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Adultos devem se vacinar contra o HPV?

Somente em 2012, 266 mil mulheres morreram ao redor do mundo por infecções de colo de útero causadas pelo HPV; riscos de câncer causados pelo vírus também se estendem aos homens.

5 mar 2018
16h04
atualizado às 17h54
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Em meio a 295 mil mortes anuais causadas por diferentes tipos de câncer atribuídos ao HPV, muitos se perguntam: vale a pena se vacinar, ainda que fora da faixa etária em que a vacina é gratuitamente oferecida pelo governo?

Infecções por HPV vírus acontecem principalmente pelo contato sexual, mas podem ocorrer também pelo contato direto com a pele ou mucosa infectadas | Foto: Opas
Infecções por HPV vírus acontecem principalmente pelo contato sexual, mas podem ocorrer também pelo contato direto com a pele ou mucosa infectadas | Foto: Opas
Foto: BBC News Brasil

O papilomavírus humano (HPV) é o nome dado a um grupo de mais de 150 tipos de vírus, a maioria inofensiva. Porém, 13 tipos são considerados de alto risco, por estarem associados a lesões pré-cancerígenas. Desses 13 tipos, a vacina do HPV protege contra dois: os de número 16 e 18, por serem os mais comumente encontrados em lesões cancerígenas.

Essas duas estirpes do HPV são responsáveis por sete em cada dez casos de câncer do colo de útero em todo mundo. Também são a principal causa dos casos de câncer de ânus, de vagina e por seis em cada dez casos de câncer de pênis, segundo estudo publicado no periódico científico The Lancet em 2016.

Já os HPV de tipo 6 e 11 são associados às verrugas genitais, porém não há indicativos de que possam evoluir para câncer.

Infecções pelo vírus acontecem principalmente pelo contato sexual, mas podem ocorrer também pelo contato direto com a pele ou mucosa infectadas - por exemplo, contato manual-genital.

Mulheres e homens sob risco

O principal grupo sob risco são as mulheres, uma vez que o HPV é responsável pelo câncer de colo de útero - a quarta principal causa de morte entre mulheres no Brasil e no mundo.

Somente em 2012, 266 mil mulheres morreram ao redor do mundo por infecções de colo de útero causadas pelo HPV, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Somente em 2012, 266 mil morreram ao redor do mundo por infecções de colo de útero causadas pelo HPV | Foto: Opas
Somente em 2012, 266 mil morreram ao redor do mundo por infecções de colo de útero causadas pelo HPV | Foto: Opas
Foto: BBC News Brasil

No entanto, homens também estão sob risco. O HPV pode causar câncer de pênis, além de câncer de faringe e do ânus em ambos os sexos. Embora sejam menos comuns que o câncer de colo de útero, novos casos dessas doenças têm sido diagnosticados em todo o mundo.

Só em 2013, foram 396 mortes no Brasil causadas por câncer de pênis e mais de mil amputações do órgão devido a doença, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Esse tipo de tumor representa 2% de todos os tipos de câncer que atingem o homem e está associado, entre outros fatores, à infecção pelo HPV.

Vacinação previne, mas não cura

A maneira mais efetiva de se proteger contra as infecções é por meio da vacinação, que auxilia o corpo a desenvolver anticorpos e a estar preparado para combater o vírus caso venha a ser infectado ao longo da vida.

O Brasil utiliza a marca Gardasil, fabricada pela Merck Sharp & Dohme Farmacêutica Ltda, que protege contra os dois tipos mais agressivos do vírus, 16 e 18, e contra os de menor risco, 6 e 11, que causam verrugas genitais, mas não são cancerígenos.

Porém, assim como qualquer vacina, a imunização contra o HPV é preventiva: ela ajuda o corpo saudável a se armar contra o vírus antes de uma eventual infecção. Caso o indivíduo seja contaminado, a vacina não funcionará para tratar a doença. Por isso, é essencial se vacinar antes de ser infectado.

Altamente contagioso

O HPV é altamente contagioso e não tem cura - de acordo com um estudo publicado no The Lancet, oito em cada dez pessoas serão infectadas pelo HPV ao longo da vida, sendo que a maior parte terá sua infecção inicial entre os 15 e 24 anos.

