Apesar da artrite e da baixa visão, Lucineia descobriu na dança a verdadeira felicidade
'A dança preencheu e preenche tanto a minha vida que eu nem sei te explicar. Me dá uma força, uma alegria que transformou a minha vida', conta a bailarina
Diagnosticada com artrite reumatoide - doença inflamatória crônica que pode afetar as articulações - aos 21 anos, Lucineia Felipe dos Santos sempre viveu com a dor. O tratamento até ajudava um pouco, porém o uso prolongado do remédio danificou sua retina.
Por isso mesmo, a dança e outras atividades com movimentos nunca foram indicadas pelos médicos. No entanto, foi ali que ela encontrou a sua paz.
"A dança me dá outro mundo. Longe da enfermidade, longe desse problema visual. É um outro caminho e outra visão de vida, é a minha luz no fim do túnel. Hoje eu vivo uma outra vida", conta a então bailarina Lucineia. "Hoje meu médico fala: 'Continue dançando, porque tudo que eu vejo é melhora - tanto física quanto psicológica'."
"Eu aprendi a conviver com a dor", diz Lucineia. A frase, apesar de forte, representa diversas das dores que ela já passou na vida: fome, cansaço, dor física, perdas e dores psicológicas. No entanto, nenhuma delas foi suficiente para pará-la: "Eu falo que sou dura na queda. Claro que há horas em que a tristeza vem forte, mas eu falo 'sai para lá', porque eu preciso me erguer".
Natural de São João Evangelista, uma pequena cidade de Minas Gerais, ela começou a ajudar o pai na roça aos 10 anos. Aos 15 já trabalhava em casas de família para ajudar com o sustento dos irmãos. "Nós éramos sete, sendo eu a irmã mais velha. E sempre vinha uma angústia de não ter o que comer, especialmente os menorzinhos. Era uma aflição muito grande então tinha de fazer alguma coisa", lembra ela.
O excesso de esforço físico foi determinante para que as dores no corpo começassem a surgir lá por volta dos seus 18 anos. "Quando eu acordava de manhã meu tornozelo sempre estava inchado e era muito dolorido colocar o pé no chão. Tinha de esperar algumas horas, fazendo alguns tipos de movimentos para conseguir", conta. O diagnóstico veio três anos mais tarde: artrite reumatoide. O tratamento exigia o uso de cloroquina, remédio que Lucineia usou por seis anos. No entanto, o uso prolongado do medicamento pode envolver danos à retina ocular. "Em 1994, quando eu mudei o tratamento para o Hospital das Clínicas, em São Paulo, veio a sensação de que tinha areia no meu olho. Foi aí que descobri que meu canal das lágrimas tinha secado. Somente em 2007 é que se teve a conclusão da maculopatia", diz.
A maculopatia é qualquer tipo de doença que afeta a mácula, pequena área do polo posterior da retina, e esse machucado pode levar à cegueira. "Hoje eu tenho 20% da visão a cada 200 metros. O que mais vejo é um excesso de claridade, não vejo rostos nem reconheço pessoas", detalha ela, que passou a ser considerada como pessoa com deficiência visual. Por conta disso, foi afastada do trabalho de comércio e encaminhada para a Fundação Dorina Nowill, que a ajudou na adaptação ao convívio com baixa visão. "Eles me perguntaram o que eu gostava de fazer, algo que me ajudasse e me distraísse, porque ainda não tinham um trabalho para mim. Respondi que eu amo dançar", conta.
Autonomia
A retomada da sua paixão começou com algumas aulas de dança de salão em uma escola inclusiva, mas em 2010 Lucineia se sentiu parte de um todo ao conhecer o grupo Dança Sem Fronteiras. Criado em 2010 pela dançarina Fernanda Amaral, com bailarinos com ou sem deficiências, o grupo permite padrões diferentes das danças e movimentos.
"A dança me dá uma sensação de liberdade tão grande… ela me leva lá para a infância, quando eu corria pelos campos, galopava nos cavalos, é uma sensação de voo que eu sinto com os giros, os pulos, os movimentos que eu faço", declara. Há 12 anos dançando, Lucineia já não se reconhece como outra coisa além de bailarina.
"A dança preencheu e preenche tanto a minha vida que eu nem sei te explicar. Eu nunca imaginei na minha vida estar em uma companhia de dança, poder dançar, ser boa nisso. Me dá uma força, uma alegria que transformou a minha vida", conta ela. Muito mais do que transformar seu condicionamento físico, percepção de espaço e rotina física, dançar lhe trouxe felicidade e um propósito, algo que não tem preço. As consequências foram vistas até mesmo pelo médico de artrite da bailarina, que pede para que ela não pare de rodopiar.