Bloqueio do nervo frênico: por que a técnica é usada no tratamento do soluço crônico
Bloqueio do nervo frênico contra soluço crônico: entenda como o método funciona, riscos, benefícios e relação com o caso de Jair Bolsonaro
O soluço costuma ser passageiro, mas em alguns casos se torna persistente e interfere em atividades básicas, como falar, comer e dormir. Quando o quadro se prolonga por dias ou semanas, passa a ser chamado de soluço crônico e pode exigir investigação detalhada e tratamentos específicos. Entre as opções mais avançadas está o bloqueio do nervo frênico, técnica citada em casos de grande repercussão, como o do ex-presidente Jair Bolsonaro, e que desperta dúvidas sobre como funciona e por que é utilizada.
Para entender o motivo de o bloqueio do nervo frênico ajudar a interromper o soluço crônico, é necessário conhecer um pouco da anatomia envolvida e dos mecanismos que disparam esse reflexo. O soluço não é apenas um "espasmo sem importância": ele resulta de uma cadeia de estímulos que começa em nervos, passa pela medula e pelo cérebro, e termina no movimento involuntário do diafragma, o principal músculo da respiração.
O que é o nervo frênico e qual sua função no soluço crônico?
O nervo frênico é um par de nervos que se origina na região cervical da medula espinhal e desce pelo tórax até alcançar o diafragma. Ele atua como a principal via de comando motor para esse músculo, que sobe e desce a cada respiração. Quando ocorre um soluço, há uma contração brusca e involuntária do diafragma, seguida pelo fechamento rápido das cordas vocais, produzindo o som característico.
No soluço comum, essa sequência é ativada de forma temporária, muitas vezes por irritação do estômago, consumo de bebidas gaseificadas ou mudanças bruscas de temperatura. No soluço persistente ou intratável, porém, a irritação pode envolver diretamente o nervo frênico ou estruturas próximas, mantendo o diafragma em uma espécie de "curto-circuito" motor. Nesse cenário, o nervo frênico se torna um alvo estratégico, pois ele é o principal condutor do impulso que provoca a contração repetitiva.
Por que o bloqueio do nervo frênico pode interromper o soluço?
O bloqueio do nervo frênico é um procedimento em que o médico aplica um anestésico local, e em alguns casos outras substâncias, ao redor do nervo, com o objetivo de interromper temporariamente a transmissão do impulso nervoso. Ao "desligar" essa via, o diafragma deixa de receber o sinal que desencadeia as contrações involuntárias, o que pode levar ao desaparecimento do soluço crônico.
Esse tipo de bloqueio é considerado quando:
- o soluço dura mais de 48 horas ou semanas, caracterizando um quadro persistente;
- medicações por via oral ou venosa não apresentam resultado satisfatório;
- o sintoma está causando prejuízo importante ao sono, à alimentação ou à recuperação de outras doenças;
- há suspeita ou evidência de irritação do nervo frênico ou do diafragma.
Em pacientes conhecidos publicamente, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, relatos sobre soluço prolongado chamaram atenção justamente porque demonstram como o sintoma pode ser resistente e exigir abordagens menos usuais. Nesses casos, o bloqueio do nervo frênico entra como um recurso adicional, especialmente em ambiente hospitalar e com monitorização respiratória.
Como é feito o bloqueio do nervo frênico na prática?
O procedimento costuma ser realizado por anestesiologistas, cirurgiões torácicos ou médicos com treinamento em bloqueios de nervos periféricos. Em geral, o paciente é posicionado de forma que o médico tenha acesso à região do pescoço ou do tórax, onde o nervo frênico pode ser identificado com maior precisão, muitas vezes com auxílio de ultrassom.
- Avaliação prévia: análise do quadro clínico, exames de imagem, histórico de medicamentos e doenças associadas.
- Localização do nervo:
- Aplicação do anestésico:
- Monitorização:
O efeito costuma ser temporário. Em alguns casos, um único bloqueio é suficiente para "quebrar" o ciclo do soluço crônico. Em outros, podem ser necessárias repetições ou associação com remédios específicos, ajustes na alimentação ou investigação de causas como refluxo gastroesofágico, alterações neurológicas ou problemas metabólicos.
Quais são os cuidados e limites desse tipo de tratamento?
Embora o bloqueio do nervo frênico seja usado justamente para aliviar o soluço prolongado, ele não é indicado para episódios simples e rápidos. Trata-se de um método reservado para situações em que o sintoma se torna incapacitante ou está relacionado a outras doenças graves. Por atuar diretamente em um nervo ligado à respiração, o procedimento exige ambiente controlado e equipe treinada.
Entre os pontos que costumam ser avaliados antes de optar por essa técnica estão:
- capacidade respiratória do paciente e presença de doenças pulmonares prévias;
- risco de reduzir demais o movimento do diafragma em um dos lados;
- possibilidade de alternativas menos invasivas, como ajustes de medicamentos, tratamento de refluxo ou correção de distúrbios metabólicos;
- benefício esperado em relação ao impacto do soluço crônico na qualidade de vida.
Dessa forma, o bloqueio do nervo frênico é visto na prática clínica como um recurso específico contra o soluço resistente, utilizado após avaliação médica e esgotamento de medidas mais simples. A técnica se apoia em princípios anatômicos e fisiológicos bem definidos: se o nervo que comanda o diafragma é temporariamente silenciado, o ciclo de contrações involuntárias que caracteriza o soluço crônico tende a ser interrompido, permitindo que o organismo recupere um padrão respiratório mais estável.