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Musicoterapia: o que é e como contribui com a saúde na pandemia

Profissionais graduados ou especializados na área estão conduzindo ações para amenizar efeitos do isolamento social

8 ago 2020
08h10
atualizado às 11h37
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Se historicamente a música desempenha papel terapêutico, com o isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus, essa característica passou a ser utilizada também para diminuir a tensão entre trabalhadores da saúde e pessoas em quarentena. Nesse contexto, os musicoterapeutas, profissionais graduados ou especializados em desenvolver tratamentos por meio da música, estão conduzindo ações para promover saúde e amenizar os efeitos da pandemia.

Musicoterapia: o que é e como funciona?

A musicoterapia é um campo de conhecimento científico que não só estuda os impactos da música e da utilização de experiências musicais, como as aplica para prevenção, tratamento e reabilitação da saúde. Para isso, se vale de técnicas e sistemáticas específicas para auxiliar em tratamentos oncológicos, pediátricos, neurológicos, entre outros.

"É importante observar que a musicoterapia se pauta sempre em um profissional qualificado, em músicas e sons (ferramentas que possibilitam a profissão) e, por fim, em pessoas ou grupos que necessitam de algum tipo de ajuda", ressalta Verônica Rosário, doutora em neurociências e professora do bacharelado em música com habilitação em musicoterapia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Como a musicoterapia contribui para melhorar a saúde na pandemia?

Com a pandemia de covid-19, ganhou força o Música Para Quem Cuida, iniciativa da Escola de Música da UFMG que leva apoio a pessoas que estão na linha de frente do combate à covid-19. Coordenado pela professora e doutora em música Marina Freire, o projeto permite que qualquer pessoa dedique canções a profissionais da saúde. Depois de aprovadas pela equipe envolvida, as dedicatórias são interpretadas por musicoterapeutas e estudantes da área e postadas nas redes sociais.

De abril até hoje, 110 vídeos foram publicados pelo projeto. Um deles, no Dia das Mães, direcionado à psicóloga hospitalar Luciana Purysco, que foi surpreendida pela filha Luanna, de 13 anos. "Foi uma emoção fora do comum e continua sendo, já que sempre revejo a homenagem em meio à pandemia", revela Luciana ao falar da música Fico Assim Sem Você, de Adriana Calcanhotto, interpretada por duas graduandas de musicoterapia.

Já a terapeuta ocupacional Nathalia Gravito dedicou a canção Amor Pra Recomeçar, de Frejat, à equipe assistencial e demais profissionais do Hospital Risoleta Tolentino Neves, de Belo Horizonte. "Percebi minha equipe de trabalho bem abalada e com medo do que viria pela frente. Como sempre fui muito movida pela música, achei que seria uma linda forma de acalmar nossos corações", conta.

Para Marina Freire, como gestos de afeto ficaram limitados durante a pandemia, "a música surge como abraço e respiro" em meio a estresses, tensões e ansiedades do dia a dia. "O neurotransmissor mais ativado na audição musical é a dopamina, mas também ocorre produção de endorfina e outros hormônios", destaca. Além disso, a música também tem função de desviar a atenção da dor, já que ambas atuam no sistema nervoso autônomo, explica a musicoterapeuta do Centro Biomédico da Música Nathalya Avelino.

Projeto de musicoterapia da UFMG homenageia profissionais da saúde durante a pandemia.
Projeto de musicoterapia da UFMG homenageia profissionais da saúde durante a pandemia.
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

Desenvolvido pela doutora em medicina Cybelle Loureiro, a UFMG também conduz um projeto de musicoterapia em parceria com o Centro de Investigação em Esclerose Múltipla de Minas Gerais (Ciem). Com o isolamento social acarretado pela pandemia, a iniciativa teve que ser reinventada para atender às determinações do governo e, ainda assim, promover ações de musicoterapia à distância, o que também resultou em um novo nome: "Musicoterapia no Ciem no tempo do coronavírus".

Para Juliana Carvalho, coordenadora do serviço de Musicoterapia do Hospital Sírio-Libanês e mestre na área, a pandemia fez com que os musicoterapeutas se organizassem para atuar de forma remota e também motivou uma série de trocas entre profissionais — seja para refletir sobre como promover saúde ou para discutir de que forma mitigar os efeitos dos acontecimentos recentes na saúde mental.

Desde o começo da pandemia, a musicoterapeuta e uma equipe multidisciplinar do hospital passaram a produzir, mesmo à distância, materiais direcionados a profissionais do Sírio-Libanês que estão atuando na linha de frente da pandemia. A intenção é que os vídeos, áudios e outros tipos de materiais sejam recorridos em pausas e intervalos, para aliviar a tensão do dia a dia.

Em junho, a União Brasileira das Associações de Musicoterapia (UBAM), em parceria com a comissão do Sistema Único de Saúde (SUS), elaborou um documento para nortear a atuação do musicoterapeuta em situação de emergência, pandemias, desastres e catástrofes.

Por que o papel terapêutico da música não faz dela musicoterapia?

De acordo com levantamento da plataforma Deezer, entre 11 mil entrevistados ao redor do mundo, 30% ouvem música para combater a solidão na pandemia. Além disso, as lives são um sucesso de audiência e o Spotify teve aumento de assinantes além do esperado. Em meio a isso, é comum a confusão entre o efeito terapêutico das músicas e a musicoterapia, mas eles não são a mesma coisa. A musicoterapia é uma área de conhecimento que forma profissionais para, com base justamente no caráter terapêutico dos sons, alcançar objetivos.

"Enquanto a música é do mundo, e cada pessoa pode experimentá-la de forma individual, a musicoterapia é uma área separada", explica Juliana Carvalho, que, enquanto musicoterapeuta, vê nas canções um vasto campo de experimentação e descoberta. "Eu, por exemplo, enquanto ouvinte, sou grande admiradora da Mônica Salmaso", conta.

Já Verônica Rosário ressalta o forte caráter memorial da música e, mais do que isso, o potencial que ela tem de unir pessoas, mesmo distantes. "As músicas, além de sensações individuais, promovem forte conexão entre os seres humanos. Com elas, as pessoas podem compartilhar experiências, falar sobre lives, por exemplo, e aliviar o peso da pandemia", diz.

Não à toa, a música é adotada em ambientes médicos até de forma mais ampla. Em junho, funcionários do Hospital de Campanha de Santarém (HCS), no Pará, promoveram intervenções musicais com o objetivo de amenizar a tensão e o estresse de pacientes de covid-19 e profissionais da linha de frente. Já o Hospital Israelita Albert Einstein firmou uma parceria com o Spotify em 2017 para, a partir de então, oferecer playlists em diferentes contextos de tratamento.

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Estadão
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