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Cicatrizes conseguem 'prever' o tempo? Entenda o que realmente acontece no tecido cicatricial durante mudanças climáticas

Entre mudanças bruscas de temperatura, aproximação de frentes frias e dias especialmente úmidos, muitas pessoas relatam a mesma experiência: antigas cicatrizes passam a coçar, repuxar ou doer. Veja a explicação científica para esse fenômeno.

11 mai 2026 - 18h03
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Entre mudanças bruscas de temperatura, aproximação de frentes frias e dias especialmente úmidos, muitas pessoas relatam a mesma experiência: antigas cicatrizes passam a coçar, repuxar ou doer. Esse fenômeno costuma receber descrição como uma espécie de "memória" da lesão, quase como se o corpo "previsse" o tempo. No entanto, do ponto de vista biológico não há previsão, mas sim uma resposta direta à forma como o organismo reconstrói a pele após uma agressão.

Quando ocorre um corte profundo, uma queimadura ou uma cirurgia, ocorre a substituição da pele original por um tecido de reparo, o tecido cicatricial. Esse tecido não replica exatamente a pele anterior. Afinal, ele é formado rapidamente para fechar a ferida e proteger o corpo contra perda de líquidos e entrada de microrganismos. Assim, essa pressa biológica tem consequências duradouras. Ou seja, a região cicatrizada passa a ter características estruturais e funcionais diferentes do restante da pele, o que ajuda a explicar por que a cicatriz reage de forma peculiar a alterações do clima.

Quando ocorre um corte profundo, uma queimadura ou uma cirurgia, ocorre a substituição da pele original por um tecido de reparo, o tecido cicatricial – depositphotos.com / AY_PHOTO
Quando ocorre um corte profundo, uma queimadura ou uma cirurgia, ocorre a substituição da pele original por um tecido de reparo, o tecido cicatricial – depositphotos.com / AY_PHOTO
Foto: Giro 10

O que torna o tecido cicatricial diferente da pele saudável?

A palavra-chave para entender a sensibilidade das cicatrizes é tecido cicatricial. Na pele íntegra, as fibras de colágeno se organizam em malha mais flexível, permitindo alongamento e retorno à forma original. Já no tecido de cicatriz, predominam feixes de colágeno mais espessos e alinhados, com menor elasticidade. Essa estrutura fibrosa funciona como um "remendo" resistente, mas menos adaptável a mudanças de volume, temperatura e pressão mecânica.

Além disso, a área cicatrizada apresenta uma redução significativa de glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas. Em muitos casos, esses anexos da pele desaparecem completamente na região da cicatriz. A ausência de glândulas que produzem sebo e suor interfere na hidratação local e na capacidade de resfriamento da pele, dois fatores diretamente ligados à sensação de conforto térmico e à proteção das terminações nervosas.

Como a falta de glândulas sebáceas e sudoríparas afeta a cicatriz?

Em condições normais, o sebo recobre a pele com uma fina camada oleosa que ajuda a manter a barreira cutânea estável e a reter água. O suor, por sua vez, participa da termorregulação, permitindo que o corpo disperse calor. Na cicatriz, onde a produção de sebo e suor é mínima ou inexistente, a superfície tende a ser mais seca, rígida e menos capaz de dissipar calor de forma eficiente.

Essa combinação de secura e rigidez cria um ambiente mais vulnerável a microfissuras e a pequenas variações de volume do tecido, principalmente quando há mudanças de temperatura ou umidade no ambiente. Em dias frios, por exemplo, a pele ao redor se contrai, enquanto o tecido fibroso da cicatriz tem menor capacidade de acomodação. Em dias quentes e úmidos, o aumento de fluxo sanguíneo e a retenção de líquido nos tecidos podem gerar sensação de estiramento nessa área menos elástica.

  • Menor produção de sebo → pele da cicatriz mais seca e propensa a irritação.
  • Ausência de suor → dificuldade em regular a temperatura local.
  • Colágeno denso → menor capacidade de esticar e voltar ao formato inicial.

Por que a cicatriz coça ou dói quando o tempo muda?

A sensação de que a cicatriz "sente" o clima está ligada à interação entre o tecido fibroso e as terminações nervosas. Durante o processo de cicatrização, nervos danificados se regeneram de forma irregular, podendo ficar mais concentrados ou mal distribuídos na região reparada. Esses nervos se estendem pelo tecido de colágeno, muitas vezes mais superficiais ou menos protegidos do que na pele original.

Quando há variações de temperatura, pressão atmosférica ou umidade, várias mudanças acontecem ao mesmo tempo:

  1. Alteração do volume dos tecidos: o frio pode contrair vasos sanguíneos e reduzir o fluxo de sangue; o calor e a umidade tendem a dilatá-los, gerando leve inchaço. O tecido cicatricial, menos elástico, resiste a essas alterações, o que aumenta o estiramento local.
  2. Modificação na hidratação da pele: ambientes secos favorecem ainda mais a desidratação da cicatriz, intensificando a sensação de repuxamento e coceira. Em locais muito úmidos, o inchaço dos tecidos ao redor pode tensionar a área cicatrizada.
  3. Estimulação das terminações nervosas: o estiramento mecânico e as oscilações de temperatura ativam fibras nervosas sensoriais, que enviam sinais ao sistema nervoso central interpretados como dor, ardência ou prurido.

Alguns estudos clínicos relatam que cicatrizes hipertróficas e queloides, em especial, concentram maior densidade de fibras nervosas e receptores sensoriais. Esse cenário torna a região mais responsiva a estímulos físicos leves, como queda da temperatura, mudança no nível de umidade do ar ou mesmo variações de pressão que acompanham frentes frias e tempestades.

A sensação de que a cicatriz “sente” o clima está ligada à interação entre o tecido fibroso e as terminações nervosas – depositphotos.com / artem_furman
A sensação de que a cicatriz “sente” o clima está ligada à interação entre o tecido fibroso e as terminações nervosas – depositphotos.com / artem_furman
Foto: Giro 10

A cicatriz realmente "prevê" o tempo ou é pura fisiologia?

A ideia de que uma cicatriz prevê o clima é um modo popular de explicar uma experiência cotidiana. Do ponto de vista científico, não há previsão envolvida, mas um encadeamento de eventos fisiológicos. A variação de pressão atmosférica, por exemplo, influencia a dinâmica dos líquidos corporais e a dilatação dos vasos sanguíneos. A mudança de temperatura provoca contração ou dilatação de estruturas cutâneas e subcutâneas. Tudo isso ocorre em todo o corpo, mas o tecido cicatricial, por ser diferente da pele saudável, reage de forma mais evidente.

Nesse contexto, a sensação de dor, coceira ou formigamento em cicatrizes durante alterações climáticas é entendida como uma resposta sensorial coerente com a biologia local, e não como algo místico ou imaginário. A diferença na organização do colágeno, a ausência de glândulas sebáceas e sudoríparas, a menor elasticidade e a peculiar regeneração dos nervos criam um ponto sensível no mapa da pele, que registra as variações do ambiente de maneira amplificada.

Reconhecer esse mecanismo ajuda a validar a percepção de quem vive esse fenômeno e, ao mesmo tempo, a desmistificar a ideia de que a cicatriz tem "memória" ou poderes preditivos. Trata-se de um lembrete permanente de que o tecido reparado não é idêntico ao original e de que pequenas diferenças na estrutura da pele podem gerar grandes diferenças de sensação diante das mudanças do clima.

Giro 10
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