Dê ouvidos aos passarinhos
Estudo alemão mostrou que aqueles expostos aos sons da cidade apresentavam mais sintomas depressivos
Faz tempo que não falo deles, os pássaros. Por medo de me tornar repetitivo, como qualquer apaixonado pode ser, evito voltar ao tema sempre que me dá vontade. (Porque sempre dá vontade.) Imagine então depois que pela primeira vez fui visitar o Pantanal, recentemente.
Fiquei embasbacado pelas experiências em meio às mais de 40 espécies de aves que vi e registrei. A festa de passar por um bando de araras azuis (Anodorhynchus hyacinthinus), que só habitam uma estreita faixa no centro do País. O assombro de contemplar o voo do tuiuiú (Jabiru mycteria), ave-símbolo do Pantanal e maior ave voadora desse bioma. A alegria de participar do café da manhã das barulhentas caturritas (Myiopsitta monachus), único psitacídeo que constrói o próprio ninho. A tensa espera pelo mergulho da águia-pescadora (Pandion haliaetus) e do martim-pescador-grande (Megaceryle torquata), que contemplam a água em silêncio à espera da refeição.
Tudo isso me fez querer voltar ao tema, mas me segurei. Até que uma pesquisa recém-publicada sobre bem-estar me deu a desculpa perfeita. Estamos aqui para tratar do seu bem-estar emocional, afinal de contas.
Nós sabemos que o barulho das cidades pode ser bastante incômodo - nossa natureza animal parece sempre em estado de alerta quando o som artificial de motores, máquinas e sirenes domina nossa paisagem sonora mesmo que apenas como um ruído de fundo. E intuitivamente sentimos que os sons da natureza, como os de cachoeiras, ondas do mar e vento nas árvores, podem ter um efeito calmante.
Pois cientistas alemães colocaram essa ideia à prova com quase 300 voluntários que responderam a questionários sobre sintomas depressivos e ansiosos e então foram expostos durante seis minutos a dois cenários diferentes.
Num deles ouviam sons urbanos, típicos de uma rua movimentada. Em outro, ouviam o som de pássaros cantando. Mesmo um tempo tão curto foi suficiente para levar a uma diferença significativa entre os grupos: aqueles expostos aos sons da cidade apresentavam mais sintomas depressivos após os seis minutos, enquanto os que ouviram aves cantando tinha redução nos sintomas ansiosos e depressivos.
E os efeitos eram mais significativos quando a paisagem sonora era mais diversificada - tanto para bem como para mal.
A conexão com a natureza vem se mostrando um meio eficaz para reduzir o estresse. As práticas contemplativas, como a atenção sustentada a determinados sons, também. O canto dos pássaros tem a capacidade de unir essas duas características de uma só vez. É ou não é para ficar apaixonado?