O que o seu jeito de dirigir revela sobre o seu cérebro
Mudanças no comportamento ao volante podem ser os primeiros sinais de alterações cognitivas e de saúde mental
Quando Karl Benz inventou a sua "carruagem sem cavalos", o Patent-Motorwagen, lá em 1885, sua intenção era facilitar o dia a dia. O que ele (e tantas outras pessoas que contribuíram para a evolução dos carros) não sabia era que, o que era apenas prática, anos depois se tornaria uma atividade de prazer.
Aquela sensação de estar ao volante em uma estrada vazia durante um pôr do sol, além de ser uma apreciação digna de filme, também traz diversos benefícios, e te levar do ponto A ao ponto B é o menor deles, já que dirigir pode fazer bem para sua saúde.
Deixar de dirigir pode ser sinal de alerta
Estudo publicado na revista científica Neurology reforça a relação entre direção e saúde cerebral. Pesquisadoras e pesquisadores da Washington University School of Medicine, nos Estados Unidos, acompanharam por mais de três anos os hábitos de direção de 298 pessoas idosas, com idade média de 75 anos.
Desse grupo, 56 participantes apresentavam comprometimento cognitivo leve, condição que pode anteceder alguns casos de demência, enquanto outras 242 pessoas não tinham alterações cognitivas.
O impacto de dirigir para o cérebro
Para Sonia Maria Dozzi Brucki, professora livre-docente em neurologia pela FMUSP e orientadora do programa de pós-graduação da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo, isso acontece porque dirigir exige que diversas áreas do cérebro trabalhem de forma integrada.
"É uma tarefa bastante complexa. Você precisa prestar atenção no veículo da frente, de trás, do lado, olhar os retrovisores, calcular distâncias, decidir quando frear e com qual intensidade. São várias pequenas tarefas acontecendo ao mesmo tempo."
Segundo a especialista, atividades desse tipo estimulam simultaneamente capacidades como atenção, memória operacional, tomada de decisão, tempo de reação e coordenação motora.
Sem idade para dirigir
Embora a pesquisa tenha acompanhado pessoas idosas, a especialista destaca que alterações cognitivas podem surgir em diferentes fases da vida, por causas variadas. Sendo assim, mudanças importantes na forma de dirigir merecem atenção independentemente da idade.
Esquecer trajetos habituais, ter dificuldade para calcular distâncias, precisar pensar muito para realizar ações que antes eram automáticas ou perceber alterações marcantes de comportamento no trânsito são alguns exemplos.
Ela acrescenta que a mudança nem sempre aparece apenas na execução da tarefa. Em alguns casos, pessoas podem se tornar mais impulsivas ou agressivas no trânsito. Então, se você percebe que sempre foi uma pessoa tranquila, mas ultimamente tem se visto xingando, buzinando e quase entrando em erupção no trânsito, preste atenção.
"Qualquer coisa que faça você sair do seu padrão habitual merece investigação. Se você passa a ter uma dificuldade maior em atividades que antes fazia bem, é preciso acender uma luz de alerta."
Prazer ao volante também influencia a saúde mental
Para muitas pessoas, a relação com a direção muda ao longo da vida. A sensação de liberdade e independência que acompanha os primeiros anos ao volante pode ganhar novos contornos com a maturidade.
É o caso de Natália Cigarro, que conta que sua percepção sobre dirigir se transformou com o passar dos anos. Quando era mais jovem, ela associava a direção à independência e ao empoderamento, mas também se irritava mais facilmente com as situações do trânsito. Hoje, encara o momento de outra forma.
"Quando era jovem me sentia independente e empoderada, mas era mais impaciente, me irritava com o trânsito. Hoje, com a maturidade, me sinto apreensiva e responsável por quem carrego no carro. Não me irrito mais com o trânsito, sigo no meu tempo e sempre calma", relata.
Para Matilde Sanches, o carro também representa um espaço de acolhimento em meio à rotina. Mais do que um meio de transporte, dirigir se tornou um momento de tranquilidade e privacidade.
Dopamina ao volante
Os três relatos que vimos acima são de mulheres acima dos 50 anos que provam o que a ciência vem acompanhando: dirigir traz benefícios para a saúde mental e pode se tornar uma forma de lidar com o estresse do dia a dia.
Segundo a neurologista Sonia Brucki, quando dirigir é uma experiência prazerosa, o cérebro tende a liberar dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de recompensa e bem-estar, o que pode contribuir para aliviar sintomas de ansiedade e depressão.
Mas vale ressaltar que os efeitos são diferentes em cada pessoa e situação. Dirigir num belo pôr do sol é, obviamente, diferente de dirigir às 18h de uma segunda-feira na marginal Tietê. De todo jeito, o exercício pode representar mais benefícios do que os meros quilômetros percorridos.
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