos, soube na sala de parto que não seria possível ouvir o choro do seu bebê ao nascer - de fato, Dario não chorou. Ele nasceu prematuro, no dia 22 de janeiro, com 26 semanas de gestação, pesando 809 g e sem estar com os pulmões completamente formados - por isso foi imediatamente entubado e levado para a incubadora, sem nem poder sentir o primeiro toque do colo da mãe.

Neste domingo de Dia das Mães, o primeiro a ser comemorado pela enfermeira, Dario completará 112 dias vivendo dentro de uma UTI neonatal, mas está prestes a ir para casa com seus pais, depois de quase quatro meses de luta pela vida.

Até o dia do parto, a gravidez de Josenilda transcorria tranquilamente, com pré-natal em dia, sem hipertensão arterial, sem diabetes gestacional e sem outra comorbidade que pudesse indicar que ela teria um parto prematuro. Ela conta que começou a sentir algumas contrações no dia 21 de janeiro, mas pensou se tratar das "contrações de treinamento", movimentos que acontecem quando os músculos do útero se contraem involuntariamente, deixando a barriga mais dura por alguns segundos, de forma bem aleatória e normalmente indolor. No caso de Josi, as contrações se intensificaram, a dor aumentou e ela foi para o hospital. Lá, soube que estava com três dedos de dilatação e que Dario poderia nascer a qualquer momento.

Nesse momento, aconteceu a primeira quebra de expectativa. "Eu já tinha perdido um bebê antes do Dario. Três anos depois, engravidei novamente e estava radiante. O pré-natal ia muito bem, e eu estava plena, bem tranquila, não tive enjoos e vivia o período mais magnífico da minha vida, sonhando com o parto natural. Mas foi tudo muito rápido. Até então, a ideia dos médicos era me internar e tentar segurar o Dario por mais um período. Só que nesse intervalo a minha bolsa rompeu. Para piorar, ele estava sentado e tivemos que ir para uma cesárea de emergência", lembra a mãe.

Já no centro cirúrgico, na companhia do marido, Cristian, Josi se recorda de que vários profissionais tentavam acalmá-la, mas a memória mais presente é a da médica neonatologista Marcela, que se aproximou e explicou que provavelmente Dario não choraria ao nascer e, devido à sua prematuridade extrema, teria de ser levado imediatamente para uma sala onde seriam feitos os procedimentos necessários para garantir sua vida.

"Ela me disse: não se assuste se ele não chorar. Imagine o que é para uma mãe não ouvir o choro do seu bebê ao nascer. Fechei os olhos, as coisas foram acontecendo, ele nasceu e eu não ouvi o choro", conta.

Dario já tinha mais de 2 meses quando Josi pôde amamentá-lo diretamente no seio - até então, o bebê recebia leite materno, mas por meio de uma sonda. A mãe foi preparada e o bebê passou pela avaliação de uma fonoaudióloga, para ver se ele seria capaz de mamar.

"O primeiro dia eu diria que foi um show de horror. A gente cria a imagem de que a amamentação é fácil e perfeita, mas, na verdade, não é. Eu não sabia como segurá-lo, como posicioná-lo de forma que ficasse confortável para nós dois. Eu não conseguia amamentá-lo, mesmo com o apoio dos profissionais de enfermagem e fonoaudiologia. Acredito que a emoção invadiu meu coração e a felicidade de saber que ele não receberia o leite por uma sonda, e sim pelo meu peito, me fez perder a conexão", diz, brincando, a mãe.

Josi se recompôs e Dario conseguiu se alimentar do seio da mãe. Desde então, o bebê é amamentado diariamente e em momentos alternados recebe o leite materno pela mamadeira.

Nesses quase quatro meses, Dario passou por altos e baixos dentro da UTI. Entre as idas e vindas, as mães de UTI se tornam parceiras e dividem momentos de alegrias, de conquistas, de evolução dos seus bebês, mas também vivem juntas momentos de angústias e tristezas. Compartilham entre si as dores e as incertezas do amanhã e se tornam o suporte umas das outras. Na maioria das vezes, os bebês evoluem e recebem alta, mas também há casos de perdas e essas mulheres acabam vivendo o luto de estar com o colo vazio.

Hoje, Dario está com 3,6 kg e mede 47 cm. Já não usa mais nenhum suporte de oxigênio e está em observação para a avaliação do seu comportamento em ar ambiente e para ver se mantém todos os parâmetros estáveis para ir para casa. No início da semana, ele recebeu o primeiro banho dado pelos pais e a expectativa é que receba alta logo depois do Dia das Mães.

"Ser mãe é algo extraordinário. É uma doação total, é uma entrega completa, é deixar os caprichos de lado. É estar ali para que aquela outra vida possa se desenvolver", diz a mãe de primeira viagem, com a voz embargada. "Ser mãe é uma dádiva e eu aprendo todos os dias. Nem filhos nem mães vêm com um manual de instruções e cada dia é um aprendizado."

No Brasil, 12% dos bebês nascem prematuros

A história de Josi dentro de uma UTI neonatal não é a única e se repete quase todos os dias. No Brasil, todos os anos, cerca de 12% dos bebês nascem prematuros, ou seja, antes de completarem 37 semanas de idade gestacional, e vão precisar de algum suporte de UTI até que estejam prontos para ir para casa.

"Quanto mais prematuro nasce o bebê, maior é o tempo de permanência na unidade neonatal", explica Romy Schimidt Brock Zacharias, coordenadora médica do Serviço de Neonatologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

Segundo a médica, a neonatologia é uma especialidade que teve grandes avanços nos últimos anos, tanto no melhor entendimento da fisiologia dos prematuros quanto no desenvolvimento de novas tecnologias, que permitem cada vez mais a viabilidade de recém-nascidos mais prematuros.

Entre os exemplos de avanços estão as incubadoras com umidificação, os novos ventiladores mecânicos, que oferecem o suporte ventilatório com menor lesão pulmonar, e a nutrição parenteral, que permite nutrir o bebê mesmo antes de ele poder receber uma dieta.

"Os desafios de uma mãe na UTI neonatal se iniciam com a quebra de expectativa em relação a um bebê que iria nascer saudável, mas que, por algum motivo, chegou antes do tempo e precisou de ajuda, monitorização ou suporte de uma unidade de terapia intensiva. Muitas vezes, esse dia a dia é cansativo e instável. Nesse contexto, procuramos trabalhar em conjunto com os pais, compartilhando decisões e trazendo-os para perto dos cuidados", diz a neonatologista.

"Se eu puder deixar uma mensagem, é para que essas mães tenham fé e perseverança e não se comparem com outras nem com a maternidade perfeita, que é divulgada nas mídias e nas redes sociais. Cada uma é única, cada bebê é único. A maternidade real tem os seus desafios, cada mãe tem as suas metas a serem superadas de forma individual. Vivam de maneira singular cada minuto dessa fase, que não voltará. Tenham um feliz Dia das Mães!", finaliza a mãe de Dario.

Estadão
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