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Em centro de SP esvaziado, fila por almoço faz até curva

Número de refeições oferecidas pelo Serviço Franciscano de Solidariedade passou de 400 para 2,5 mil

9 abr 2020
05h10
atualizado às 08h46
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A fila faz uma curva no Largo São Francisco e desce pela Rua São Francisco em direção à Praça da Bandeira. São centenas de homens e algumas mulheres, de diversas faixas etárias que aguardam por um prato de comida em um centro de São Paulo esvaziado pela pandemia do novo coronavírus.

A Associação Franciscana de Solidariedade (Sefras), fundada pela Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, serve comida para moradores de rua no Largo São Francisco, centro de São Paulo
A Associação Franciscana de Solidariedade (Sefras), fundada pela Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, serve comida para moradores de rua no Largo São Francisco, centro de São Paulo
Foto: Felipe Rau / Estadão

Diferentemente de trabalhadores que circulam pela região, eles não utilizam máscaras para conter a covid-19. Mais do que isso, enfrentam uma série de dificuldades para manter hábitos de higiene, ter acesso a água limpa e se alimentar em um momento em que a renda, já costumeiramente incerta, está mais apertada.

Nesse contexto, a distribuição de refeições pelo Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) enfrenta um aumento contínuo de demanda. Segundo Frei Lucas, que atua na instituição, o número de almoços ofertados passou de cerca de 400 para aproximadamente 2,5 mil desde o início da vigência do decreto de quarentena. Por isso, desde o dia 27, a distribuição passou a ser feita em uma tenda no Largo São Francisco. Em 12 dias, foram mais de 37,1 mil refeições, entre almoço e jantar, que são distribuídas junto com uma bebida, como suco e água.

Dona Cida, de 63 anos, chegou a entrar na fila duas vezes para garantir a alimentação do dia e evitar o deslocamento até o local para o pegar o jantar. Hipertensa e com bronquite, ela dorme em um albergue municipal há 15 dias depois de ter sido despejada. "Eu chorava de fome para pagar aluguel, chegava a dar dor no estômago", diz. "Se não fosse essa comida (distribuída no largo), tinha morrido."

Grupo de risco da covid-19, a idosa relata ter desmaiado na terça-feira, 7, pela primeira vez na vida. "Ficou tudo branco", lembra. "Nunca tive isso. Mas acho que o vírus não pega em mim, acho que sou forte para o vírus. Ele vem em mim, mas não pega. Acredito muito na força do pensamento."

Ela relata preferir passar o dia pelas ruas por achar o albergue mais propício para pegar o novo coronavírus por ser "muito fechado". A situação a deixou preocupada especialmente após a assistir a reportagens na televisão e, por isso, passou a andar com sabonete e papel-toalha na bolsa. Com a saúde debilitada, está com dificuldades para catar latas de alumínio para conseguir um dinheiro além do auxílio-aluguel, de pouco mais de R$ 400.

Tudo o que tem carrega em uma bolsa a tiracolo, após o locatário ficar com seus móveis e parte das suas roupas permanecer na casa de amigos que se recusam a recebê-la durante a pandemia. "Acham que posso levar a doença da rua para eles", conta. "Essa calça (que estava vestindo) uma amiga comprou na feira do rolo pra mim. Vesti, nem sei se estava lavada, seja o que Deus quiser."

Também na fila por um prato, Luis Carlos Pereira, de 47 anos, conta que a maior dificuldade é para higiene. A instalação de banheiros e chuveiros pela Prefeitura no largo há menos de uma semana facilitou um pouco, mas não permite a limpeza das roupas. "O que adianta tomar banho e colocar a mesma roupa suja, me diz?", questiona. "Para nós, é complicado (a pandemia), é um pouco assustador. Não sei se vai chegar na gente."

Pereira conta que, com o esvaziamento da cidade, está enfrentando dificuldade para conseguir encontrar latas e papelão para vender. Por isso, acha que mais pessoas, como ele, estão procurando doações de comida no largo. Além disso, lamenta por aqueles que estão em situação ainda mais vulnerável, como pessoas com dificuldade de locomoção. "Às vezes, se vejo que está mais debilitado, dou uma marmita, um apoio. Mas é difícil, não estou conseguindo direito nem pra mim."

Adailton Souza, de 32 anos, que também aguardava por uma refeição, conta que lavou as roupas com a água descartada por um prédio na rua. Às vezes, também toma banho de caneca escondido em alguma pia. Ele pernoita em um albergue municipal, mas reclama de percevejos nos colchões. "A gente passa o dia se batendo, se coçando, porque só trocam o lençol", comenta.

Ele costuma trabalhar como "rodinho" (limpeza de vidros) e malabares no semáforo. "Também era palhaço, mas não tenho como fazer higiene depois, para tirar a tinta", relata. "Agora (com a quarentena) tem poucos carros na rua e eles nem abaixam os vidros, estão com mais medo da gente."

Já o eletricista Pedro Edgar Fernandez, de 45 anos, costumava buscar refeições com os franciscanos desde novembro, quando ficou desempregado. De Buenos Aires, o argentino se mudou para o País há 7 anos, mas, após uma demissão em massa, não conseguiu emprego formal e, agora, vive de bicos que consegue ao entregar currículos enquanto percorre o centro expandido e bairros vizinhos a pé ao longo de todo o dia.

Ele relata que está mais difícil conseguir até oportunidades informais com a pandemia. "Vou caminhando e olhando para as placas, pergunto e já deixo currículo. Consegui um na Mooca, mas pediram para esperar acabar a quarentena."

Desde novembro, vive em um albergue municipal depois de não conseguir mais pagar o aluguel de uma pensão. "Tentei voltar em janeiro, mas me falaram que já não tinha condição de voltar (para a Argentina, por causa da pandemia). Vou continuar tentando um emprego formal até agosto, setembro. Se não der, volto para a minha terra", conta. "Na rua a gente fica em perigo, tem violência, drogas."

Opções

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informou que foram criados dois núcleos de convivência emergenciais: um na região da Nova Luz e outro no Cambuci. A rede municipal conta com 10 Núcleos de Convivência, com 3.172 vagas. Além das refeições, os usuários têm acesso a banheiros e kits de higiene, onde podem tomar banho e receber as orientações. Os espaços também contam com áreas específicas para que os atendidos lavem as roupas.

Foram criado ainda sete novos equipamentos emergenciais para acolhimento de pessoas em situação de rua, com o total de 594 novas vagas. Destes, um foi implantado na Vila Clementino, como Centro de Acolhida Especial para moradores em situação de rua já diagnosticados com covid-19, totalizando 38 vagas.

Para os outros seis, foram selecionados centros esportivos preparados para acolher pessoas nesta situação, localizados nas regiões da Sé, Santo Amaro, Luz, Santana, Mooca e Lapa, totalizando 556 vagas com funcionamento 24h.

São ainda 10 serviços específicos para mulheres em situação de rua, sendo oito Centros de Acolhida Especiais (CAE) e dois CAE para mulheres transexuais, que totalizam 706 vagas. A região central possui um CAE para mulheres, localizado no distrito da Bela Vista, com 140 vagas. Além disso, há também o Centro de Acolhida para gestantes, mães e bebês, com 50 vagas para casos de vulnerabilidade. Todos os serviços contam com banheiros.

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Estadão
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