Em 10 anos, SUS registrou mais de 45 mil casos de envenenamento; saiba como agir em emergências
São Paulo lidera a lista com 10.161 registros, seguido por Minas Gerais, com 6.154
Entre 2015 e 2024, foram registrados 45.511 atendimentos relacionados a envenenamentos no Sistema Único de Saúde (SUS). Com base nos registros de 2009 a 2024, estima-se que, a cada duas horas, um caso do tipo seja notificado, segundo dados levantados pela Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede).
Os registros de envenenamento aconteceram em todas as regiões, mas com maior concentração nas áreas mais populosas, como o Sudeste. São Paulo lidera a lista com 10.161 registros, seguido por Minas Gerais, com 6.154.
De acordo com Juliana Sartorelo, coordenadora do Comitê de Toxicologia da Abramede, a maior parte dos casos é acidental. Grande parte deles acontece em crianças de um a cinco anos de idade. "Essa é a faixa em que elas passam a explorar mais o ambiente domiciliar e os acidentes costumam acontecer nessa situação."
No caso das crianças, o principal risco são os produtos de limpeza. "Além da coloração, que chama a atenção das crianças, muitas vezes eles são guardados em lugares indevidos. Tem gente que guarda os produtos na geladeira, em armários baixos, aos quais a criança consegue ter acesso, ou em frascos inadequados, como garrafas de refrigerante."
"Outro risco é o fácil acesso das crianças a medicamentos. Às vezes, os pais deixam remédios para dormir, por exemplo, na mesa de cabeceira, e as crianças acabam tendo acesso", adiciona.
Casos indeterminados, em que não se sabe se houve intencionalidade, também respondem por grande parte dos registros. Eles acontecem, principalmente, entre adultos de 20 a 39 anos. "O que nos preocupa é que isso vem aumentando entre adolescentes e idosos", diz Juliana.
Segundo o levantamento, os envenenamentos por analgésicos e medicamentos usados no controle da febre e inflamações aparecem em destaque, com 2.225 casos. Em seguida, vêm os episódios relacionados ao consumo de álcool por causas não determinadas (1.954), ao uso de anticonvulsivantes, sedativos e hipnóticos (1.941) e aos pesticidas (1.830).
Quando consideradas as ocorrências de classificação mais ampla, os envenenamentos por drogas, medicamentos e substâncias biológicas não especificadas somam 6.407 casos. Os provocados por produtos químicos não especificados chegam a 6.556. Já os associados a substâncias químicas nocivas não especificadas totalizam 5.104.
Violência
O levantamento ainda mostra que, além dos envenenamentos acidentais e indeterminados, 3.461 pacientes internados sofreram intoxicação proposital, causada por terceiros.
Casos recentes ganharam repercussão nacional. Em dezembro de 2024, quatro pessoas de uma mesma família morreram em Torres (RS) após comerem um bolo com arsênio, e poucos dias depois, cinco pessoas morreram após ingerirem comida contaminada com pesticida em uma ceia de Réveillon em Parnaíba (PI).
O que fazer em caso de envenenamento?
Segundo Felipe Liger, médico emergencista e preceptor da residência em medicina de emergência do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a atitude mais adequada em caso de suspeita de intoxicação é ligar para o SAMU (192) ou para os Bombeiros (193) e procurar o atendimento médico mais próximo, de preferência com alguém acompanhando.
Além disso, os Centros de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) oferecem suporte especializado. Eles realizam atendimentos presenciais e por telefone 24 horas por dia. No Brasil, existem 32 centros, alguns com laboratórios para identificar as substâncias envolvidas na intoxicação para ajudar a confirmar o diagnóstico e orientar o manejo clínico. Para acionar o serviço, basta ligar para o CIATox do estado ou da região (veja a lista aqui).
"Quando estamos diante de um paciente intoxicado, os sinais e sintomas podem ser sutis, por isso o atendimento médico realizado por um especialista treinado é tão importante", destaca Liger.
"A vítima ou o acompanhante deve, sempre que possível, levar caixas de remédios ou amostra da fonte ingerida ou ter condições de narrar todo o ambiente ao qual o indivíduo foi exposto. Essa informação é essencial para a equipe médica", adiciona.
Juliana ressalta que, no caso dos envenenamentos intencionais, há a questão psicológica. "Se foi intencional, (o paciente) tem de ser levado imediatamente para o atendimento médico, mesmo que não apresente sintomas. Se ele fica em casa, pode continuar se envenenando ou fazer isso de novo em alguns dias".
O que não fazer?
Em situações de intoxicação, alguns erros podem agravar o quadro e dificultar o tratamento.
Juliana destaca o uso de carvão ativado, difundido nas redes sociais como uma forma de reduzir intoxicações. "Isso é super perigoso. O paciente pode se engasgar e agravar ainda mais a situação. Crianças pequenas podem ter sintomas colaterais, a pressão pode cair e elas podem ficar mais sonolentas".
Outros erros frequentes são tentar provocar vômito, oferecer leite ou água na tentativa de "diluir" a substância e esperar para ver se os sintomas pioram.
Segundo Liger, provocar o vômito pode causar aspiração ou lesões graves no esôfago, especialmente se o agente for corrosivo. Já oferecer líquidos não neutraliza a substância e pode atrapalhar o atendimento. Esperar os sintomas se manifestarem também não é indicado. "Muitas substâncias têm efeito 'silencioso' nas primeiras horas, mas podem levar a complicações graves depois."
Outro erro é não levar a embalagem ou não informar o que foi ingerido. "O reconhecimento da substância fornece à equipe assistencial embasamento para diversas tomadas de decisão, como medidas para reduzir absorção ou eliminação, bem como suporte clínico específico para reverter ou atenuar a toxicidade", detalha Liger.
Ele acrescenta que as equipes médicas não dispõem de testes toxicológicos específicos para o atendimento de vítimas de intoxicação, por isso a informação detalhada é tão importante.