Uma vez contaminados, alguns indivíduos conseguem eliminar o HPV entre dois a três anos após o contágio. Porém, uma parcela daqueles que são infectados não é capaz de desenvolver anticorpos e lutar contra o HPV. É nesses casos que a infecção pode evoluir para casos de câncer.

Como a eliminação do vírus pode levar anos, aqueles infectados, mesmo sem apresentar sintomas, podem contaminar outras pessoas, colocando outros sob risco de desenvolverem lesões cancerígenas.

Jovens versus adultos

Desde 2014, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina contra o HPV para crianças e pré-adolescentes de 9 a 14 anos, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A indicação para esse grupo está relacionada a sua maior capacidade imunológica de desenvolver anticorpos: estudos sobre a eficácia da vacina em diferentes grupos etários mostraram que a resposta imunológica do organismo é mais alta na pré-puberdade. Por isso, a imunização em massa é para aqueles entre 9 e 14 anos, e não em adultos.

| Foto: Opas
| Foto: Opas
Foto: BBC News Brasil

"A vacina induz a produção de anticorpos em qualquer pessoa, contra os quatro tipos de HPV contidos na vacina. No entanto, os mais jovens produzem mais anticorpos que os mais velhos", explica José Eduardo Levi, pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da USP.

"É possível que crianças ainda mais jovens apresentem os mesmos títulos altos de anticorpos (que aqueles na pré-puberdade), mas esse estudo não foi feito ainda. Por isso, aqueles de 9 a 14 anos são o principal grupo a ser vacinado", aponta Levi.

Apesar da queda na resposta imunológica com o passar dos anos, adultos que não foram expostos ao vírus podem se vacinar. Em agosto, o Ministério da Saúde estendeu a oferta gratuita da vacina contra o HPV pelo SUS para homens e mulheres de até 26 anos.

Sou um adulto e quero me vacinar: como fazer?

A vacina contra o HPV protege aqueles que ainda não foram expostos a quatro tipos do vírus: 16, 18, 6 e 8. Quem já teve contato com um desses tipos não estará protegido, mas estará a salvo dos tipos contra os quais ainda não houve contaminação. Portanto, apesar de a proteção diminuir, ela ainda pode ser efetiva.

"Se você já foi exposto ao HPV do tipo 16, a vacina não te protege contra esse especificamente, mas te protegerá contra os tipos 6, 11 e 18. Então, do ponto de vista individual, sempre vale a pena vacinar", afirma Levi.

Quem tem até 26 anos pode obter a vacina gratuitamente pelo SUS. Para aqueles acima dessa idade, é necessário se vacinar na rede privada. Laboratórios oferecem dois tipos de imunização: a bivalente e a quadrivalente. A primeira protege contra os dois tipos cancerígenos, 16 e 18, enquanto a quadrivalente, contra esses dois mais os de tipo de baixo risco.

Ambas as vacinas são compostas por três doses, pagas individualmente e tomadas a intervalos específicos de tempo. A bivalente custa, em média, R$ 200 por dose, enquanto a quadrivalente sai a aproximadamente R$ 300 por dose. Os preços variam por estabelecimento e, portanto, é recomendado checar os valores com diferentes clínicas de vacinação.

Como saber se estou contaminado

O diagnóstico sobre lesões causadas pelo vírus nas mulheres é obtido pelo exame de papanicolau, recomendado pelo menos uma vez ao ano. Já em homens, o diagnóstico é feito pelo exame urológico.

Naqueles que não apresentam lesões ou qualquer sintoma, é possível identificar se são portadores do vírus por meio de um exame chamado captura híbrida para HPV. Alguns laboratórios oferecem o exame apenas para os de alto risco, mas também é possível encontrar para os tipos não cancerígenos. Ao todo, é possível checar a presença de 18 tipos do vírus.

"Os exames de detecção e genotipagem do HPV são feitos a partir de uma amostra genital, exatamente como uma coleta de papanicolau. No homem, obtêm-se células do pênis usando um cotonete, escovinha ou swab embebido em solução fisiológica. Esse material vai para o laboratório, que irá verificar se existe DNA de HPV na amostra, e, se existir, informará o genótipo", explica Levi.

Pelo SUS, é possível realizar o papanicolau e o exame urológico gratuitamente. No entanto, a genotipagem do vírus é oferecida apenas àqueles que apresentam a presença do vírus. Para aqueles sem sintomas e que buscam exames preventivos, é possível detectar a presença do vírus por meio de testes na rede privada.

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